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A combinação entre a expectativa pelo ciclo de afrouxamento monetário do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) e as preocupações com a dívida pública tem levado a um aumento na inclinação da curva de juros americana, com taxas mais altas em prazos mais longos. Esse fenômeno normalmente coincide com períodos positivos no mercado de ações e de ativos de risco, diz Tony Crescenzi, vice-presidente executivo e estrategista de mercados da Pimco, especializada em renda fixa.
O movimento também beneficia Treasuries com vencimentos intermediários, afirma.
Diante da perspectiva de queda de juros, a Pimco, com US$ 2 trilhões sob administração, está com posição “overweight” (equivalente a compra) nos vencimentos intermediários dos Treasuries, entre 5 e 10 anos, que tendem a se beneficiar dos cortes e fogem dos riscos de longo prazo. Crescenzi destaca que as extremidades da curva de juros estão sendo pressionadas por uma série de incertezas no momento, que vão desde a trajetória fiscal nas economias desenvolvidas até a discussão sobre a independência do Fed.
“As nações foram um pouco além da conta nos gastos. E isso se torna difícil de conter, como é bem entendido aqui, já que a política atrapalha a definição de trajetórias fiscais prudentes”, afirma em entrevista ao Valor.
Por conta disso, a Pimco e outros investidores estão cautelosos com títulos de dívida com vencimento em 30 anos ao redor do mundo. Nos Estados Unidos, Para Crescenzi, não há perspectiva de mudança no cenário fiscal até pelo menos 2028, quando chega ao fim o mandato de Donald Trump.
Nesse período, Crescenzi diz acreditar que os formuladores de políticas podem “se viciar” nas receitas provenientes das tarifas, mascarando o problema. Ele cita o Congressional Budget Office (CBO), órgão apartidário de Washington responsável por estimativas orçamentárias, que prevê que a receita das tarifas deve ser de cerca de US$ 4 trilhões. A mesma entidade estima que o custo do projeto de lei orçamentária aprovado recentemente, o “One Big Beautiful Bill”, será de US$ 4 trilhões aos cofres públicos ao longo dos próximos 10 anos. O executivo avalia, então, que o mercado de títulos americano deve ficar em equilíbrio pelo fato de haver uma entrada significativa de receita vinda das tarifas, “o que ajuda a manter a situação fiscal estável”.
Apesar disso, “até 2028, a narrativa provavelmente terá que mudar”, diz. “Talvez vejamos sinais contínuos de preocupação nos mercados de títulos sobre o problema da dívida global na Europa.”
A preocupação com o aumento dos gastos públicos e o controle da dívida não tem sido uma preocupação exclusiva dos Estados Unidos, com o mercado de juros europeu e japonês vendo um rali histórico nos rendimentos dos títulos ultralongos recentemente – algo que tem, muitas vezes, contaminado os Treasuries.
Ainda assim, Crescenzi afasta o risco de um cenário de dominância fiscal (quando o descontrole fiscal se sobrepõe aos efeitos da política monetária sobre a inflação), ventilado por grandes nomes do mercado nas últimas semanas. Na sua avaliação, essa ideia está começando a erodir, ao passo que a conjuntura de gastos não tem mais como dominar em termos de influência econômica e mercadológica.
“O exemplo mais claro é o Reino Unido em 2022. O mercado de títulos, provavelmente ao que aconteceu na época, ficaria descontrolado e os rendimentos subiriam drasticamente”, diz. Segundo ele, os países começam a ver um limite prático para o uso da dívida, como foi o caso com a Grécia e o Reino Unido. “Eles tiveram que mudar a maneira como gastavam dinheiro.”
Por outro lado, o executivo avalia que os mercados estão subestimando os riscos para a independência do Fed. Embora isso se reflita em um certo estresse nas taxas dos Treasuries, ele afirma que a preocupação não é tão grande. “Em parte, porque o mercado de títulos acredita que existem muitos mecanismos de freios e contrapesos que impedirão que a independência do Fed seja erodida de forma significativa, e há muitos motivos para acreditar nisso”, afirma.
Além da questão fiscal, Crescenzi nota que os vencimentos intermediários tendem a se beneficiar do processo de flexibilização monetária dos bancos centrais. O cenário-base da Pimco é que o Fed realize cortes de 0,25 ponto percentual nas reuniões de setembro, outubro e dezembro, com mais três reduções de mesma magnitude no ano que vem. Isso levaria a taxa de juros americana para cerca de 3%, um nível considerado neutro tanto pelo banco central americano quanto pela Pimco.
O cenário-base da Pimco é consistente com a precificação do mercado. De acordo com o “FedWatch Tool” do CME Group, as apostas majoritárias indicam 1,50 ponto em reduções até o fim de 2026, e três cortes consecutivos de 0,25 ponto nas três reuniões deste ano.
Para o início do ciclo de afrouxamento, Crescenzi destaca o enfraquecimento do mercado de trabalho americano. “Os dados vinham se enfraquecendo gradualmente há dois anos. Os dados de emprego americanos indicam que praticamente não houve crescimento de empregos no país nos últimos meses. O risco para o Fed é que a economia esteja estagnada”, diz.
Outro fator que contribuirá para uma flexibilização monetária mais agressiva é um provável arrefecimento da inflação americana e global no ano que vem, em grande parte por conta de um enfraquecimento econômico em todo o mundo, segundo Crescenzi. Embora a Pimco não enxergue um cenário de recessão nos Estados Unidos, a gestora espera que o crescimento no país fique em torno de 1% ao ano no começo de 2026, antes de recuperar para cerca de 1,5%.
“Em muitas economias onde o crescimento econômico está desacelerando, incluindo no Brasil, por exemplo, esperamos que as condições comecem a melhorar em meados do próximo ano. Isso se deve ao impacto defasado dos cortes nas taxas de juros”, afirma.
Mesmo com as máximas históricas atingidas em Wall Street nos últimos dias, a projeção do estrategista para o mercado acionário americano é positiva para 2026, diante da perspectiva de resultados das companhias. “Os lucros podem subir dois dígitos no próximo ano, e os preços das ações durante décadas acompanharam a mudança nos lucros”, diz.
Fonte: Valor Econômico