Embora veja o ciclo atual de cortes da Selic como “inadequado”, o economista-chefe da Adam Capital, Juliano Cecílio, avalia que não há nada no comunicado da decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central que o impeça de manter seu plano de voo e voltar a reduzir a taxa básica de juros em 0,25 ponto percentual na sua próxima reunião, em setembro. Cecílio avalia a comunicação do Copom como neutra, mas muito otimista em relação ao seu próprio cenário, que não contempla uma tendência clara de desinflação, apesar de dados recentes mais benignos.
Valor: O que achou do comunicado do Copom?
Juliano Cecílio: Achei bem neutro. Melhorou o diagnóstico de inflação, já que de fato ela desacelerou no interregno entre uma reunião e outra, tanto nas medidas “cheias” quanto nos núcleos. Foi algo que aconteceu em vários países e pode ter sido um reflexo da volta do petróleo, ao mesmo tempo em que o governo manteve a política de represamento dos preços de combustíveis, ajudando a conter a inflação de alimentos, passagens aéreas etc. Quando passamos para a avaliação sobre a atividade, ela de fato se moderou depois de um primeiro trimestre forte, então fez sentido o comentário do Copom. Então, o reconhecimento da desaceleração já era esperada.
Valor: Depois do ruído causado pelo comunicado da decisão de junho, acha que o texto foi construído para gerar pouca volatilidade?
Cecílio: Com certeza. Ele cortou inteiro o parágrafo em que descrevia cenários alternativos e ampliava o horizonte relevante para além do período de 18 meses à frente, o que causou bastante confusão na reunião passada. Houve um aprendizado de uma comunicação que não foi bem entendida ou bem feita. Agora, o BC tentou ser mais simples. A comunicação ficou mais limpa e, de fato, melhor.
Valor: Considera correta a caracterização sobre atividade econômica e inflação?
Cecílio: Uma coisa é olhar com as lentes do BC, que já estavam ajustadas para uma projeção menor de inflação. Dado que já existia uma preferência em cortar a Selic, com hipóteses mais neutras sobre o impacto da política fiscal, por exemplo, faz sentido ele ter cortado pensando no ‘modus operandi’ da sua decisão. Nós, porém, continuamos a ver outro cenário a médio e longo prazo. A inflação recente mais baixa foi muito induzida pelo represamento dos preços dos combustíveis e a sazonalidade do meio do ano, que todo ano traz uma inflação mais baixa. Quando olho os vetores que alimentam a inflação, como a política fiscal e o mercado de trabalho, sigo enxergando uma pressão inflacionária dominante em relação aos fatores desinflacionários. Todos os componentes ou são neutros ou tendem a subir no horizonte de 18 meses [o horizonte relevante da política monetária].
Valor: O Banco Central se arrisca ao continuar cortando a Selic?
Cecílio: Continuamos vendo o ciclo como inadequado. E muito sujeito também à fragilidade do cenário externo. A inflação tem sido mais volátil e há uma tendência de alta do ano passado para cá no mundo, apesar do petróleo mais baixo recentemente. Se a inflação americana vier em linha com o esperado, o Federal Reserve [Fed, o banco central dos EUA] vai acabar subindo os juros. E esse cenário externo favorável a emergentes pode mudar.
Valor: Como a desancoragem das expectativas de longo prazo afeta o ciclo de cortes da Selic?
Cecílio: Não fosse essa desancoragem das expectativas mais longas e a política fiscal expansionista, o BC estaria cortando em um ritmo de pelo menos 0,5 ponto percentual. O trecho do comunicado que cita essa desancoragem é um reconhecimento de que existem dificuldades [para cortar juros]. O Copom não pode se expressar explicitamente sobre a questão fiscal, pois politicamente é difícil, mas isso certamente impede ele de cortar mais rapidamente a taxa de juros, e está por trás da piora das expectativas do Boletim Focus para o IPCA de 2027 e 2028.
Valor: Qual sua leitura sobre as projeções de inflação do Copom?
Cecílio: A projeção de 3,2% no horizonte relevante veio em linha com a nossa réplica do modelo. A queda de 3,7% em 2027 para 3,2% no primeiro trimestre de 2028 era em função da dissipação esperada dos efeitos do El Niño. Já na última reunião, o BC deixou claro a sua preferência de continuar cortando a Selic. E como vamos ver pelo menos mais um dado mais baixo de inflação por sazonalidade, deve seguir com a política de cortar 0,25 ponto na próxima decisão.
Valor: Considera provável outro corte em setembro?
Cecílio: Tudo o mais constante, se o câmbio continuar tranquilo como está, e a inflação de agosto seguir baixa, não tem por que mudar o plano de voo de cortes de 0,25 ponto, que é o que o BC deixa implícito. E essa é a própria expectativa do mercado. Não tem nada na comunicação que o impeça de cortar de novo. A barra para não dar outro corte em setembro parece elevada.
Fonte: Valor Econômico
