A Moody’s Ratings colocou algumas das maiores empresas brasileiras no centro de um alerta sobre o aumento do risco de refinanciamento no país. Segundo relatório divulgado nesta quarta-feira, 5, juros elevados, vencimentos próximos e acesso mais restrito ao mercado internacional estão pressionando a qualidade de crédito das companhias.
Na escala da agência, Aaa representa o menor risco de crédito. As notas Ba, B, Caa e Ca ficam abaixo do grau de investimento e indicam diferentes níveis de risco especulativo. A perspectiva negativa sinaliza maior possibilidade de rebaixamento no médio prazo, mas não representa, por si só, um corte imediato na nota. A perspectiva estável indica menor probabilidade de mudança, não ausência de risco.
Entre janeiro e julho de 2026, a Moody’s adotou 12 ações negativas de rating envolvendo empresas brasileiras não financeiras e não reguladas. Isso não significa que tenham ocorrido 12 casos de inadimplência. O número reúne decisões como rebaixamentos de notas e mudanças de perspectiva.
Cerca de 14% da carteira analisada pela agência está com perspectiva negativa ou em revisão para rebaixamento. Na avaliação da Moody’s, novas ações negativas poderão ocorrer caso as empresas não adotem medidas para fortalecer sua qualidade de crédito.
O relatório, contudo, faz uma distinção importante. Raízen (RAIZ4), Cosan (CSAN3), Rumo (RAIL3), CSN (CSNA3), Amaggi, FS, OHI e Braskem (BRKM5) aparecem associadas a avaliações específicas sobre reestruturação, liquidez, aumento da alavancagem ou deterioração da qualidade de crédito.
Já Natura (NATU3), Movida (MOVI3), Eldorado Brasil Celulose, J&F, Iochpe-Maxion (MYPK3) e BRF, controlada pela MBRF (MBRF3), são mencionadas entre as empresas com vencimentos expressivos até 2028, sem que o relatório apresente, nesse trecho, uma avaliação individual de dificuldade de pagamento.
A presença nessa segunda lista não significa que todas essas companhias estejam inadimplentes ou enfrentem problemas imediatos de liquidez. A Moody’s as destaca por terem volumes relevantes de dívida a vencer em um ambiente de crédito mais caro e restrito.
O documento também ressalta que a publicação não representa, por si só, uma nova ação de rating. Trata-se de uma análise sobre as condições de crédito das empresas brasileiras.
A Moody’s Ratings é uma das principais agências de classificação de risco do mundo. A empresa atribui notas que expressam sua avaliação sobre a capacidade de companhias, governos e outros emissores de pagar suas dívidas integralmente e dentro dos prazos contratados. Os ratings são opiniões sobre risco de crédito, não recomendações de compra ou venda de ações.
Raízen reestrutura capital e aumenta pressão sobre Cosan
A Moody’s afirma que a Raízen (RAIZ4), produtora de açúcar e etanol que também atua na distribuição de combustíveis, está reestruturando sua estrutura de capital. A companhia é uma joint venture formada por Cosan e Shell.
O impacto desse processo se estende à Cosan (CSAN3), holding com investimentos nos setores de energia, logística e mobilidade e uma das controladoras da Raízen. Segundo a agência, a Cosan tinha aproximadamente R$ 28 bilhões em dívidas atreladas a taxas flutuantes em fevereiro de 2026.
Na avaliação da Moody’s, a holding ainda apresenta baixa cobertura de juros e continua dependente da monetização de ativos para reduzir seu endividamento e melhorar a estrutura de capital.
Esse quadro levou a agência a rebaixar, em julho, os ratings da Cosan, atualmente em B1 com perspectiva negativa, e da Rumo (RAIL3), sua subsidiária de logística ferroviária, classificada como Ba3 com perspectiva negativa.
A Rumo é a maior operadora ferroviária do país e transporta principalmente commodities agrícolas até portos e terminais.
A Moody’s afirma que os rebaixamentos da Cosan e da Rumo refletiram, em parte, o estresse de crédito decorrente da reestruturação da Raízen.
CSN enfrenta aumento do risco de refinanciamento
A avaliação sobre a CSN (CSNA3) é uma das mais contundentes do relatório. A companhia atua em cinco setores: siderurgia, mineração, cimento, logística e energia.
A Moody’s afirma expressamente que o risco de refinanciamento aumentou para a empresa, classificada como Caa1 com perspectiva negativa.
Segundo a agência, a CSN pretende levantar entre R$ 15 bilhões e R$ 18 bilhões com a venda de participações minoritárias em negócios de infraestrutura e de participações majoritárias no segmento de cimento. O objetivo é reduzir o endividamento da holding.
A Moody’s alerta, entretanto, que as despesas elevadas com juros e os investimentos de expansão na subsidiária de mineração aumentam o risco de transações que poderiam ser classificadas como “distressed exchanges”.
A expressão se refere a renegociações realizadas sob estresse financeiro, nas quais os credores recebem condições inferiores às originalmente contratadas. Pelos critérios da Moody’s, esse tipo de operação pode ser considerado um evento de inadimplência.
O relatório não afirma que a CSN já tenha realizado uma operação dessa natureza. A agência aponta que a combinação de despesas financeiras elevadas e investimentos aumenta esse risco.
Aquisição financiada por dívida pressiona Amaggi
A Moody’s alterou para negativa a perspectiva do rating da André Maggi Participações, empresa do grupo Amaggi, em julho. A companhia está classificada como Ba3.
A Amaggi atua em diferentes etapas da cadeia do agronegócio, incluindo produção agrícola, comercialização e processamento de grãos, logística e geração de energia renovável.
De acordo com a agência, a mudança de perspectiva refletiu a aquisição, financiada por dívida, de uma participação na FS Indústria de Biocombustíveis. A Moody’s estima que a operação elevará a alavancagem da Amaggi para níveis superiores aos considerados adequados para sua nota de crédito nos próximos 12 meses.
A avaliação não significa que a aquisição tenha provocado uma inadimplência. O alerta está relacionado ao aumento esperado da dívida em comparação com a capacidade de geração de resultados da companhia.
FS terá alavancagem elevada até 2027
A Moody’s também rebaixou a FS em um nível, para B1 com perspectiva estável.
A FS produz etanol, ingredientes para nutrição animal e bioenergia a partir do milho. A empresa iniciou suas operações em 2017 e possui unidades industriais em Mato Grosso.
A agência relaciona o rebaixamento aos planos da companhia de construir uma quinta usina de etanol de milho enquanto a quarta unidade ainda está em obras.
O relatório reconhece que a FS já assegurou o financiamento necessário para a expansão. Ainda assim, a Moody’s avalia que o aumento significativo da dívida manterá a alavancagem da empresa elevada até 2027.
O ponto de atenção, portanto, não é a ausência de recursos para concluir os projetos, mas o impacto do novo endividamento sobre a estrutura financeira da companhia.
Liquidez da OHI se deteriorou
A OHI, companhia que presta serviços de transporte por helicóptero, principalmente para operações ligadas à indústria de energia, foi rebaixada em julho para B3, com perspectiva negativa.
Segundo a Moody’s, a decisão reflete a baixa geração de caixa e as despesas elevadas com juros. A agência afirma ainda que a deterioração da liquidez obrigará a companhia a buscar medidas para melhorar sua estrutura de capital, reforçar a liquidez e reduzir o custo de financiamento.
Entre os casos detalhados no relatório, a OHI aparece como uma das empresas mais diretamente pressionadas pela combinação de geração de caixa fraca e despesas financeiras elevadas.
Acordo da Braskem foi considerado inadimplência
No caso da Braskem (BRKM5), produtora de resinas termoplásticas e outros produtos petroquímicos, a Moody’s afirma que o acordo de suspensão temporária firmado com credores em junho de 2026 equivaleu a uma inadimplência.
A companhia está classificada como Caa3, com perspectiva negativa.
Essa classificação segue a metodologia da própria agência. Não significa necessariamente que a Braskem tenha deixado de pagar todas as suas obrigações, mas que o acordo com os credores atendeu aos critérios utilizados pela Moody’s para caracterizar um evento de default.
Natura, Movida e outras empresas têm vencimentos expressivos
Além dos casos analisados individualmente, a Moody’s apresenta uma lista de empresas brasileiras com vencimentos expressivos de dívida até 2028.
Estão nesse grupo CSN, a fabricante de cosméticos Natura (NATU3), a empresa de aluguel de veículos, terceirização e gestão de frotas, Movida (MOVI3), Rumo, Amaggi, Eldorado Brasil Celulose, J&F, a favricante de rodas Iochpe-Maxion (MYPK3) e BRF, controlada pela MBRF (MBRF3). CSN, Rumo e Amaggi também aparecem nas avaliações específicas relacionadas às recentes ações negativas de rating. A Eldorado Brasil produz celulose de eucalipto destinada a mercados como embalagens, papéis de higiene, impressão e papéis especiais. A companhia é controlada pela holding J&F.
Para Natura, Movida, Eldorado, J&F, Iochpe-Maxion e BRF, o trecho do relatório não apresenta uma análise individual que indique deterioração da liquidez ou dificuldade de pagamento.
Natura e Movida estão classificadas como Ba3 com perspectiva estável. A Eldorado Brasil Celulose também tem rating Ba3 estável. J&F e BRF aparecem com Ba2 estável, enquanto a Iochpe-Maxion tem classificação Ba1 estável.
A Moody’s cita essas empresas porque o volume de vencimentos exigirá acesso contínuo a fontes de financiamento. Diante da restrição do mercado internacional e do aumento dos custos, a agência avalia que as companhias precisarão recorrer a empréstimos bilaterais, captações domésticas ou outras iniciativas de liquidez.
Juros altos ampliam a pressão
O pano de fundo é o nível elevado da Selic. Na data do relatório, a taxa básica estava em 14,25% ao ano. Na noite da quarta-feira, o Copom reduziu a taxa Selic para 14%. A Moody’s projeta que essa redução seja a última do ano e 12% no encerramento de 2027.
A agência estima que cerca de um terço da dívida corporativa brasileira avaliada por ela esteja atrelada a taxas flutuantes. A exposição é maior nos setores de varejo, distribuição de combustíveis, proteína e agricultura, locação de veículos, transporte, açúcar e etanol.
Nesse ambiente, as empresas com dívidas indexadas aos juros brasileiros sofrem um aumento mais rápido das despesas financeiras. A pressão é maior entre companhias que começaram o ciclo de aperto monetário com alavancagem elevada, vencimentos concentrados no curto prazo ou aquisições e investimentos financiados com dívidas de prazo reduzido.
A Moody’s também chama atenção para empresas que financiaram aquisições e projetos de grande porte com recursos de curto prazo sem manter reservas suficientes de caixa ou linhas de crédito previamente contratadas. Para a agência, essas decisões podem indicar fragilidades na governança financeira.
Mercado continua aberto, mas está mais seletivo
O número de operações de emissão de empresas brasileiras caiu de 167 no primeiro semestre de 2025 para 125 no mesmo período de 2026. A redução foi de 25%.
Segundo a Moody’s, o mercado internacional permanece acessível principalmente aos emissores de primeira linha. As demais empresas estão mais dependentes do crédito bancário doméstico e de estruturas lastreadas em recebíveis para atender às necessidades de refinanciamento.
A agência ressalta que a deterioração não atinge todas as companhias da mesma maneira. Empresas com negócios resilientes, alavancagem conservadora e liquidez elevada continuam conseguindo captar recursos. As mais endividadas, por outro lado, enfrentam custos maiores e alternativas mais limitadas.
Apesar do aumento das ações negativas de rating, a Moody’s afirma que a taxa geral de inadimplência da América Latina permanece próxima da média global e abaixo dos níveis registrados em 2023 e 2024.
Fonte: Forbes Brasil
