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Diferencial de juros blinda real, mesmo com cautela eleitoral — Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
O real deixou de ser uma aposta totalmente confortável para o investidor estrangeiro, como era no início do ano. A proximidade das eleições brasileiras passou a contaminar uma das operações mais populares dos últimos meses — o “carry-trade” — e levou bancos internacionais a elevar o tom de cautela. Ainda assim, o elevado diferencial de juros e a percepção de que uma eventual reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) já está um pouco refletida nos preços impedem uma debandada das posições e ajudam a manter o dólar ligeiramente acima de R$ 5,00.
Ao analisar as moedas mais populares do “carry-trade”, o Bank of America (BofA) diz que o real continua a se destacar. “Na América Latina, o peso colombiano oferece um ‘carry’ excepcionalmente elevado, mas é também a moeda mais sobrevalorizada, o que sugere que o real brasileiro pode representar uma oportunidade mais atraente”, dizem em relatório os estrategistas Raghav Adlakha, David Hauner e Claudio Piron, em nota conjunta com o economista Claudio Irigoyen.
No acumulado do ano até julho, o dólar caiu 7,64% ante o real e recuou 16,02% contra o peso colombiano. Boa parte da valorização da moeda da Colômbia se deu após a vitória de Abelardo de la Espriella na eleição presidencial.
O estrategista Alvaro Vivanco, do Wells Fargo, reforça a leitura de que talvez a valorização do peso colombiano tenha sido forte demais e, por isso, o real estaria em melhor posição em um “trade” contra a moeda do país vizinho. “Acreditamos que o otimismo em relação às reformas e aos ativos colombianos foi longe demais e esperamos uma reversão dos fluxos recentes”, diz Vivanco em relatório divulgado nesta sexta-feira.
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Alvaro Vivanco, estrategista do Wells Fargo, espera que real se valorize frente ao peso colombiano — Foto: Divulgação
O real terminou a semana negociado a 614 pesos colombianos e, na aposta do Wells Fargo, a moeda brasileira pode subir a 670 pesos. O nível de “stop” será acionado caso o real caia a 595 pesos.
“Do ponto de vista dos fundamentos, o novo governo [colombiano] sinalizou que implementará cortes de gastos como primeira medida, em setembro, antes de apresentar e discutir com o Congresso uma reforma fiscal mais abrangente. Em nossa avaliação, esse processo provavelmente decepcionará um mercado que já precifica uma mudança significativa na trajetória fiscal de médio prazo”, enfatiza Vivanco.
Para o estrategista, embora algum progresso possa ser alcançado, uma melhora substancial das contas públicas na Colômbia parece improvável diante das severas restrições orçamentárias. Além disso, o fluxo de capital para o país já começa a enfraquecer. “Dados oficiais sobre as compras de títulos públicos colombianos (Coltes), tanto no mercado à vista quanto por meio de contratos a termo sem entrega física (NDF), mostram uma desaceleração das entradas de recursos ao longo da última semana, oferecendo os primeiros sinais de esgotamento do interesse dos investidores estrangeiros em ampliar posições nos níveis atuais.”
Em maio, o Wells Fargo havia encerrado a posição comprada em real contra o peso colombiano (aposta a favor do real e contra o peso colombiano). O encerramento se deu por conta de ruídos políticos que começaram a perder força na Colômbia e a crescer no Brasil, em ambos os países devido ao ambiente eleitoral. Segundo Vivanco, o cenário, agora, começa a mudar. “Acreditamos que as narrativas relativas entre os dois países foram longe demais e que os níveis atuais oferecem um excelente ponto de entrada para retomar uma posição.”
Segundo Vivanco, o real acumulou queda de cerca de 19% frente ao peso colombiano e está bem abaixo de suas médias de longo prazo. “O ‘carry’ levemente positivo não é o principal motivo da operação — os fundamentos são —, e estar comprado em real também representa uma forma eficiente de ficar vendido em peso colombiano.”
Além disso, o estrategista diz que a reeleição de Lula passou a ser o cenário-base, e acredita que grande parte do impacto negativo desse desfecho já foi incorporada aos preços do real. “Avaliamos que, em comparação com a Colômbia, o ponto de partida dos fundamentos macroeconômicos do Brasil é mais favorável e não exige grandes ajustes. Além disso, as contas externas brasileiras permanecem em uma posição bastante sólida e devem continuar sendo beneficiadas pelos preços mais elevados do petróleo e de outras commodities.”
Parte do mercado, porém, ainda adota um tom mais cauteloso com a divisa doméstica. O estrategista de câmbio para América Latina do banco canadense RBC Capital Markets, Luis Estrada, afirma no podcast Macro Minutes que encerrou a posição que segurava há seis meses comprada em real contra o dólar canadense e a posição aberta em junho em real contra o iene japonês. “Neste momento preferimos proteger nossos ganhos e esperar mais assimetrias para voltar a esses ‘trades’”, diz.
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Luis Estrada, gestor da RBC Capital Markets, zerou posições compradas no real contra o iene e o dólar canadense — Foto: Reprodução/BloombergTV
“Estamos vendo ventos contrários no curto prazo”, aponta Estrada, acrescentando que a relação risco-retorno das estratégias de ‘carry’ está migrando para uma posição mais neutra, em um ambiente de baixa liquidez que amplifica a volatilidade e o risco de execução.
Nesse contexto, Estrada afirma que o real permanece vulnerável à medida que a disputa pela Presidência se aproxima e domina o noticiário. “Ainda assim, o equilíbrio entre medo e busca por lucro pode rapidamente voltar a favorecer o Brasil, mesmo com o risco de eventos permanecendo excepcionalmente elevado”, ressalta. Ele lembra que o banco projeta o dólar a R$ 5,00 no fim do ano, bem abaixo do consenso representado pelo relatório Focus da semana passada, que trouxe o dólar a R$ 5,20 na mediana das estimativas para o fim deste ano.
Entre os mais recentes comentários sobre o real, o mais cauteloso veio do HSBC. Em relatório detalhado sobre o ambiente eleitoral para o câmbio e para os juros, os profissionais do banco apontam que o cenário-base é o de uma reeleição de Lula. O texto de autoria de Joseph Incalcaterra, Mario Robles, Daniel Lavarda e Clyde Wardle aponta para três diferentes cenários: um de “status quo”, em que o petista vence e mantém as políticas atuais, sem um ajuste fiscal significativo; um de reeleição de Lula com agenda fiscal expansionista; e um de vitória da oposição.
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Joseph Incalcaterra, estrategista do HSBC, vê risco de o dólar atingir R$ 5,25 ao longo do terceiro trimestre — Foto: Reprodução/BloombergTV
“A nosso ver, os mercados já precificam, em grande medida, o cenário 1, especialmente no mercado de juros. Ao mesmo tempo, o elevado ‘carry’ do Brasil e os termos de troca favoráveis contribuíram para o bom desempenho do real, comportamento consistente com um cenário considerado mais amigável ao mercado”, dizem. “No entanto, vemos o risco de que os investidores passem a atribuir maior probabilidade ao cenário 2 durante a campanha eleitoral, mesmo acreditando que o cenário 1 continue sendo o desfecho mais provável.”
Pelos precedentes históricos e pela dinâmica atual das pesquisas eleitorais, os profissionais do HSBC apontam que há razões para adotar uma postura cautelosa. “Em nosso cenário-base, vemos risco de o dólar atingir a faixa de R$ 5,20 a R$ 5,25 ao longo do terceiro trimestre, acompanhado de uma maior inclinação da curva de juros.”
Fonte: Valor Econômico

