O resultado de julho do Monitor do PIB, calculado pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) mostra que o Produto Interno Bruto de julho trouxe mais claros os efeitos do longo período de taxas de juros elevadas no país. O monitor mostrou recuo de 0,6% no PIB em julho ante junho e a economista Juliana Trece, responsável pelo cálculo juntamente com o também economista Claudio Considera, ressalta que o resultado “não surpreende”. “Já estava sendo aguardado e até demorou muito para acontecer uma desaceleração na economia”, afirma.
A economista do FGV Ibre lembra que outros indicadores, como o IBC-Br, do Banco Central, mostram retração já há três meses e diz que o monitor havia apontado uma queda de 0,8% em abril, com altas em maio e junho. Trece ressalta que mesmo o resultado do segundo trimestre divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) – que apontou alta de 0,4% no segundo trimestre – mostrou retrações importantes de 0,6% no consumo das famílias e de 2,2% na formação bruta de capital fixo, frente ao trimestre anterior.
“A gente já tinha ali alguns sinais. Esse número de julho mostra realmente essa mudança de direção”, afirma.
Trece ressalta que o impacto do “tarifaço” promovido pelo governo de Donald Trump sobre os produtos brasileiros ainda é baixo na medição de julho do Monitor do PIB, uma vez que, naquele mês, havia apenas o anúncio de que as tarifas subiriam. “Muito provavelmente nos números de agosto e setembro teremos mais informações para saber exatamente qual foi o impacto” do tarifaço na economia, frisa.
A economista destaca que esse resultado de julho é fruto muito mais do contexto brasileiro de juros altos e economia em retração. Mesmo assim, pondera, a projeção é que a economia brasileira feche 2025 com crescimento em torno de 2%. Atualmente, no acumulado de 12 meses até junho, o PIB brasileiro avançou 3,2%.
No Monitor do PIB, os 12 meses encerrados em julho mostram um crescimento de 2,9% da economia do país, com alta de 2,4% nos sete primeiros meses do ano frente a igual período de 2024.
O Monitor de julho mostrou recuo do consumo das famílias e da formação bruta de capital fixo frente ao mês imediatamente anterior. O consumo das famílias recuou 0,3%, enquanto os investimentos tiveram queda maior, de 2,4%. Ainda do lado da demanda, as exportações subiram 3,2% em julho e a importação caiu 2,5%.
Do lado da oferta, a indústria caiu 0,6% em julho ante junho, segundo o monitor, no quarto recuo seguido do setor dentro do indicador. “Desde abril estamos registrando queda na indústria”, ressalta Trece.
A agropecuária caiu 3,8%, dentro da sazonalidade que traz desempenhos menores no segundo trimestre para o setor.
O setor de serviços avançou 0,1% em julho e Trece ressalta que há uma desaceleração clara em alguns segmentos, principalmente aqueles que sofrem mais de perto o impacto dos juros, como o comércio. No monitor de julho, o comércio recuou 0,6% ante junho.
Ainda dentro dos serviços, os transportes recuaram 1% na passagem de junho para julho e Trece lembra que o segmento é afetado não apenas pelos juros altos – a Selic está em 15% ao ano, maior patamar desde 2006 – mas também pelo menor resultado da agropecuária e a consequente redução na necessidade de transportar a safra.
“Quando vê quedas no investimento, quedas na indústria, é de se esperar a queda no comércio e no transporte, que são atividades ali mais ligadas ao ciclo econômico”, diz Trece.
Na indústria, a economista destaca que a transformação, mais associado aos efeitos dos juros altos, puxou o resultado negativo de julho no Monitor. O segmento recuou 1,9% em julho ante junho, depois de ter recuado 2,4% em abril e de ter ficado praticamente estagnado em maio e junho. No sentido contrário, o Monitor mostrou alta de 1,7% na extrativa.
Mas Trece ressalta que o peso da indústria de transformação é muito alto, de 58% dentro da indústria em 2024. A extrativa tinha, ano passado, peso de 17,1%.
Para o segundo semestre, Trece diz que há muita incerteza no horizonte, principalmente devido à questão externa. “Teremos que lidar com o nosso contexto interno, que tem desafios. Os juros estão em um patamar elevado. Mas temos agora adicionalmente essa questão das tarifas, que deve ter algum impacto, só que ainda é muito incerta” a magnitude, diz.
Fonte: Valor Econômico