O Goldman Sachs deixou de esperar uma alta de juros pelo Federal Reserve em outubro e empurrou para dezembro a segunda elevação prevista em seu cenário. O banco também passou a ver uma forte probabilidade de o FOMC concluir que novos aumentos são desnecessários. A revisão veio após o índice de preços do PCE núcleo de agosto surpreender para baixo e ganhou reforço com declarações do presidente do Fed de Nova York, John Williams, para quem, depois da alta de setembro, não há urgência e o comitê tem tempo para reunir mais informações.
O PCE núcleo subiu 0,25% em agosto, abaixo da estimativa do Goldman (0,27%) e da mediana do mercado (0,3%). Em 12 meses, a alta ficou em 3,01%, bem aquém dos 3,3% esperados pelo consenso. Pesou na leitura uma mudança metodológica do BEA, que reduziu em 0,36 ponto percentual a taxa anual de julho, para 2,98%. A maior parte do ajuste veio do componente de gestão de portfólios (-0,23 p.p.), seguido de software e acessórios de computador (-0,11 p.p.), com efeito marginal em serviços jurídicos (+0,01 p.p.). O corte foi maior do que o banco previa, sobretudo em gestão de portfólios. A média aparada do Fed de Dallas, pelas contas do Goldman, avançou 0,16% no mês e 2,20% em 12 meses. O PCE cheio subiu 0,31% no mês e 3,42% no ano.
Com isso, o Goldman reduziu sua projeção para o PCE núcleo de 2026 para 3,0% na comparação Q4/Q4, bem abaixo dos 3,4% da mediana dos participantes do FOMC.
Na atividade, o quadro segue firme. A terceira leitura do PIB do segundo trimestre foi revisada de 1,5% para 2,2% (taxa anualizada), puxada pelo consumo, que passou a crescer 3,8%, e pelo investimento, que subiu 4,6%. O investimento fixo privado avançou 9,0%, com destaque para data centers na categoria de estruturas não residenciais. O banco atribui a força do consumo a restituições de impostos acima do normal e espera desaceleração no quarto trimestre, com o fim do impulso fiscal e a pressão dos preços de energia.
As revisões anuais das contas nacionais elevaram o crescimento do primeiro trimestre de 2026 em 0,4 p.p., para 2,5%, com ajustes modestos nos anos anteriores. A taxa de poupança foi revista para cima de forma significativa e ficou em 4,1% em agosto, após recuo de 0,5 p.p. no mês. A renda pessoal subiu apenas 0,2%, abaixo dos 0,5% esperados, enquanto os gastos pessoais avançaram 0,9%, em linha com o consenso. A renda disponível cresce 4,8% em 12 meses.
Do lado externo, o déficit comercial de bens se ampliou em US$ 13,7 bilhões, para US$ 132,6 bilhões em agosto, muito acima dos cerca de US$ 115 bilhões projetados. As importações saltaram US$ 17,4 bilhões, para US$ 336,1 bilhões, puxadas por insumos industriais e bens de capital, enquanto as exportações cresceram US$ 3,7 bilhões, para US$ 203,4 bilhões. Os dados de estoques, porém, vieram mais fortes, e o efeito líquido foi um corte de apenas 0,1 p.p. no tracking do PIB do terceiro trimestre, agora em 3,3%.
No mercado de trabalho, o relatório da ADP mostrou criação de 90 mil vagas privadas em setembro, acima dos 75 mil esperados, com ganhos em educação e saúde, lazer e hospitalidade, manufatura e construção, e cortes em atividades financeiras. O salário-base mediano subiu 3,0% para quem permaneceu no emprego e 4,8% para quem trocou de vaga. Antes do payroll oficial, o Goldman manteve projeção de 80 mil vagas, abaixo dos 90 mil do consenso.
Fonte: Goldman Sachs Economics Research, “USA: Pushing Back Fed Rate Hike on Lower Core PCE Inflation; Q2 GDP Revised Up to +2.2%; Trade Deficit Widens More Than Expected”, 30/09/2026.


