O acordo preliminar entre Estados Unidos e Irã, assinado oficialmente na quarta-feira passada, levou a uma forte queda dos preços atuais do petróleo e a um ajuste relevante de baixa nas projeções para a commodity, com alguns bancos estrangeiros e gestoras locais voltando a prever que o óleo bruto possa ceder bastante até 2027, ou até retornar a patamares pré-guerra, entre US$ 60 e US$ 70.
Ontem, por exemplo, o contrato futuro de petróleo do tipo Brent com entrega para agosto fechou em queda de 1,05%, a US$ 77,08 o barril. O WTI para o mesmo mês recuou 0,88%, a US$ 73,21. Desde 15 de junho, às vésperas do acordo, os preços dos contratos já cederam 7,32% e 9,3%, respectivamente.
Embora o caminho para estabelecer um acordo de paz mais amplo entre os EUA e o Irã seja longo, a perspectiva de normalização do tráfego pelo Estreito de Ormuz até o fim de julho fez com que o Citi abandonasse um cenário-base mais pessimista e passasse a projetar que o barril do Brent termine o terceiro trimestre em US$ 75, chegando a US$ 70 no fim de 2026 e estabilizando-se em US$ 65 em 2027. A mudança representa um ajuste expressivo nas expectativas anteriores da casa, que estavam em US$ 110, US$ 90 e US$ 80 por barril, nessa ordem.
O novo cenário-base do Citi pressupõe que as próximas fases de negociação entre EUA e Irã impulsionem fluxos sustentados de petróleo, o que voltaria o foco dos agentes financeiros para os fundamentos “fracos” da commodity, aponta a equipe de pesquisa do banco, liderada por Maxilian Layton, em relatório.
Para os profissionais do banco, um dos fatores que poderiam pesar é a volta para um cenário em que há “um excedente (no papel) próximo de 4 milhões de barris por dia até 2027, o que abriria espaço para um aumento dos estoques globais de petróleo, a preços abaixo de US$ 70 por barril”.
Outra casa que reajustou recentemente as projeções foi o banco Standard Chartered, que agora defende que os contratos de petróleo do tipo WTI podem cair para até US$ 70 o barril em 12 meses.
“Uma maior disponibilidade de oferta mais adiante e um crescimento desigual da demanda apontam para um mercado mais equilibrado à frente”, destacou a equipe do banco, em relatório.
Visão semelhante é defendida pelo sócio e cogestor da Kinea, Ruy Alves, que vai ainda mais longe. Ele argumenta que a volta para um mercado superavitário de petróleo, ou seja, quando a expansão da capacidade de oferta supera o crescimento da demanda, poderia levar os preços da commodity para o patamar pré-guerra, próximo de US$ 60, entre o fim deste ano e o meio do ano que vem. “Se estabilizarmos todos os fluxos e voltarmos a ter um mercado superavitário, o prêmio de risco diminui, e isso deve levar a preços mais baixos.”
Alves afirma que, com a reabertura do tráfego pelo Estreito de Ormuz, os próximos meses devem ser marcados por um período de recomposição dos estoques. “Temos 100 milhões de barris de petróleo ‘travados’ no Golfo, o que é um estoque grande e que pode sair agora. No curto prazo, você vai acabar enchendo o mercado de petróleo. Em pouco mais de um mês, a tendência é que volte também a ter produção da commodity. Isso porque vários países fecharam a produção com a guerra, o que deve ser retomado mais adiante”, observa o gestor da Kinea.
Alves conta que o período de recomposição dos estoques deve oferecer certo suporte aos preços de petróleo, mas que o movimento poderá mudar a depender da postura que for adotada pela Organização dos Países Exportadores de Petróleo e aliados (Opep+).
“Se a Opep [Organização dos Países Exportadores de Petróleo] continuar com a mesma produção e crescimento, devemos voltar a ter uma balança superavitária para o petróleo após a recomposição dos estoques. Isso irá jogar os preços para baixo até o ponto em que a China poderá voltar a atuar como ‘moderadora’ dos preços, ao não deixar que a commodity volte para abaixo de US$ 60”, observa.
De olho em um cenário de queda dos preços de petróleo mais à frente, Alves afirma que a casa está com posições vendidas (que se beneficiam do recuo) em ações de produtoras. “Preferimos vender empresas de petróleo a nos posicionarmos na commodity, porque no curto prazo vai ter muita volatilidade nos preços. Já no caso das produtoras de petróleo, o que mais importa é o preço da commodity no longo prazo, que deve cair”, diz.
Outra casa que acredita em um cenário mais baixista para o petróleo em 2027 é a Kapitalo Investimentos. O gestor do K10, Bruno Cordeiro, explica que as projeções de oferta e demanda da commodity ainda são bastante incertas, mas que, se houver a completa normalização do fluxo comercial do Estreito mais à frente, os preços devem recuar adiante. Atento a isso, o fundo está com posições compradas (que apostam na alta) em diesel para o terceiro trimestre deste ano, além de uma alocação vendida em óleo cru para o segundo trimestre de 2027.
Embora o cenário-base de várias casas esteja menos pessimista agora, profissionais do Citi afirmam que uma eventual retomada do conflito, aliada a novas restrições e a uma piora nos embates entre Israel e Líbano, poderia levar o Brent novamente aos US$ 100 o barril no fim deste ano.
Eventuais ajustes na produção dos países da Opep, em meio à queda nos preços, também poderiam alterar significativamente o cenário de casas como a Kinea, assim como a recomposição dos estoques, principalmente na China e em outros países da Ásia.
“Quando sobrou petróleo, a China aumentou os estoques e não permitiu que o preço caísse abaixo dos US$ 55. Já quando faltou, a China deixou de comprar e não deixou que os preços fossem muito além dos US$ 100”, observa o gestor da Kinea. Agora, diz, a questão é que países com estoques baixos podem querer aumentar os níveis da commodity por segurança.
Fonte: Valor Econômico
