No Brasil, a cada minuto, cinco pessoas morrem devido a erros médicos, totalizando quase 55 mil pacientes por ano, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgados pela Organização Nacional de Acreditação (ONA). Esse cenário alarmante, somado aos custos evitáveis que chegam a R$ 15,6 bilhões anuais na saúde privada brasileira , inspirou empreendedores a desenvolverem uma solução tecnológica que combate a raiz do problema: a sobrecarga dos médicos e a falta de padronização nos atendimentos. É nesse contexto que a healthtech brasileira Medhy desenvolveu uma inteligência artificial com algoritmo de inspiração quântica, que não ‘alucina’ – ou seja, não inventa diagnósticos – e já processou mais de 120 mil casos médicos, auxiliando cerca de 400 profissionais em instituições de grande porte, tanto no Brasil como em Portugal, porta de entrada para a expansão na Europa.
A plataforma da Medhy funciona como um co-piloto para apoiar médicos em ambientes ambulatoriais e de pronto-socorro, atuando como extensão do prontuário eletrônico. O produto é destinado a instituições de saúde (hospitais e operadoras, no modelo B2B), que oferece suporte tanto para as necessidades dos médicos, quanto dos pacientes e dos gestores , com foco em padronizar condutas, enriquecer notas clínicas e melhorar o embasamento e defesas para as instituições que sofrem com glosas – recusas de pagamento por parte das operadoras.
“Há uma sociedade médica nos EUA, que acompanha diagnósticos inapropriados e estima custos evitáveis de US$ 100 bilhões por ano, com 1 milhão de pessoas sofrendo incapacidades permanentes. No Brasil, não há uma instituição que controle tão perto, mas estudos apontam R$ 15,6 bilhões por ano na saúde privada. De fato, a cada ano, 1.3 milhão de pacientes sofrem negligência ou imprudência médica”, revela Luis Filipe Saba, fundador e CEO da Medhy. “Esses dados, combinados com indicadores de que as glosas nas operadoras saíram de 5% em 2019 para 7,2% em 2020, com 75 mil novos processos em 2024 representando um aumento de 506% na judicialização relacionada à conduta clínica, nos inspiraram a criar o negócio. Cada posto médico pode gerar até R$ 55 mil por ano em custos com horas extras e rotatividade, mostrando o impacto econômico direto dessas ineficiências”, complementa Saba.
IA como extensão do prontuário eletrônico
A solução criada pelos empreendedores é uma extensão de apoio aos principais sistemas de prontuário eletrônico do mercado, aparecendo como um apoio no canto da tela durante o atendimento. Com reconhecimento automático de fala para transformar a conversa entre médico e paciente em uma anamnese estruturada pelo método SOAP (Subjetivo, Objetivo, Avaliação, Plano), enriquece automaticamente a nota clínica com o que é dito na consulta e quando integrada pode apoiar com um resumo da história pregressa ao médico, análise de exames anteriores e de dados contextuais, tudo em tempo real. A empresa também usa a versão americana CHEDDAR (Chief complaint, History, Examination, Details of the problem, Drugs and dosage, Assessment, and Return visit information or referral).
O motor de inferência da Medhy possui uma consciência contextual que correlaciona a história pregressa do paciente para calcular hipóteses diagnósticas com códigos CID priorizadas em um índice de similaridade com a literatura, além de deflagrar protocolos de cuidado adaptados à realidade de cada instituição e às suas políticas internas. Em seguida, os protocolos fazem acompanhamento de leads cirúrgicos para efetivação dos cuidados ao paciente. A ferramenta ajuda a gerar novas fontes de faturamento em estudos clínicos, por exemplo, o que é uma grande dificuldade hoje olhando somente para um data lake histórico.
“Imagine que o paciente elegível para a pesquisa clínica está diante do médico dentro do hospital, com o sistema da Medhy. A conduta e orientação podem ser realizadas naquele momento poupando várias camadas de comunicação e agendamento. Estatisticamente, o paciente dentro das condições aparece na instituição, mas ele não está sendo contactado para o trabalho”, explica Saba.
E, ao mesmo tempo que há benefícios diretos para médicos e pacientes, a solução auxilia na área de gestão hospitalar. A Medhy oferece um dashboard customizável com indicadores de performance, como taxa de adesão aos protocolos, tempo médio de atendimento efetivo e qualidade das notas clínicas. Isso permite que gestores de saúde tenham controle operacional sobre a padronização dos atendimentos e aumentem significativamente a previsão de gestão e evitar as glosas – que hoje consomem até 15% do faturamento de alguns hospitais brasileiros.
Para a Head de Marketing e Gestão da Medhy, Bruna Lobianco, um dos grandes diferenciais da healthtech é que ela atua com ampla base de dados e deep learning, com processos padronizados e documentados, olhando as melhores práticas e aprendendo com a literatura. Hoje em dia, tem inclusive uma questão de segurança da saúde, pois as pessoas estão cada vez mais doentes mentalmente. A capacidade cognitiva de médicos que vivem sob stress constante é uma preocupação dos gestores. Ter uma ferramenta que ajuda e agrega na área médica é um diferencial competitivo é fundamental para área de gestão e auditoria. “Além disso, o diagnóstico bem conduzido e feito da forma mais rápida possível é a principal ‘dor’ de qualquer médico, atenção é o principal fator de qualidade. Quando ele entende que a IA é aliada dele para combater esta dor, ele pode ir muito além. A solução da Medhy identifica gatilhos para doenças raras, por exemplo. Tivemos nossa solução premiada pela AstraZeneca em 2023 como caso de sucesso, por identificar a síndrome hemolítica urêmica atípica, uma doença ultra rara”, enfatiza a executiva.
A implementação da Medhy segue um processo carinhosamente apelidado de “Sapato de Cinderela”, dos quais são quatro atos que garantem encaixe preciso às necessidades de cada instituição, assim como na fábula. Primeiro, é realizada uma auditoria completa dos fluxos de dados e problemas clínicos existentes, algumas vezes desconhecidos. Em seguida, ocorre o mapeamento detalhado dos processos de atendimento, seguido pela adaptação dos protocolos institucionais à plataforma. Por fim, algumas instituições preferem realizar um piloto controlado envolvendo médicos selecionados, assegurando adesão gradual e validação prática antes da expansão para toda a equipe. Esse cuidado operacional se reflete nos resultados: a Medhy já reduziu em até 40% o tempo de preenchimento de prontuários e 15% no tempo geral em algumas instituições parceiras.
Planos de Expansão
A IA da Medhy também está preparada para expansões futuras além do atendimento clínico. A plataforma pode ser aplicada em cirurgias, onde os registros operatórios automáticos auxiliam na justificativa técnica de materiais especiais (OPMEs) inesperados e reduzem disputas; em emergências, focando no paciente sob pressão; na rastreabilidade, com gravações que servem como proteção legal; e na governança, facilitando auditorias e compliance. Essa versatilidade posiciona a Medhy como uma solução integral para diferentes desafios do ecossistema de saúde envolvendo notas clínicas.
Sobre o futuro da Medhy, o CEO diz que vem conversando com a Karla Figueiredo da UERJ e o Prof Luiz Fernando Seibel da PUC-RIO para as próximas fases do produto e garante que virá uma grande transformação. “Para 2026, a meta é expandir dentro das redes de saúde no Brasil que já são seus clientes, ampliando a adesão dos médicos de maneira espontânea, não acreditamos em utilização obrigatória, mas porque o produto é bom e facilita seu trabalho, e iniciar uma expansão global da empresa. Inicialmente, o plano é Europa, começando por Portugal, depois Itália, Espanha e França. Já estamos em busca de um country manager para a Europa e um profissional comercial para acelerar o crescimento em operações menores, mirando fechar o próximo ano com mais de 1.000 médicos usuários e quadruplicar o processamento de casos”, declara Luís Saba.
Desenvolvimento técnico: parceria com universidade e IA quântica
“A parceria nos permitiu aprender muito, desenvolvemos uma IA que realmente entende o contexto clínico brasileiro e é baseada em modelos estatísticos treinados. Hoje, o grande destaque da nossa solução é em cinco especialidades mais incidentes: cardiologia, nefrologia, neurologia, psiquiatria e pediatria, onde nosso treinamento foi extremo e aprofundado. O diferencial está na precisão: nossa IA não ‘alucina’ diagnósticos como modelos generativos podem fazer e pode explicar os cálculos realizados”, enfatiza o CEO da Medhy.
A equipe detalha a inovação quântica: “Um algoritmo de inspiração quântica processa múltiplas camadas de informação simultaneamente, acelerando a identificação da área médica mais relevante para cada caso. Uma vez direcionado – por exemplo, para cardiologia –, o sistema aplica modelos estatísticos específicos treinados com literatura científica atualizada, ou seja, sempre embasados pela legislação vigente e com as melhores práticas. Utilizamos também um modelo de lógica para informar se tem, não tem ou se está ausente para lidar com as ambiguidades naturais da linguagem médica, como quando um paciente diz ‘tenho medo de diabetes’ ou ‘pressão sempre foi alta’. Essa combinação permite processar complexidades clínicas com acurácia.”
Por trás da operação estratégica da Medhy está um conselho consultivo de peso, composto por especialistas com vasta experiência em setores complementares. O grupo inclui Carmen Eduardo, ex-Diretora da Astrazeneca; Flavio Cirilo, CEO da Qualisaúde e João Luiz Carvalho, conselheiro com experiência em telecomunicações e mineração. Essa diversidade de perspectivas garante que a startup não apenas desenvolva tecnologia de ponta, mas também construa um modelo de negócios sustentável e escalável.
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Fonte: Valor Econômico