A agenda macroeconômica global desta semana será dominada pela divulgação de indicadores de atividade nos Estados Unidos, com destaque para o payroll de julho, que concentra o principal risco do período, segundo relatório da BTG Pactual assinado pelo estrategista Arthur Mota, da mesa de Miami.
Nos EUA, o calendário inclui o ISM de manufatura (3 de agosto) e de serviços (5 de agosto), referentes a junho, o JOLTS de junho (4 de agosto) e o payroll de julho (7 de agosto). Para o ISM de manufatura, o consenso de mercado projeta aceleração na margem, para 54,0 pontos, ante 53,3 pontos no mês anterior — sinalizando que a economia americana inicia o terceiro trimestre em território expansionista. O subíndice de novos pedidos também deve mostrar firmeza (57,0 pontos vs. 56,0 pontos anteriores), enquanto o componente de preços pagos deve recuar, de 73,0 para 70,0 pontos, o que, se confirmado, ajudaria a aliviar parte da pressão nos custos industriais sem eliminar o debate sobre inflação de bens.
Essa leitura prospectiva contrasta com um cenário mais construtivo do que sugere o PIB do segundo trimestre, divulgado na semana anterior: o crescimento agregado avançou 1,5% na comparação trimestral anualizada, abaixo do consenso de 2,3%. Ainda assim, a demanda doméstica privada final acelerou para 3,94%, com consumo, investimentos em equipamentos e propriedade intelectual sustentando o momentum, enquanto estoques e comércio exterior pressionaram o número agregado para baixo.
No ISM de serviços, a expectativa é de manutenção da expansão, com consenso de 54,4 pontos ante 54,0 pontos anteriores. O setor segue como principal vetor de crescimento da economia americana, e a leitura de preços pagos — com consenso de 65,0 pontos, abaixo dos 67,7 pontos anteriores — será decisiva para avaliar se a desinflação observada no CPI de junho também se reflete nos custos do setor de serviços. Uma eventual surpresa altista reativaria o debate hawkish dentro do Federal Reserve.
No mercado de trabalho, o JOLTS de junho deve confirmar normalização gradual da demanda por mão de obra, com projeção de 7,4 milhões de vagas abertas, ante 7,594 milhões no mês anterior. Segundo a BTG Pactual, o dado seria coerente com o payroll de junho mais moderado (+57 mil, abaixo do consenso), e não deve ser interpretado como deterioração do mercado de trabalho, mas como confirmação de que o ritmo de contratações perdeu velocidade, ainda que o emprego permaneça acima do breakeven.
O payroll de julho, aguardado para sexta-feira, é o evento de maior risco da semana. A projeção interna da BTG Pactual (BTGPMS) é de criação de 95 mil vagas, acima do consenso de mercado de 85 mil e da leitura anterior de 57 mil. A taxa de desemprego deve permanecer estável em 4,2%, e os salários por hora devem repetir o ritmo de junho, com alta de 0,3% mensal e 3,5% em doze meses. Para a casa, um resultado próximo dessas expectativas reforçaria a leitura de um mercado de trabalho ainda sólido, compatível com a postura do FOMC na reunião passada: mandato de emprego confortável, mas assimetria de riscos ainda inclinada para a inflação.
Sobre a política monetária, o Federal Reserve manteve a faixa dos fed funds entre 3,50% e 3,75% na reunião da semana anterior, em decisão apertada de 10 a 3. Hammack, Logan e Kashkari votaram a favor de uma alta de 25 pontos-base — a primeira vez desde 2016 em que três dirigentes divergem na mesma direção sobre a taxa. O presidente do Fed, Jerome Powell [citado no relatório como condutor da coletiva, embora o nome não apareça explicitamente no texto — dado não confirmado no documento original] não é mencionado nominalmente no material, mas o dirigente Kevin Warsh enfatizou que a ausência de movimento em julho não condiciona a decisão de setembro, e que o aperto nas condições financeiras desde junho funciona como substituto parcial de uma alta de juros; ainda assim, o mercado interpretou a coletiva como mais dovish do que sugeriria o placar de votos. Hammack argumentou que a inflação permanece acima da meta há mais de cinco anos e que a política atual não é suficientemente restritiva, enquanto Kashkari defendeu apertos incrementais para evitar que choques de oferta sucessivos cristalizem inflação elevada, citando o investimento em data centers como fator adicional de demanda. Ao longo da semana, falas de dirigentes regionais devem ganhar destaque para dimensionar a divisão do comitê: Schmid (4 de agosto, viés hawkish), Cook (5 de agosto, neutro), Musalem (6 de agosto, hawkish) e Barkin (7 de agosto, hawkish).
Na Zona do Euro, o destaque é a produção industrial alemã de junho (7 de agosto), que deve complementar a leitura do PIB do bloco no segundo trimestre. O PIB da região surpreendeu positivamente, com alta de 0,4% no trimestre (consenso de 0,2%) e de 1,0% em doze meses (consenso de 0,5%), embora parte do resultado esteja associada à volatilidade da economia irlandesa. Para a BTG Pactual, o detalhamento por país e setor ainda aponta um momentum subjacente modesto, compatível com a narrativa de demanda doméstica pressionada por energia e perda de poder de compra. Já a produção industrial alemã de junho deve ficar praticamente estável (+0,1% mensal, ante +0,9% no mês anterior), sustentada por gastos públicos em defesa e infraestrutura, mas limitada por preços de energia mais altos e desafios estruturais.
Na China, a semana traz os PMIs RatingDog de julho para manufatura (3 de agosto) e serviços (5 de agosto), além dos dados de comércio exterior de julho (7 de agosto). Os PMIs oficiais, já divulgados, mostraram desaceleração ampla: o índice manufatureiro recuou a 49,2 pontos (de 50,3 em junho) e o não manufatureiro a 49,0 pontos (de 50,2), com novos pedidos e produção pressionados. O PMI RatingDog de manufatura, mais sensível ao componente exportador, deve seguir em expansão (52,0 pontos vs. 51,7 anteriores), sustentado por exportações ligadas a inteligência artificial. As exportações de julho devem desacelerar, mas seguir em dois dígitos (+23,4% em doze meses, ante +27,0%), assim como as importações (+28,0% vs. +36,0%).
No Japão, o Banco do Japão manteve a taxa overnight em 1,0%, em decisão caracterizada como “hawkish hold”: a comunicação passou a enfatizar o risco de a inflação subjacente superar 2%, e o governador Kazuo Ueda admitiu que o ritmo de altas pode ser acelerado, colocando setembro no radar sem assumir compromisso. Hajime Takata foi o único voto dissidente, a favor de alta imediata de 25 pontos-base. Os dados de ganhos salariais nominais de junho, divulgados nesta segunda-feira (4 de agosto), devem mostrar aceleração marginal, para 3,4% em doze meses (ante 3,3%), reforçando o argumento do BoJ de que salários e expectativas continuam sustentando pressão inflacionária subjacente.
Nas projeções macroeconômicas da BTG Pactual, o PIB americano deve crescer 2,70% em 2026 e 2,20% em 2027, com inflação ao consumidor (IPC) cheia em 3,58% e 2,48%, respectivamente. Para a Zona do Euro, a expectativa é de crescimento de 0,71% em 2026 e 1,18% em 2027. Já a China deve crescer 4,70% em 2026 e 4,60% em 2027.
Fonte: BTG Pactual, “Global Weekly Macro” – Macro Strategy, Arthur Mota (BTG Pactual US LLC, Miami), 03 de agosto de 2026.

