O Copom anuncia na noite desta quarta-feira (5) sua nova decisão sobre a Selic, atualmente em 14,25% ao ano. O encontro ocorre em um momento no qual a perspectiva de alta dos juros nos Estados Unidos fortalece o dólar e reduz a margem do Banco Central brasileiro para continuar cortando a taxa sem comprometer uma das principais vantagens do país na atração de capital estrangeiro.
Ao longo de 2025, o dólar perdeu força. O DXY, índice que mede o desempenho da moeda americana diante de uma cesta de divisas fortes, caiu mais de 9%, embalado pela expectativa de que o Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, reduziria os juros.
Em 2026, a direção mudou. Com a inflação americana ainda acima da meta de 2% e novas altas de juros voltando ao radar, o dólar ganhou força no exterior. Taxas mais elevadas nos Estados Unidos aumentam o retorno dos ativos americanos e pressionam países emergentes, que precisam oferecer remunerações maiores para continuar atraindo recursos.
Para William Castro Alves, economista-chefe da Avenue, essa dinâmica é desfavorável às economias em desenvolvimento. “Essa ideia de aumento de juros e de fortalecimento do dólar, torna a vida dos emergentes mais difícil.”
O Brasil, no entanto, ainda conta com uma proteção: a distância entre os juros locais e os americanos. A Selic está em 14,25% ao ano, enquanto a taxa dos Estados Unidos varia entre 3,5% e 3,75%. Esse diferencial torna os investimentos brasileiros mais atraentes e favorece a entrada de capital estrangeiro. Segundo a B3, o saldo acumulado no primeiro semestre de 2026 chegou a R$ 33,8 bilhões, avanço de 26% ante o mesmo período de 2025.
O juro dos Treasuries é o zero da escala
Para explicar como os títulos do Tesouro dos Estados Unidos influenciam o Brasil, Alves recorre a uma analogia entre as escalas Fahrenheit e Celsius. “Eu sei que 80 Fahrenheit é quente pra caramba e 60 é frio. Agora, o Celsius é mais fácil de interpretar. Zero é frio e acima de 30 é quente pra caramba. A Treasury é a referência, a Treasury é o zero do Celsius.”
Na comparação, o rendimento dos Treasuries funciona como uma taxa de referência para os mercados globais. Quando os juros americanos sobem, o custo do dinheiro em dólar aumenta em todo o mundo. Se os títulos do governo dos Estados Unidos pagam entre 4% e 4,5% ao ano, investidores passam a exigir retornos maiores para aplicar em países emergentes, considerados mais arriscados.
“Quando você aumenta a Treasury, torna mais caro o crédito no mundo para o mundo inteiro”, afirma Alves.
Esse movimento chega diretamente à mesa do Copom. Com os juros americanos mais altos, o Banco Central brasileiro perde espaço para reduzir a Selic sem diminuir a atratividade dos investimentos no país e elevar o risco de saída de capital.
Na prática, essa margem ficou mais estreita. Depois de três cortes consecutivos de 0,25 ponto percentual, em março, abril e junho, o Copom decide nesta quarta se voltará a reduzir a Selic. Segundo o Boletim Focus divulgado nesta semana pelo Banco Central, o mercado projeta que a taxa termine 2026 em 14% ao ano.
O paradoxo Warsh
Kevin Warsh foi indicado por Donald Trump para comandar o Federal Reserve sob a expectativa de que defenderia juros mais baixos, mas adotou uma postura diferente ao assumir. Em sua primeira reunião à frente da instituição, manteve a taxa e fez um discurso considerado hawkish, termo usado para definir uma posição mais rígida no combate à inflação.
No comando do Fed desde o início do ano, quando substituiu Jerome Powell, Warsh afirmou que o banco central americano “errou na inflação por cinco anos e vai corrigir isso”. Na reunião de julho, três dirigentes votaram por uma alta imediata de 0,25 ponto percentual.
Para Alves, a mudança de tom é positiva. “Você não baixa juro na caneta nem no grito. O Warsh assume com um discurso muito hawkish, muito firme. Nem se fala mais em corte de juros.”
Na avaliação do economista, essa postura ajuda Warsh a conquistar a confiança dos investidores e a afastar a percepção de que teria assumido o Fed para atender aos interesses da Casa Branca. “É uma forma de ele comprar credibilidade do mercado e reforçar a independência do Banco Central.”
Quando existem dúvidas sobre a autonomia do Federal Reserve, um discurso mais duro contra a inflação pode ser interpretado pelo mercado como uma demonstração de independência.
Depois de manter os juros pela quinta reunião consecutiva, o Fed transferiu para setembro seu próximo teste. O mercado precifica aproximadamente 80% de probabilidade de alta na próxima decisão.
O que muda para o investidor
Para o investidor pessoa física, o Brasil continua atraente devido ao diferencial de juros. Uma redução dessa distância, porém, diminuiria a vantagem dos ativos brasileiros diante das aplicações americanas.
“Vai reduzir o diferencial de juros, que é uma coisa que ainda nos é muito atrativa”, explica Alves. Um dólar mais firme e juros americanos mais altos comprimem justamente uma das vantagens que ajudam a sustentar o real e a atrair recursos estrangeiros.
Ao mesmo tempo, cresce o interesse dos brasileiros por investimentos internacionais. O mesmo Fed que limita o espaço do Banco Central para cortar a Selic torna o dólar e os títulos americanos mais atraentes para quem busca diversificar o patrimônio. Por isso, a mudança na direção dos juros dos Estados Unidos chega diretamente ao bolso de quem precisa decidir onde investir o próprio dinheiro.
Fonte: Forbes Brasil
