O apetite dos investidores estrangeiros por títulos de dívida de companhias brasileiras abriu uma “janela” de captação no início de abril, com três empresas dando a largada ontem para reuniões para emissões de bônus no mercado internacional (“bonds”). Sem considerar as operações ainda não concluídas, que devem somar pelo menos mais US$ 1,5 bilhão, o volume captado neste ano já supera os US$ 10 bilhoes, num total de dez emissões, ante US$ 15,5 bilhões em todo o ano de 2023.
O banco BTG Pactual, a mineradora Nexa Resources e a locadora de veículos Movida devem concluir suas captações ainda nesta semana, segundo fontes, colocando mais volume em um ano de crescimento das operações de dívida no exterior, após um período de monotonia diante da volatilidade das taxas de juros nos Estados Unidos. Agora, com uma menor percepção de risco, e spreads – a diferença da taxa a ser paga pela empresa em relação aos Treasuries – mais comedidos, a fila de empresas brasileiras candidatas a operações começa a crescer.
Na atual “janela”, aberta no fim de março e que se estende até agosto, antes das férias no Hemisfério Norte, a expectativa, segundo banqueiros de investimento, é de ainda mais movimento. Espera-se, ainda que as recentes mudanças nas regras para a emissão de títulos isentos, como os certificados de recebíveis agrícolas (CRAs) e imobiliários (CRIs), além das debêntures incentivadas, façam as emissões migrarem do mercado local ao internacional.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_63b422c2caee4269b8b34177e8876b93/internal_photos/bs/2024/T/J/zUvaFLSdmehSwN3dKG5A/arte02fin-102-capta-c2.jpg)
Nas captações desta semana, o BTG Pactual e a Nexa devem emitir US$ 500 milhões cada em operações com vencimentos em cinco anos e dez anos, respectivamente. A Movida também trabalha em uma oferta de títulos no exterior entre US$ 500 milhões e US$ 750 milhões, com cinco a sete anos de prazo, segundo fontes.
O diretor de mercado de capitais do Santander Brasil, Sandro Kohler Marcondes, afirma que o volume de captações vai depender de notícias em relação à economia nos Estados Unidos, algo que ainda tem trazido volatilidade para as taxas, por conta de preocupações inflacionárias.
Tem sido essa uma das razões, segundo o executivo, que têm afastado neste momento os grandes emissores brasileiros do mercado externo. “Essas empresas ainda conseguem encontrar no mercado doméstico um ambiente para emissões, com arbitragem e taxas menores. Fora isso, elas estão com caixa forte e podem esperar o melhor momento”, diz o executivo.
Mesmo ainda sem esses grandes nomes, como Vale e Petrobras, que são grandes emissores frequentes, as captações que ocorreram neste ano atraíram um forte apetite dos investidores. Na semana passada, por exemplo, a Votorantim Cimentos captou US$ 500 milhões com títulos de dez anos no exterior. A demanda chegou a oito vezes o tamanho da oferta, comprovando o interesse dos estrangeiros por títulos brasileiros, diz Samy Podlubny, chefe da área de dívida do UBS BB, que participou da operação. Com isso, o spread sobre os títulos americanos previsto inicialmente para 2 pontos percentuais caiu para 1,7 ponto. “Esse é o melhor sinal de que o mercado lá fora está receptivo”, afirma o executivo.
Outro ponto que tem chamado atenção, segundo fontes de mercado, tem sido a performance dos papéis no mercado secundário após a emissão, o que abre espaço para novas captações.
Antes da Votorantim Cimentos, no início de março, a Raízen Energia fez uma oferta em duas séries, sendo uma delas com prazo de 30 anos, algo que não ocorria havia dois anos. Só para essa parte da emissão, a demanda chegou a 7,7 vezes o valor ofertado.
Marcondes, do Santander, afirma que foram observadas duas ondas. A primeira, de empresas “high yield”, papéis classificados como de mais risco e mais retorno, que tiveram demandas positivas. Depois vieram aqueles com grau de investimento, que anotaram procura ainda mais forte por parte dos investidores. “Essas são empresas comparáveis lá fora e que ainda pagam prêmio em relação aos mercados maduros”, explica. Segundo o executivo, a demanda também cresceu porque gestores, que alocam em emergentes e América Latina, aproveitaram para recompor seus portfólios.
Esse retrato ainda deve pavimentar a chegada de outras emissões. Felipe Wilberg, diretor de renda fixa e produtos estruturados do Itaú BBA, acredita que a temporada de ofertas atual deve ser bem aproveitada pelas companhias do país. “Há uma boa oportunidade, inclusive, para as empresas usarem as emissões para melhorarem suas estruturas de capital”, diz.
As eleições presidenciais nos Estados Unidos marcadas para novembro também podem fazer com que mais empresas antecipem ofertas para a atual janela. “Ainda estamos longe das eleições, mas é algo que a gente sempre considera com os clientes. Se já foi tomada a decisão de captar neste ano, é melhor antecipar. Não dá para saber se o mercado vai parar, mas eventos como eleições sempre podem gerar ruídos”, diz Podlubny, do UBS.
De janeiro até agora, foram realizadas dez emissões de bônus brasileiros. Captaram neste ano o Tesouro Nacional, a Cosan, a 3R, a Ambipa r, a FS, a Azul, a CSN, a Raízen e o Banco do Brasil.
Fonte: Valor Econômico
