O mercado informal passou a responder pela maior parte do consumo de medicamentos à base de GLP-1 no Brasil. . Segundo atualização de estudo da Scanntech, empresa de inteligência de dados para o varejo, 53,8% das doses consumidas no primeiro semestre de 2026 têm origem estimada fora das farmácias, ante 46,2% dos canais formais. É a primeira vez que o consumo informal supera o formal na estimativa da empresa, que havia apontado uma participação minoritária do mercado paralelo no levantamento divulgado em junho.
A virada ocorre em meio à forte expansão da demanda. Somando os canais formal e informal, o consumo de GLP-1 cresceu 244% no primeiro semestre em relação a igual período de 2025, com altas de 281% no primeiro trimestre e de 217% no segundo. O mercado formal também avançou, com crescimento de 67% no semestre e de 20% entre o primeiro e o segundo trimestre.
A Scanntech atribui parte da aceleração no segundo trimestre à perda de exclusividade da semaglutida e à chegada de versões similares mais baratas, com preços a partir de R$ 452. Para Priscila Ariani, diretora de marketing da empresa, a redução da diferença de preço entre produtos formais e informais pode estimular tanto a migração para o mercado regularizado quanto a entrada de novos usuários na categoria. “Isso tende a acelerar tanto a formalização do consumo quanto à expansão da base total de usuários.”
Entre os produtos que chegaram ao mercado com preços mais baixos está o Ozivy, similar sintético lançado em junho pela EMS. Fabricado em Hortolândia (SP), o medicamento recebeu investimentos superior a R$ 1,2 bilhão e tem capacidade inicial para produzir 20 milhões de canetas por ano, com possibilidade de expansão para 40 milhões.
Em julho, primeiro mês completo de vendas, o Ozivy assumiu a liderança em volume entre os medicamentos à base de semaglutida no Brasil. Segundo estimativas da consultoria Close-Up citadas pela EMS, foram vendidas 200 mil canetas, o equivalente a 28% do mercado da molécula. O produto ficou ainda na quinta posição em faturamento entre todos os medicamentos comercializados no país.
Dados da Dunnhumby, empresa global de ciência de dados também citados pela EMS, mostram que 65% dos compradores do Ozivy são novos usuários da categoria, indicando que o produto não apenas disputa consumidores de medicamentos já existentes, mas também pode ampliar a base de usuários.
Para Marcus Sanchez, vice-presidente da farmacêutica, o preço mais baixo também tem função de combate à informalidade. “A estratégia de preço mais acessível busca atrair o paciente para o canal formal e regularizado, garantindo um produto com rigor sanitário da Anvisa”, afirmou.
A reação dos fabricantes de referência também começa a redesenhar o mercado formal. A Novo Nordisk firmou parceria com a Eurofarma para distribuir no país duas marcas de semaglutida biológica, o Poviztra, indicado para obesidade, e o Extensior, para diabetes tipo 2. A Eurofarma oferece os medicamentos a partir de R$ 295 por mês no programa de suporte ao paciente EuroCuida, que já reúne mais de 400 mil cadastrados.
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Segundo dados da IQVIA, empresa que audita vendas no varejo farmacêutico, citados pela Eurofarma, o mercado de GLP-1 cresceu 97,6% nos 12 meses até maio de 2026, ante avanço de 13% do varejo farmacêutico brasileiro no período. A categoria respondeu por 35% de todo o crescimento do canal de farmácias.
A chegada de novos medicamentos também provocou mudanças no ambiente regulatório. Das 23 canetas de GLP-1 aprovadas pela Anvisa desde o primeiro registro no país, dez foram liberadas em 2026, oito delas à base de semaglutida. Outros 21 produtos aguardam análise. A agência informou à reportagem que a aprovação de semaglutida sintética passou a permitir sua manipulação em farmácias magistrais, enquanto as versões de origem biológica continuam proibidas para manipulação.
A Anvisa afirmou não ter dados consolidados sobre falsificação e contrabando, porque as apreensões são realizadas de forma descentralizada por diferentes órgãos de fiscalização.
O avanço dos GLP-1 começa a aparecer no varejo de alimentos. Isolando fatores como renda, emprego, endividamento e clima, a Scanntech estima que o uso desses medicamentos reduz em 0,49% ao ano o volume de alimentos vendidos nos supermercados brasileiros. A queda é mais acentuada em categorias associadas ao consumo por impulso, como cerveja (-1,03%), petiscos (-0,82%) e chocolate (- 0,72%).
Em contrapartida, alimentos frescos avançaram 11,5%, suplementos proteicos cresceram 9,1% e vitaminas, 7,4%. Segundo a pesquisa, usuários de GLP-1 consomem de quatro a cinco vezes mais delivery, restaurantes e fast food do que não usuários. A penetração dos medicamentos ainda é restrita, atingindo 6% dos adultos brasileiros.
Fonte: Valor Econômico