Embora frise que a dinâmica da taxa de câmbio neste ano não está na lista de preocupações, o economista-chefe da Neo Investimentos, Luciano Sobral, revela alguma decepção com o desempenho do real. Uma valorização da moeda brasileira, especialmente no começo do ano, era uma aposta bastante difundida entre os participantes do mercado e esse foi o caso da Neo, que, na semana passada, zerou as posições que apostavam na apreciação do real.
“Foi meio decepcionante. Dadas as características do Brasil, que tem contas externas bem arrumadas e ainda sustenta um diferencial de juros elevado, poderíamos esperar que o câmbio estivesse se valorizando, mas isso não tem acontecido. No entanto, outros países com aspectos parecidos com os nossos, como o México e a Colômbia, têm visto suas moedas se apreciarem. O real ficou para trás. Parece mais uma janela de oportunidade perdida”, diz.
Foi nesse contexto que a Neo encerrou posições que apostavam na apreciação do real frente ao peso mexicano. A moeda brasileira está nas mínimas históricas em relação à divisa do México, cotada a 3,30 pesos. “Perdemos mais do que gostaríamos e não temos boas explicações. Claro, em relação ao Brasil sempre podemos lançar mão dos ruídos políticos como explicação, já que sempre tem alguma coisa acontecendo e a questão fiscal também é sempre uma preocupação. Mas não é novidade”, diz.
Para Sobral, o mercado virou o ano bastante otimista com o real, diante da narrativa de que a balança comercial poderia bater um superávit de US$ 100 bilhões e de que o Brasil é um país “cronicamente superavitário” em conta corrente. “Mas os meses foram passando e a tradução dessa balança comercial para fluxo cambial não foi tão direta e tem sido até enganosa”, ressalta. Ele nota que houve uma saída relevante de investimento em portfólio. “Vimos posições sendo desfeitas e o real ficou para trás.”
Sobral acredita que o diferencial de juros ainda está em níveis elevados para atrair capital estrangeiro, ao ter em vista a Selic em 10,75% e a taxa dos Fed funds em 5,5%. “E a precificação de mercado à frente mostra o nosso Banco Central cortando pouco os juros e as taxas americanas caindo mais. O diferencial se mantém e a volatilidade também está baixa, ou seja, o ‘carry-to-vol’ [medida que mede o carrego do diferencial de juros ajustado pela volatilidade da moeda] está bem favorável para o real e o dinheiro que está saindo é mais do mercado de ações, que pode estar ligado a alguma frustração com o desempenho das empresas brasileiras.”
Além disso, o economista acredita que a facilidade maior para diversificar investimentos mesmo em mercados globais também pode ter contribuído para um fluxo financeiro mais deficitário. “Criamos, de uns anos para cá, um fluxo de saída meio permanente, que não depende tanto do nível de juro. Até o investidor local alcançar níveis de diversificação com mais ativos fora do Brasil vamos ver essa saída. E, como não tem entrada, o câmbio fica um pouco mais desvalorizado”, afirma o economista.
Como destacado por Sobral, o mercado embute nos preços uma Selic mais alta no fim do ciclo, em torno de 9,75%. Na visão da Neo, porém, o juro básico pode cair um pouco mais e chegar a 9% neste ano. “Não mudamos nosso cenário”, afirma o economista, mesmo após a visão mais conservadora (“hawkish”) emitida pelo Banco Central. “Com uma inflação entre 3% e 4% neste ano e o início de cortes de juros nos EUA em junho, não tem motivo para o BC parar de cortar os juros antes de chegar a 9%, mas reconheço que esse cenário ficou mais complicado.”
O economista, nesse sentido, ressalta dúvidas que pesam no cenário básico da gestora. No campo externo, ele cita uma incerteza grande em relação aos indicadores dos próximos dois meses da economia americana, que podem levar o Fed a jogar uma redução dos juros para o segundo semestre. “A vida de qualquer banco central do mundo que está pensando em cortar os juros ficaria mais difícil”, diz. Já em relação ao Brasil, a história da inflação de serviços e salários em alta é algo preocupante. Esses riscos, porém, ainda não se materializaram, ressalta Sobral.
Sobre a dinâmica doméstica, inclusive, ele nota que o momento é de reaceleração da atividade econômica. “O mercado de trabalho nunca enfraqueceu, o crédito já começa a acelerar com a queda dos juros Isso sugere que o piso da inflação de serviços é muito alto e, sendo muito alto, esse componente eleva a inflação no geral”, enfatiza o profissional. Sobral, porém, acredita que pode haver algum ruído nos dados de rendimentos do IBGE, ao avaliar outras métricas salariais, que apontam para uma alta menos intensa que 5%. “Não estamos vendo uma explosão do consumo como se todo mundo estivesse ganhando 5% a mais. O mercado de demanda interna está mais contido do que isso.”
O cenário traçado pela Neo Investimentos em relação à atividade, assim, contempla um crescimento econômico de 2% neste ano, mas com diferenças em relação à dinâmica do ano passado. “Sim, a expansão de 2023 foi mais forte, mas esteve muito ligada ao setor agropecuário e a commodities. Neste ano, parece ser mais uma história de demanda doméstica, justamente por fatores como uma recuperação de crédito que está contratada, porque uma parte da queda de juros já aconteceu”, destaca. Assim, para ele, seriam 2% de crescimento sentidos com uma percepção maior pela economia como um todo.
Fonte: Valor Econômico
