As negociações com ações ligadas à inteligência artificial (IA) estão mudando de perfil, à medida que o interesse dos investidores se amplia para além das fabricantes de semicondutores e das empresas beneficiadas pelo capex em IA, afirmou Peter Callahan, especialista do setor de Tecnologia, Mídia e Telecomunicações dos EUA na divisão de FICC e Equities do Goldman Sachs, em episódio do podcast The Markets gravado na quarta-feira (30).
Segundo Callahan, a tese de tecnologia e IA segue intacta, mas tornou-se mais “nuançada”, com uma dispersão muito maior entre os papéis — o que, na prática, configura um mercado de stock picking. “Estamos no terceiro ou quarto ano do ciclo de IA”, disse. Ele avalia que a tendência para tech continua de alta, sustentada por crescimento de lucros, valuations e ventos favoráveis temáticos, mas observa que o setor entrou em modo de consolidação no verão americano, após um primeiro semestre forte. No período, metade das dez maiores ações de tecnologia subiu e a outra metade caiu. Juros, petróleo e o quadro macro, temas menos presentes no início do ano, passaram a pesar na discussão.
Trade mais amplo
Nos primeiros anos do ciclo, investir em IA significava basicamente comprar semicondutores, como um beta do capex — a lógica de “picks and shovels” [vender as ferramentas da corrida do ouro]. Nos últimos meses, segundo o especialista, o foco subiu na cadeia, chegando às camadas de software de infraestrutura e de segurança e às empresas que ajudam organizações a adotar e implementar a tecnologia. Agentic commerce [comércio conduzido por agentes de IA], cybersecurity e ações de infraestrutura de dados fazem parte desse movimento. Para Callahan, a maior amplitude do trade é positiva, ainda que gere um ambiente mais seletivo do que uma única narrativa temática.
Ele relatou que a conferência de tecnologia do banco, a Communicopia + Technology, realizada no início de setembro, transmitiu uma visão construtiva sobre o setor, com empresas destacando ganhos de produtividade e novas oportunidades de receita, inclusive no lado do consumidor, com a ascensão dos assistentes pessoais. O ponto central, porém, continua sendo a régua de comparação entre os trilhões de dólares investidos em capex e o retorno obtido pelas empresas — algo que a temporada de balanços do terceiro trimestre deve começar a quantificar.
Sobre os riscos do build-out de IA, Callahan disse que a principal preocupação dos investidores não é o destino final, visto como uma megatendência de uma década, mas a linearidade da implantação, ou seja, o ritmo de construção e ativação dos data centers, que se tornou mais incerto.
Software dividido
No segmento de software, que sofreu forte queda no início do ano, se recuperou no verão e voltou a ficar pressionado no último mês, o cenário também é de dispersão. As empresas de cybersecurity e infraestrutura de dados, consideradas apostas em inference [uso de modelos já treinados], tornaram-se um tema forte. Já o núcleo de SaaS e da camada de aplicações ainda enfrenta dúvidas sobre product-market fit, precificação e posicionamento diante da nova camada de modelos de IA. Para Callahan, a volta da dispersão é melhor do que a correlação próxima de 1 vista no primeiro semestre, e o posicionamento dos investidores segue como vento favorável para o subsetor.
Pressão dos juros
O especialista afirmou que os juros se tornaram fator relevante para os investidores de tecnologia. Neste ano, o múltiplo da Nasdaq comprimiu cerca de 20%, com o yield do Treasury de 10 anos acima de 5,25%. Ainda assim, o setor gerou bons retornos graças à manutenção da tese e do crescimento de lucros. Segundo ele, os juros não afastam os investidores de tech, mas transferem para os lucros, e não para os múltiplos, o peso de sustentar as ações. A compressão dos P/L também reflete dúvidas sobre por quanto tempo será possível manter crescimento de lucros acima de 20%. Se a IA entregar ganhos de produtividade e as margens corporativas seguirem saudáveis, o setor deve conseguir escalar o “muro de preocupações” com 2027 e 2028.
Onde estão as oportunidades
Callahan destacou dois focos. O primeiro são os semicondutores, grupo que está de lado há algum tempo e teve compressão de múltiplos, mas que pode reencontrar tração até os resultados do terceiro trimestre, com o avanço da narrativa de IA para o consumidor nas últimas semanas. O segundo são consumer services e experiências de consumo, incluindo serviços de internet, e-commerce e eventos ao vivo. As ações de consumo registraram em setembro um dos piores meses de desempenho relativo em mais de dez anos, pressionadas por juros e petróleo, o que, na visão do especialista, abre espaço para buscar ideias idiossincráticas na reta final de 2026.
Para o próximo mês, ele acompanhará os dados macro do início de outubro e a reunião do Fed no fim do mês, para a qual o mercado precifica cerca de 40% de chance de alta de juros. A temporada de balanços começa em meados do mês, com atenção ao retorno sobre o capital investido em IA, dentro e fora do setor de tecnologia. As eleições de meio de mandato nos EUA, a cerca de 30 dias, também estarão no radar.
Fonte: Goldman Sachs — podcast The Markets, “AI Is Becoming a Stock Picker’s Market”, com Peter Callahan (30 de setembro de 2026)


