O ciclo vicioso da medicina. Começa de forma inocente: você vai até o balcão da farmácia com uma receita, o balconista consulta a disponibilidade dos produtos e, sem você saber, anota o número do registro profissional médico, o CRM. Foi dada a largada para um esquema multimilionário de captura de dados, escreve Amanda Rossi, “espécie de Big Brother das receitas”, que segue para duas empresas especializadas.
Em um ano, são processadas pelo menos 250 milhões de prescrições. O sistema se retroalimenta para influenciar o que vai ser prescrito em consultórios, clínicas e hospitais. “Não é só uma questão de privacidade, mas de conflito de interesses”, destaca a reportagem de TAB. Veja como funciona cada etapa.
Entidades que representam laboratórios e redes de farmácias não veem irregularidade na coleta de dados do receituário médico. Presidente da Associação Brasileira das Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma), Sérgio Mena Barreto diz que a captação de informações é “algo comum no mundo inteiro” e que a prática “acaba beneficiando o consumidor”. Segundo ele, “não faz sentido” saber o que determinado médico prescreveu e, sim, o comportamento de consumo em geral.
Nelson Mussolini, presidente do Sindicato das Indústrias Farmacêuticas do Estado de São Paulo (Sindusfarma), que representa 95% do mercado de medicamentos no Brasil, nega que os dados sejam utilizados para pressionar médicos. Conforme o dirigente, as pesquisas são “muito genéricas e trazem dados globais, que auxiliam a indústria para saber qual a performance dos seus produtos”:
– A gente olha o número de prescrições, mas não olha se foi médico A, B, C ou D.
Sobre a atuação dos propagandistas, Mussolini reconhece que é proibido oferecer qualquer tipo de vantagem em troca de prescrição. No entanto, admite que “existem alguns patrocínios em congressos médicos, mas isso é muito claro e voltado para transferência de conhecimento”.
Algumas entidades, como a Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma), têm código de conduta que baliza a relação com os profissionais de saúde. De acordo com Pedro Bernardo, diretor da Interfarma, o regulamento proíbe que seja oferecida qualquer vantagem que “possa influenciar a conduta do médico na hora de prescrever” – o que inclui pequenos brindes:
– O médico tem de ter total liberdade para fazer sua prescrição.