O tombo das ações da Coreia do Sul na madrugada levou a bolsa do país ao seu quarto “circuit breaker” no ano e, desde as primeiras horas do dia, o mercado já voltava a questionar uma de suas principais apostas: as fabricantes de semicondutores que fornecem chips para a infraestrutura ligada à inteligência artificial (IA). Nas horas seguintes, a aversão a risco contaminou também as ações de tecnologia dos EUA, que fecharam em queda forte, acendendo novos sinais de alerta entre os investidores.
O Kospi, principal índice de ações da Coreia do Sul, despencou 10%, puxado pela queda das ações de suas duas principais empresas: a SK Hynix, que recuou 12,45%, e a Samsung Electronics, que caiu 12,31%. As companhias são produtoras de semicondutores e, em meio à euforia dos investidores globais com o tema, acumulam alta de 277% e 141% no ano, respectivamente, mesmo após o tombo recente.
O Citi já alertava para os riscos relacionados às ações coreanas mesmo antes do tombo. Segundo os estrategistas de ações do banco, o posicionamento técnico dos investidores nas ações da Coreia do Sul era extremo – o que ajuda a explicar a forte volatilidade recente do mercado acionário coreano.
O tema se estendeu para os negócios em Nova York e as fabricantes de chips foram as principais afetadas. O PHLX Semiconductor Index – um ETF que compila as principais empresas do segmento no mercado americano – despencou 8%. Dentre seus componentes, as ações da Micron Technologies caíram 13,18%; os papéis da Arm Holdings recuaram 10,18%; Qualcomm perdeu 8,01%; e a Nvidia recuou 4,13%.
Os efeitos foram mais sentidos no Nasdaq, que exibe maior concentração e sensibilidade ao tema da IA. O índice caiu 2,21%, após ter recuado 1,32% na sessão anterior. O S&P 500 perdeu 1,44% e o Dow Jones recuou 0,09%.
A equipe de derivativos de ações do Bank of America (BofA) avalia que, embora a mensagem mais dura do Federal Reserve (Fed, banco central americano) na semana passada tenha provocado uma reprecificação na trajetória dos Fed funds, a tese de investimento em IA permaneceu imune, continuando a avançar apesar dos ventos contrários – algo típico de bolhas em formação. “De fato, a concentração do Nasdaq em empresas de tecnologia – especialmente sua elevada exposição a fabricantes de semicondutores – tem impulsionado um desempenho muito superior ao do S&P 500, tanto em retorno quanto em volatilidade, levando o indicador de risco de bolha (BRI) do índice para mais perto do nível crítico de 0,8 – acima do qual normalmente observamos riscos elevados de curto prazo em ambas as direções”, afirmam.
Segundo eles, embora a bolha relacionada à IA ainda possa levar anos para se desenvolver plenamente, a história mostra que o índice pode ser útil para identificar correções ao longo do processo.
Para os profissionais do Charles Schwab, o movimento pareceu menos um pânico generalizado e mais uma correção em um grupo de ações, que exibia posições muito concentradas, passando por um teste de estresse após uma longa trajetória de alta. “Também pode representar um reajuste após uma forte valorização impulsionada pelos setores de IA e de memórias. Não se trata necessariamente do início de um colapso de todo o mercado, a menos que a onda de vendas se alastre”, ponderaram.
O economista-chefe da BCA Research, Peter Berezin, lembra que, na fase inicial do estouro da bolha das empresas de internet no início do século, as ações de tecnologia despencaram enquanto o restante do mercado subia. “Podemos estar entrando em uma fase semelhante agora. Ironicamente, isso significa que uma boa proteção para ações pode ser outras ações”, afirma.
Apesar do comentário, a consultoria canadense não coloca o mercado acionário americano em um território de bolha neste momento. “Ainda que o indicador agregado tenha um desvio padrão abaixo do limiar que caracteriza uma bolha, o componente de valuation sinaliza que o mercado acionário americano está extremamente caro. Como consequência, em um ambiente de forte aversão ao risco, os investidores devem esperar perdas em ações maiores do que aquelas que seriam justificadas apenas pela deterioração dos fundamentos econômicos e dos lucros das empresas”, aponta a BCA.
Fonte: Valor Econômico
