Nos últimos cinco anos, o cenário foi muito desafiador para as gestoras de fundos. Após um momento de juros baixos e valorização das bolsas, a pandemia eclodiu e governos reagiram à desaceleração da economia com incentivos fiscais.
A expectativa era que a inflação seria controlada, mas isso não aconteceu. O crescimento e a alta dos preços aceleraram, elevando os juros, que já se mantêm altos por um período prolongado.
Na batalha para reduzir custos e se posicionar diante do cenário turbulento, entraram no ranking das 25 maiores gestoras de fundos do País casas com perfil notadamente conservador: seguradoras, como SulAmérica e Porto, e cooperativas, como a Sicoob Asset. Ao concentrarem sua atuação em renda fixa e crédito privado, classes que ofereceram maiores retornos no período. muito do crescimento que apresentaram é calcado na maior rentabilidade desse patrimônio sob gestão no período.
O período também favoreceu quem tinha um portfólio diversificado ou passou a ter nestas classes que tiveram melhor desempenho, especialmente o crédito privado, caso da AZ Quest e Absolute.
O levantamento, baseado no ranking da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), desconsidera family offices e gestoras pouco relevantes para pessoas físicas, além da Reag, investigada por lavagem de dinheiro, gestão fraudulenta e ocultação de riscos. A comparação é sempre na janela de junho em cada ano analisado.

Na Sulamerica Investimentos, o patrimônio sob gestão na renda fixa, que somava R$ 19 bilhões em 2022, saltou para R$ 44 bilhões em 2026. Mas Marcelo Mello, CEO da asset, aponta que os investimentos feitos ao longo dos últimos seis anos também contribuíram para atingir um patrimônio total de R$ 63 bilhões em junho. A asset teve captação líquida positiva em 2022, 2023 e 2024, contando apenas os cinco anos cheios.
Entre os principais investimentos estão o reforço do departamento econômico e da equipe quantitativa, que passou a incluir cientistas de dados, ferramentas e sistemas de tecnologia; a criação de um time de análise de crédito em 2021; e a entrada nos segmentos imobiliário e de renda variável. Antes restrita a fundos de pensão e investidores institucionais, a seguradora triplicou contratos com plataformas investimentos e bancos de varejo no período e passou a oferecer seus produtos para o varejo. De R$ 318 milhões alocados no private, alta renda e varejo tradicional em 2022, atingiu R$ 1 bilhão no segmento em 2026.
Queremos ser uma casa multiprodutos. Não somos uma gestora de nicho. Já consolidamos em renda fixa e crédito e estamos plantando as sementes para colher lá na frente, quando o cenário mudar
Marcelo Mello, CEO da Sulamerica Investimentos
A performance também foi crucial para ganhar espaço: a Sulamerica driblou investimentos problemáticos, como Lojas Americanas e Unigel.
A Porto Asset também cita essa diligência no crédito como um dos motivos pelos quais seu patrimônio cresceu 156% no período. Os R$ 9 bilhões que a seguradora tinha em renda fixa em 2021 se transformaram em R$ 30 bilhões em 2026. A gestora apresentou captação líquida positiva nos cinco anos cheios desde 2021.
Izak Benaderet, diretor executivo da gestora, aponta que parcerias com outras casas também reforçaram o resultado. um exemplo é a parceria com a SFA, especializada em renda variável, firmada há três anos. Outra é a parceria com a Jubarte, iniciada no ano passado. No período, também foram lançados mais de 10 fundos, especialmente de crédito e renda fixa. Também houve investimentos em tecnologia e a gestora obteve o selo de gestão máximo da Fitch Ratings.
Temos um perfil de crédito conservador que foi premiado nos últimos anos. Houve uma série de recuperações judiciais pelas quais passamos ilesos. Tivemos um único default vindo de uma fraude cometida por uma rede de lojas de varejo
Izak Benaderet, diretor executivo da Porto Asset
Assim como o Sicredi, a gestora da cooperativa Sicoob resolveu, nos últimos anos, expandir sua atuação para além das empresas do grupo. Há três anos, passou também a atender seus 10 milhões de cooperados. A expansão do patrimônio no período foi exponencial: saiu de R$ 15 bilhões para R$ 42,7 bilhões. Ajuda no crescimento o fato de atuar em ambiente fechado, blindado da concorrência: a asset não distribui fundos em plataformas, mas em contrapartida também não deixa gestoras distribuírem produtos a seus cooperados.
O patrimônio em renda fixa saiu de R$ 11,5 bilhões para R$ 41,2 bilhões. Mas a asset ressalta que vem lançando também produtos de renda variável cuja rentabilidade fica no primeiro quartil da indústria, segundo Mario Dornas, diretor de gestão de recursos de terceiros da gestora. A exemplo da Porto, a asset busca parcerias com casas especializadas em renda variável. Nos quatro anos cheios que aparecem no ranking da Anbima (2022, 2023, 2024 e 2025) a asset teve captação líquida positiva.
A Sicoob tem aversão a perdas. Já operamos no mercado de debêntures, mas desde o pedido de recuperação judicial das Lojas Americanas esvaziamos as carteiras gradualmente. Sabíamos que o mercado ia pegar fogo.
Mario Mario Dornas, diretor de gestão de recursos da Sicoob
A Az Quest, na 25ª posição do ranking em junho, com R$ 36,5 bilhões, comemora 25 anos em 2026 com o maior patrimônio sob gestão, o maior número de estratégias, a maior quantidade de cotistas e a maior equipe que já teve, conta Ronaldo Zanin, sócio da gestora. São oferecidas 10 estratégias para clientes, sendo que a de fundos alternativos (imobiliário, infraestrutura e agronegócio) foi criada há quatro anos. A asset teve captação líquida positiva em 2022 e 2024.
Desde 2021, a gestora elevou sua fatia em renda fixa de R$ 4,2 bilhões para R$ 7,9 bilhões, em multimercados de R$ 3,6 bilhões para R$ 7,2 bilhões e previdência de R$ 3,6 bilhões para R|$ 11 bilhões. Também passou a ter R$ 5 bilhões em Fundos de Participações (FIPs) e valores abaixo de R$ 1 bilhão em FIDCs, Fiagros e Fundos Imobiliários (FIIs).
Classe que foi estrela do período, a área de crédito privado da gestora foi montada em 2015 e, quando veio o vento a favor, o executivo aponta ter conseguido ‘surfar’. “Tínhamos equipe, histórico e consistência de performance, mas o mercado é cíclico. Tenho convicção de que o vento vai virar, e já estamos posicionados para isso.”
A participação recorrente do CEO Walter Maciel em eventos também faz parte da estratégia da gestora para estar mais próxima dos cotistas e colaborou para o resultado em um cenário de competição mais acirrada. De R$ 510 milhões que tinha alocado no private, alta renda e varejo em 2021, expandiu para R$ 1,8 bilhão em 2026.
Enquanto em 2021 os fundos multimercado macro da Absolute correspondiam à maior parte do patrimônio sob gestão (75%), em 2024, a gestora entrou forte no crédito, ao mesmo tempo em que, ao longo dos anos, foi reforçando sua equipe de análise e suporte. Até que, em 2025, o crédito ultrapassou a classe de multimercado macro, pela qual a gestora era conhecida.
Em junho, tinha R$ 20 bilhões em renda fixa, R$ 16 bilhões em multimercados e R$ 19 bilhões em previdência. Em 2021, tinha R$ 362 milhões alocados no private, alta renda e varejo. Em 2026, o valor subiu para R$ 874 milhões. Nesse ínterm, sua equipe saiu de 35 pessoas, divididas entre gestão, análise e suporte, para 62. Apresentou captação líquida positiva nos cinco anos cheios desde 2021.
Quem deixou o ranking das maiores
Todas as gestoras que passaram a fazer parte do ranking têm seus méritos. Mas é verdade que algumas delas só passaram a fazer parte do ranking porque outras deixaram de existir.
Neste período de aversão ao risco global, uma tendência se sobressai quando olhamos as saídas no ranking: a consolidação do mercado de investimentos. Das oito gestoras que saíram do ranking no período, três foram alvo de incorporações ou descontinuadas, desenhando um cenário de consolidação da indústria em um momento no qual precisou de escala e cortar custos.
A BV Asset, que estava na 22ª posição em 2024, foi vendida para o Bradesco, que a transformou em Tivio Capital, enquanto o Banco Modal, que aparecia na 25ª posição em 2021, foi incorporado à XP em 2022. Por fim, a britânica Schroder decidiu descontinuar sua operação no Brasil em setembro de 2025: seu patrimônio havia estacionado entre R$ 22 bilhões e R$ 24 bilhões nos últimos anos.
Outras duas foram substituídas automaticamente por seus respectivos compradores. É o caso do Credit Suisse, que estava na 13ª posição do ranking em 2024 e, em 2026, fez o UBS, que incorporou seus ativos, aparecer no ranking na 15ª posição. De 2021 para 2024, o patrimônio do Credit Suisse no Brasil já havia diminuído 36%. Outra incorporação foi a da Western pela Franklin Templeton, que fez a gigante americana passar a figurar no ranking de 2026 na 21º posição.
Marc Forster, diretor da Franklin Templeton Brasil, explica que a aquisição da Western aconteceu em um momento no qual escala é cada vez mais importante na indústria para fazer frente aos custos envolvidos na gestão de recursos, principalmente relacionados a dados. Existe também uma pressão global por cobrança de taxas menores. A gestora americana tem US$ 1,7 trilhão globalmente.
A gestora investe em moedas digitais e fundos tokenizados ao redor do mundo. Não significa que essas tendências chegarão amanhã aqui. Mas assim que se mostrarem relevantes, estaremos prontos para surfá-las
Marc Forster, diretor da Franklin Templeton Brasil
Além da consolidação, houve quem foi impactado pelo ciclo do mercado. A Verde Asset, gerida pelo renomado Luis Stuhlberger, teve a trajetória mais dramática: seu patrimônio sob gestão diminuiu 78%, de R$ 60,3 bilhões para R$ 12 bilhões, o que a fez sair do 11º lugar em 2021 para o 80º lugar. A casa registrou resgates nos quatro anos cheios desde 2022.
Sua atuação se concentra em fundos multimercados e ações, duas estratégias que passaram a ter menos demanda e em um ambiente de maior risco. Resultado: uma parte da operação foi vendida para a Vinci Partners em outubro de 2025, que poderá comprar o restante da fatia no futuro. Procurada, a gestora não quis comentar.
Já a JGP, apesar de ter saído do ranking nas janelas de 2024 e 2026, se manteve firme próxima dele. Seu maior baque foi sentido de 2021 para 2022, quando o patrimônio passou de R$ 34,5 bilhões para R$ 24,4 bilhões, mas ao longo dos anos o patrimônio foi voltando para o nível acima de R$ 30 bilhões.
Recentemente, a gestora vendeu o seu negócio de crédito para um de seus executivos e perdeu cerca de R$ 20 bilhões, mas adquiriu a Régia Capital, que tem como foco fundos sustentáveis, e adicionou R$ 20 bilhões ao seu portfólio novamente.
Em 30 de junho de 2026, a gestora geria aproximadamente R$ 31 bilhões em ativos (AUM), sendo R$ 9,7 bilhões em Multimercados e Renda Fixa Ativa, R$ 1,4 bilhão em Ações, R$ 520 milhões em Real Estate e R$ 19,1 bilhões em Investimentos Sustentáveis, por meio da Régia Capital, o que a deixava no 29º lugar.
Em meio a toda essa movimentação, as maiores assets do País ficaram ainda maiores no período analisado, algo esperado em momentos de busca por escala e aversão ao risco. A gestora de fundos do BB aumentou seu patrimônio em 50%, de R$ 1,28 trilhão para R$ 1,9 trilhão. Já a gestora de fundos do Itaú cresceu 70%, de R$ 779 bilhões para R$ 1,3 trilhão. O crescimento da gestora do Bradesco foi de 85%, mas quem se sobressaiu foi o BTG Pactual, que expandiu o patrimônio sob gestão em 226% no período.
Fonte: E-Investidor
