O Federal Reserve elevou a taxa básica de juros em 0,25 ponto percentual em 16 de setembro e, contrariando o velho ditado de Wall Street “não brigue com o Fed”, o mercado de ações subiu. A avaliação é de Andrew Slimmon, managing director e senior portfolio manager do Applied Equity Team da Morgan Stanley Investment Management, em seu comentário mensal Slimmon’s TAKE de setembro.
Segundo o gestor, historicamente, desde 1950, o S&P 500 registra retorno médio de +1,7% nos meses em que o Fed corta juros e de -0,5% nos meses em que eleva. Ainda assim, o índice acumulou alta de 2,08% desde a decisão até 25 de setembro.
Os motivos do relief rally
Slimmon aponta quatro razões para a recuperação. A primeira é que o S&P 500 vinha andando de lado desde o fim de maio, sem avançar apesar de fundamentos excelentes, o que sugere que o mercado já se preparava para um Fed menos dovish. A segunda é que o sentimento, que ele considera um excelente indicador contrário, estava completamente deprimido: o indicador bull/bear da AAII estava em território pessimista e o CNN Fear/Greed, firmemente em modo de medo.
A terceira razão é que, na entrevista coletiva, o presidente do Fed, Kevin Warsh, destacou sua visão de que o crescimento econômico está acelerando, algo que o US Financial Conditions Index, os indicadores antecedentes e o Citi Economic Surprise Index pareceram validar. Para o gestor, isso indica que as estimativas de lucros, em alta durante todo o ano, ainda podem estar baixas para 2026 e 2027. A quarta é que, ao subir os juros, Warsh, indicado por Trump, sinalizou independência do Fed, priorizando o combate à inflação em vez de agradar à Casa Branca. Na sabatina de Warsh, em 21 de abril de 2026, um senador proeminente havia sugerido que ele simplesmente seguiria a vontade do presidente.
Ambiente mudou
O gestor reconhece, porém, que o ambiente para as ações mudou, com o Fed migrando da política acomodatícia de 2025 para uma postura mais restritiva. Se as altas forem moderadas, como entre o fim de 2015 e 2017, as ações podem ter bom desempenho: naquele ciclo, iniciado em dezembro de 2015, com uma alta em 2016 e três em 2017, o S&P 500 subiu 12,0% em 2016 e 21,8% em 2017. Já um Fed muito mais restritivo, como em 2022, teria impacto bem mais negativo — naquele ano, o banco central elevou os juros sete vezes, em mais de 400 pontos-base no total, e o índice caiu 19,4%.
Para Slimmon, ninguém sabe qual será o cenário, e os próximos dados mensais de inflação ao consumidor (CPI) serão decisivos. A trajetória do Fed só deve ficar clara em 2027, e essa incerteza continuará pesando sobre as ações.
Do macro ao micro
O gestor avalia que o quarto trimestre pode marcar uma volta do foco dos investidores para o “micro”, em linha com o padrão do ano: no primeiro trimestre, com foco no macro, o S&P 500 caiu 4,35%; no segundo, com foco no micro, subiu 15,20%; no terceiro, de novo dominado pelo macro, avançou 3,25% até 25 de setembro. Ele lembra que o quarto trimestre é historicamente o melhor do ano, quando o mercado passa a olhar as projeções do ano seguinte, e que as estimativas de lucros para 2027 subiram ainda mais desde sua edição de agosto.
As eleições de meio de mandato também devem ajudar. Desde a criação do S&P 500, o partido de oposição ganhou cadeiras em 17 de 19 eleições de midterm, e o mercado subiu nos 12 meses seguintes em todas as 19 ocasiões. Na visão de Slimmon, o mercado gosta de impasse em Washington, e a concentração atual de poder em um único partido tem gerado ansiedade entre investidores americanos.
Gestão de risco
Slimmon afirma que, embora otimista, a equipe mantém ações de beta mais baixo nas carteiras long-only, que ajudam em quedas. Essas posições pesaram no desempenho relativo no segundo semestre de 2025, quando o então presidente do Fed, Jerome Powell, sinalizou em agosto a mudança para um ciclo de cortes: do discurso de 22 de agosto até 31 de dezembro de 2025, o S&P 500 subiu 6%, enquanto o Invesco High Beta ETF avançou 12% e o Low Volatility ETF caiu 3%. Com a postura mais restritiva de Warsh, a menor previsibilidade pesa sobre os papéis de beta alto, o que torna o controle de risco mais importante.
O gestor destaca a United Rentals (URI), presente em todas as estratégias da equipe — com pesos de 1,49% no Applied Global Concentrated, 1,84% no Applied Global Core e 1,89% no Applied US Core em 31 de agosto. Ele chama a locadora de equipamentos de “a melhor economista”, pela amplitude de sua atuação. Segundo Slimmon, a empresa contradiz a tese de que a força da economia se resume ao build-out de IA: embora o setor imobiliário siga fraco, a URI aponta projetos de energia e infraestrutura, além de data centers, como fontes de forte crescimento em 2026. Para o gestor, os benefícios fiscais corporativos do One Big Beautiful Bill são um fator importante, ao estimular o capex.
Europa e Japão
Por fim, Slimmon observa que, do fim de 2009 aos 15 anos seguintes, as bolsas da Europa e do Japão tiveram retorno composto de 5% a 6% ao ano, contra 14% ao ano do S&P 500, em dólares — ou seja, ficar nos EUA rendeu três vezes mais do que seguir as recomendações de diversificar. Desde 2025, porém, esses mercados não só acompanharam o S&P 500 como o superaram marginalmente. Para ele, a diferença está nas revisões de lucros, que estão em inflexão para cima no MSCI Europe e no MSCI Japan. “Uma ação regride ao valor presente de todas as expectativas futuras”, reiterou, ao defender que o que importa não é a taxa de crescimento, mas a entrega frente ao esperado. As revisões positivas, disse, aumentam a confiança da equipe nas ações fora dos EUA em suas estratégias globais.
Fonte: Morgan Stanley Investment Management — Equity Market Commentary, “Slimmon’s TAKE”, Andrew Slimmon, Applied Equity Team (setembro de 2026)


