Os ativos brasileiros voltaram a ganhar espaço nas carteiras dos fundos dedicados a mercados emergentes, apesar da sangria do começo do ano, com guerra no leste europeu, crescimento tímido na China e juros altos provocando uma onda de realocação de portfólios. A permanência desse movimento, contudo, será colocada em xeque caso a retirada de recursos na bolsa por estrangeiros se mantiver nos próximos meses, o que pode ocorrer sem um horizonte mais claro de afrouxamento monetário nos Estados Unidos.
Dados da consultoria EPFR, que capta o fluxo dos fundos globais, mostram o Brasil passando de cerca de 6,32% para 7,5% no intervalo de um ano, segundo os últimos dados divulgados, um retrato do fim de janeiro deste ano. Os dados não consideram apenas a compra de ativos diretamente na bolsa brasileira, mas também de papéis listados no mercado americano.
A bolsa brasileira teve um 2023 com forte fluxo de entrada, o que ajudou o país a subir degraus. O ingresso de capital externo no ano passado foi de R$ 45 bilhões. Porém, a direção virou com as dúvidas sobre os cortes de juros americanos e, neste início de ano, a bolsa local perdeu cerca de R$ 22 bilhões de estrangeiros. Segundo fontes de mercado, a saída de recursos pode ter sido provocada por investidores quantitativos, mais voláteis e distantes de teses de investimento.
Mariana Cahen Margulies, que comanda a área de renda variável da corretora do Santander no Brasil, afirma que o discurso de investidores tem sido favorável para a região da América Latina “como há muito tempo não se via”. “A América Latina fica de fora de ruídos geopolíticos. E há um investimento estrutural em energia e infraestrutura”, diz.
O pulso dos investidores estrangeiros foi sentido de perto, segundo a executiva, num evento sobre América Latina realizado pelo Santander em Nova York em fevereiro, que contou com grandes nomes globais. Por lá, diz, ficou claro um olhar otimista sobre a região, com o foco dos questionamentos em teses de investimentos específicas. “Os investidores estão apontando o lápis para ficarem prontos para aumentar posições”, afirma.
Pesquisa conduzida durante o evento corroborou essa leitura. Da amostra de investidores no encontro, 57% afirmaram que a expectativa é de ampliar, de forma moderada ou significativa, a alocação de recursos na região nos próximos seis meses.
Há diferenças entre os “gringos” e os locais que explicam o maior otimismo dos estrangeiros. Aline Cardoso, chefe de pesquisa e estratégia de ações para o Brasil do Santander, comenta que os investidores externos têm uma visão mais de longo prazo, com olhar de dois a três anos. Ela aponta que, nesse processo de realocação de ativos, a Índia tem se beneficiado, mas o Brasil pode atrair o capital até por conta de preço. Por aqui, os múltiplos refletidos pela relação entre preço da ação e lucro, estão baixos em termos históricos. Se esse indicador já foi de 11,5 vezes, está hoje em 8 vezes. A visão, segundo ela, também é de valorização ao Ibovespa. A projeção do Santander para o principal índice da bolsa local é de alta 13% em 2024.
O estrategista-chefe da XP, Fernando Ferreira, confirma o interesse de estrangeiros em ativos brasileiros, algo que tem sido notado em conversas com fundos dedicados a emergentes. Segundo ele, o baixo risco geopolítico, o preço mais baixo de ativos em comparação a emergentes como Índia e México, a liquidez do mercado local e, ainda, o ciclo de queda de juros na economia brasileira têm favorecido esse interesse. Ele lembra que o fato de a exposição de Brasil estar hoje em 7,5% nesses fundos – ante a participação de 5,5% de Brasil no índice MSCI – mostra que os investidores estão “overweight” no país, ou seja, com expectativa de desempenho acima do mercado.
Apesar disso, segundo Ferreira, há um entrave para o aumento dessa participação, pelo simples fato de os fundos dedicados a emergentes estarem com dificuldade de captação de recursos. Isso porque a competição com a Nasdaq – e os notórios ganhos de empresas de tecnologia e de inteligência artificial – além da falta de brilho da China, que segue como o componente de maior peso desses fundos, tem desestimulado a atração de dinheiro novo. O gatilho mais importante, segundo ele, virá com o início de queda de juros nos Estados Unidos em conjunto com o suporte da melhora dos resultados das companhias brasileiras.
No curto prazo, entretanto, a próxima fotografia dos fundos emergentes deve mudar. O responsável pela área de pesquisa do BTG Pactual, Carlos Sequeira, destaca que, dada a saída de capital estrangeiros no primeiro trimestre, é natural se esperar que a taxa de participação do Brasil nas carteiras desses fundos recue.
Quando os juros caem, os investidores buscam ativos de mais risco e os emergentes têm esse perfil”
— Carlos Sequeira
No entanto, ele ressalta que o país tem potencial para atrair mais recursos. “Quando os juros caem, esses investidores buscam ativos de mais risco para o portfólio e os emergentes têm o perfil de risco desse investidor.”
Também segundo o executivo do BTG, o adiamento do corte de juros nos Estados Unidos é uma das respostas para a saída de capital estrangeiro no Brasil nos primeiros meses de 2024. Sequeira aponta, no entanto, que há duas questões marginais que afetam o interesse do investidor ano Brasil: uma delas é a inflação mais resistente, o que pode sugerir um ritmo mais lento do corte de juros na economia local, e a interferência do governo em empresas, como Vale e Petrobras.
Na outra ponta, há notícias que podem ajudar. Sequeira lembra que, a partir de agosto, a entrada de empresas brasileiras listadas fora do país no índice MSCI Brasil, com o rebalanceamento do índice, deverá garantir um fluxo de capital ao país, diante de um ajuste nos fundos. Se hoje a participação do Brasil no índice é de 5,5%, essa fatia deverá subir com a entrada de empresas como Nubank, Stone e PagBank.
Já o chefe do banco de investimento do UBS BB, Daniel Bassan, destaca que a seguida postergação de corte de juros nos Estados Unidos tem jogado para a frente a expectativa de fluxos aos emergentes. “Em 2023, o Brasil foi o emergente que mais recebeu fluxo, atrás da Índia”, afirma.
Claudia Mesquita, chefe de renda variável do Bradesco BBI, recorda que neste ano o capital também se realocou entre os emergentes, com o México ganhando espaço a partir da tese do “nearshoring”, que é o movimento de aproximação da produção do mercado consumidor. No entanto, segundo ela, com México e Índia com preços mais altos, o Brasil tende a se posicionar como o próximo alvo de recursos vindos a estrangeiros, dependendo da política monetária americana. Esse fluxo é esperado para ocorrer mais próximo do segundo semestre. “O Brasil tem tudo para se beneficiar desse reposicionamento global”, diz.
Fonte: Valor Econômico
