A ata da reunião de setembro do Federal Reserve, que será divulgada nesta quarta-feira (7), deve detalhar um pacote claramente hawkish, avalia o BTG Pactual em seu relatório semanal de estratégia macro global. O banco mantém o cenário-base de mais uma alta de 25 pontos-base nos fed funds em dezembro, para o intervalo de 4,00%-4,25%, e projeta movimentos semelhantes no mesmo mês pelo Banco Central Europeu (ECB) e pelo Banco do Japão (BoJ).
Na reunião de setembro, o FOMC elevou os fed funds em 25 bps, para 3,75%-4,00%, por 12 votos a 0, encerrando o debate aberto em julho, quando três membros votaram por uma alta e o presidente preferiu manter a taxa. O comunicado descreveu a atividade crescendo em ritmo sólido, o mercado de trabalho em pleno emprego e a inflação ainda alta demais. A mediana dos dots para o fim de 2026 subiu para 4,1%, com 16 dos 18 participantes projetando mais uma alta neste ano. Na coletiva, o presidente Kevin Warsh se recusou a classificar a política como restritiva, tratou a alta como a retirada de “uma dose de acomodação” e passou a falar de um retorno “mais tempestivo” da inflação à meta.
Segundo Arthur Mota, estrategista do BTG Pactual US, em Miami, quatro pontos merecem atenção na ata. O primeiro é quantos participantes concordam que a política ainda não é restritiva: se for a maioria, sobra mais espaço para subir além do nível atual. O segundo é a discussão sobre o ritmo. Sem forward guidance, a porta fica aberta para pular reuniões, e qualquer menção a altas em reuniões seguidas seria uma surpresa hawkish. O terceiro é a alta dos juros longos, com o Treasury de 10 anos chegando a 5,34% no fim de setembro. Warsh disse que esse movimento não conta como aperto monetário, e, se vários participantes tiverem dito o contrário, a ata ganha um tom mais dovish na margem. O quarto é o balanço de riscos, com inflação para cima e emprego equilibrado. O BTG lembra ainda que a ata reflete uma discussão anterior ao payroll de setembro, que levou o mercado a reduzir a precificação de altas. Como o Fed segue uma função de reação baseada em tendência, um dado bom isolado não muda a trajetória, segundo o banco.
Antes disso, o ISM de serviços de setembro, divulgado nesta segunda-feira (5), deve desacelerar ligeiramente (consenso de 55,2, ante 55,4), acompanhando a perda de fôlego dos novos pedidos (60,5, ante 60,9). Para o BTG, porém, o que importa é o nível: ambos seguem bem acima de 50, em linha com uma economia que acelerou no segundo e no terceiro trimestres, puxada pelo consumo das famílias e pelo ciclo de investimento em IA. O ponto de atenção está nos preços, que devem subir para 73,0, ante 72,6. Se confirmada, a alta reforça a leitura de que a pressão sobre o núcleo da inflação vem de uma demanda doméstica elevada, e não só do choque de energia, num momento em que o supernúcleo do PCE acelerou para 0,36% m/m em agosto e a pressão migrou para serviços fora habitação. Uma surpresa altista em preços, com atividade firme, diminuiria o peso do payroll fraco. Ao longo da semana falam Williams, Logan e Bowman (dia 6) e Musalem e Collins (dia 9). Logan foi uma das três que votaram por alta em julho.
Na Zona do Euro, a ata da reunião de 9 e 10 de setembro do ECB sai na quinta-feira (8). Na ocasião, o banco central elevou a taxa de depósito em 25 bps, para 2,50%, por unanimidade, e afirmou que a inflação deve ficar bem acima da meta por um período prolongado. As projeções do staff foram revisadas para cima, com inflação de 3,0% em 2026, 2,5% em 2027 e 2,1% em 2028. Christine Lagarde disse que o Conselho não discutiu as próximas reuniões e admitiu que 2,50% já está perto do teto da faixa estimada para o juro neutro.
Depois da reunião, membros do Conselho indicaram anonimamente que uma nova alta poderia vir já em outubro, mas o quadro mudou desde então. Os juros soberanos subiram com força, com o Bund de 10 anos perto da máxima em 17 anos e o spread OAT-Bund acima de 140 bps, enquanto gás e petróleo recuaram um pouco, o que tira urgência de uma ação imediata. O BTG prevê manutenção em 29 de outubro e alta em dezembro, levando a taxa de depósito a 2,75% no fim de 2026 e a 3,25% ao longo de 2027. Uma ata que destaque a persistência da inflação, que chegou a 3,8% na prévia de setembro, reforça a alta em dezembro, enquanto ênfase no aperto das condições financeiras apoiaria um ritmo mais cauteloso. O principal risco altista é o gás no inverno, com estoques perto de 70% da capacidade.
Ainda na região, a produção industrial alemã de agosto, divulgada na quarta-feira (7), deve se recuperar, com consenso de alta de 0,5% m/m, após queda de 1,1%. O recuo de julho veio principalmente de uma parada temporária na produção de automóveis. O Ifo de agosto mostrou melhora clara na manufatura, e o PMI de manufatura da região atingiu 52,7 na prévia de setembro, sustentado por novos pedidos, em linha com uma expansão de 0,2% a 0,4% t/t da Zona do Euro no terceiro trimestre.
Na China, os dados de crédito de setembro (entre 8 e 15 de outubro) devem se recuperar da fraqueza sazonal de agosto, mas tendem a ficar abaixo do mesmo mês de 2025. O consenso para novos empréstimos acumulados no ano é de RMB 11.443 bilhões, contra RMB 10.440 bilhões até agosto, o que implica cerca de RMB 1,0 trilhão em setembro, após apenas RMB 60 bilhões em agosto. Em agosto, o estoque de empréstimos cresceu 4,9% a/a, a mínima da série, o crédito às famílias já encolheu cerca de RMB 1 trilhão no ano e, pela primeira vez, títulos e ações superaram os empréstimos bancários como fonte do financiamento social. O PBoC trata o crédito mais lento como o “novo normal”, reflexo da mudança para um modelo de crescimento puxado por tecnologia. Um número fraco reforçaria o espaço para cortes de juros ou de compulsório no quarto trimestre.
No Japão, os dados de salários de agosto (dia 6) devem mostrar desaceleração do rendimento nominal total, para 3,7% a/a, ante 4,3% em julho, por causa do recuo dos bônus de verão. O salário real deve desacelerar para 1,6%, ante 2,0%, mas seguir positivo, enquanto a medida de mesma amostra, preferida pelo BoJ, deve acelerar para 3,5%, ante 2,8%. O ciclo salarial está mais espalhado: o shunto fechou em 5,01%, as pequenas e médias empresas chegaram a 4,69%, o salário mínimo subiu 5,0% e o salário contratual avançou 4,1% em julho, o maior ritmo desde 1992. O BoJ elevou a taxa para 1,25% em setembro, e o BTG projeta nova alta em dezembro, para 1,50%. O mercado vê hoje menos de 30% de chance de alta na reunião de 29 e 30 de outubro. O principal risco, segundo o banco, é a renda real melhor ainda não chegar ao consumo, que ficou estável no PIB do segundo trimestre.
Fonte
BTG Pactual — Global Weekly Macro, Macro Strategy, 5 de outubro de 2026 (Arthur Mota, BTG Pactual US, Miami)



