O mercado brasileiro de venture capital (investimento em startups com alto potencial de crescimento) deu sinal de recuperação no segundo trimestre. Os investimentos somaram US$ 391,6 milhões, 16,6% acima dos US$ 335,9 milhões registrados entre janeiro e março, mas 9% abaixo dos US$ 430,3 milhões apurados no mesmo período do ano passado, segundo o último relatório da KPMG sobre o setor.
Embora tenha sido uma melhora leve, o relatório destaca que o clima foi de otimismo, impulsionado pelo fato de a “legaltech” brasileira Enter ter se tornado o primeiro unicórnio (quando uma novata atinge valor de mercado de US$ 1 bilhão antes de abrir capital na bolsa) de inteligência artificial (IA) da América Latina.
A startup captou US$ 100 milhões na Série B, o que lhe rendeu uma avaliação de US$ 1,2 bilhão. A leitura é que o Brasil poderá ver um número crescente de novas empresas de IA focadas em fornecer soluções de nicho.
O cenário brasileiro foi bem mais modesto que o global, que manteve um ritmo forte de investimentos no segundo trimestre. O venture capital movimentou US$ 227,4 bilhões no período, segundo maior volume da série, iniciada em 2020. O total ficou abaixo apenas do registrado no primeiro trimestre, de US$ 332,9 bilhões, recorde histórico, após a rodada de US$ 122 bilhões da OpenAI.
As transações no mundo entre abril e junho também foram impulsionadas por rodadas bilionárias de empresas de inteligência artificial, que concentraram grande parte dos recursos captados. É o caso da Anthropic, que levantou US$ 65 bilhões, e dos aportes bilionários na Project Prometheus e na Anduril.
Na liderança da IA, os Estados Unidos responderam por US$ 144,9 bilhões no segundo trimestre. Excluídas as operações de grande porte, a atividade global permaneceu relativamente estável, segundo a KPMG.
O relatório destaca que as estreias na Nasdaq movimentaram o mercado, já que a drástica queda das ofertas públicas iniciais (IPO, na sigla em inglês) vinha sendo um fator dificultador para os investimentos em startups, por serem uma opção natural de saída das investidas com lucro.
No mundo, os investimentos em startups somaram US$ 227,4 bi no período, segundo maior volume da série histórica
Não foram operações numerosas, mas sim poucas e grandes: SpaceX, com US$ 75 bilhões, e Cerebras, fabricante de chips, com US$ 5,5 bilhões. A KPMG destaca que a previsão é que tanto a Anthropic quanto a OpenAI sigam os passos da empresa de Elon Musk antes do fim do ano.
No terceiro trimestre de 2026, o estudo afirma que a IA deve continuar sendo o principal alvo de investimentos em startups no mundo. Com as tensões geopolíticas, diz a consultoria, o interesse no setor de tecnologia de defesa aumentou no segundo trimestre.
“Embora a Anduril Industries, sediada nos EUA, tenha levantado a maior rodada de financiamento do setor de tecnologia de defesa em nível global (US$ 5 bilhões) durante o trimestre, a Europa continuou apresentando um ambiente robusto para investimentos nesse setor, atraindo um financiamento de US$ 392 milhões pela Aura Aero, empresa de aeronaves híbrido-elétricas de dupla utilização”, diz o relatório.
Saúde e biotecnologia são outro setor que teve bom desempenho no segundo trimestre de 2026. A Isomorphic Labs, empresa britânica especializada em motores de IA para o desenvolvimento de medicamentos, captou US$ 2,1 bilhões, e a MiRus, empresa americana de biotecnologia focada em soluções terapêuticas para doenças cardiovasculares e ortopédicas, US$ 1,5 bilhão.
Diante da volta da euforia frente à IA, os fundos de venture capital dos Estados Unidos já conseguiram levantar neste ano até junho quase o mesmo montante do ano passado inteiro: US$ 72,4 bilhões, frente a US$ 74,9 bilhões de 2025 inteiro, de acordo com a KPMG.
“A IA está em grande ascensão no momento, apesar de haver uma verdadeira dúvida sobre se as avaliações chegarão a se concretizar para algumas das maiores startups”, afirma Scott Burger, sócio da KPMG nos Estados Unidos.
Segundo a KPMG, no Brasil o ambiente de investimentos no país segue distante da euforia observada durante a pandemia, quando o excesso de liquidez impulsionou aportes recordes em startups. Agora, o foco está em empresas com modelos de negócio mais consolidados, capacidade de execução e perspectivas mais claras de retorno para os fundos do segmento.
Carolina Oliveira, líder global de “emerging giants” (startups em crescimento acelerado) e responsável pela área de empresas privadas na América do Sul da KPMG, afirma que os sinais mais importantes no Brasil em 2026 são qualitativos. “O capital está retornando com maior disciplina”, afirma a executiva.
De acordo com ela, a próxima fase no país deve ser impulsionada por soluções verticais de IA aplicadas a desafios locais, especialmente em setores complexos como o jurídico, cujo caminho foi aberto pela Enter, serviços financeiros, saúde e back-office corporativo.
Fonte: Valor Econômico
