A forte correção recente registrada pelo Ibovespa tornou o “valuation” (avaliação) da bolsa local mais atrativo, mas não chegou a um nível suficiente para alimentar uma reversão de tendência no curto prazo. É o que aponta a equipe de estratégia em ações do Itaú BBA, liderada por Daniel Gewehr, após rodas de conversa com agentes financeiros.
“Os investidores concordam amplamente que as ações brasileiras retornaram a níveis atrativos, com o Ibovespa negociando cerca de 20% abaixo de seu preço sobre lucro histórico (em comparação com o ACWI, que apresenta um prêmio de cerca de 10%). No entanto, isso não foi suficiente para impulsionar um ‘re-rating’ [reavaliação dos preços dos ativos]”, destaca a equipe.
A falta de catalisadores para os negócios foi mencionada como um dos motivos que podem ter ajudado a evitar uma recuperação do índice, mesmo após o Ibovespa ter ficado mais “atrativo”. Os profissionais do Itaú BBA afirmam que as incertezas em torno da dinâmica fiscal e do ritmo de afrouxamento monetário criaram “riscos persistentes de queda nos lucros” das empresas. “Isso é visível mesmo em setores de qualidade (financeiro, serviços públicos), em que os valuations estão descontados, mas a convicção em adicionar risco permanece limitada.”
A questão, destaca a equipe do Itaú BBA, é que os valuations continuam a ser o “pilar mais forte” na estrutura da casa. Nesse sentido, o banco diz que tem preferido exposições orientadas a valor — proxies de títulos públicos (serviços públicos, saneamento, shoppings) e cíclicos de qualidade (bancos, construtoras de moradias populares).
O movimento contínuo de saída de investidores estrangeiros da bolsa local também é um fator que está ajudando a afastar uma retomada do Ibovespa. Embora fatores técnicos sugiram uma assimetria crescente nos preços, a equipe do Itaú BBA destaca que as alocações globais permanecem fortemente inclinadas para mercados impulsionados pela inteligência artificial (notadamente Taiwan e Coreia), apoiadas por revisões de lucros mais robustas e pesos nos índices de referência. “Nesse cenário, o Brasil/América Latina continua atuando como fonte de recursos, com investidores estrangeiros reduzindo a exposição em meio a uma visão macroeconômica menos favorável.”
Apesar da visibilidade limitada de gatilhos no curto prazo, o Itaú BBA destaca que os investidores reconhecem cada vez mais que “surpresas positivas poderiam ter um impacto maior neste momento do que novas notícias negativas”.
Uma das explicações é que fatores técnicos do Ibovespa já estão mais “favoráveis”. “Nosso indicador de sobrecompra/sobrevenda do Ibovespa entrou recentemente em território de sobrevenda, o que está historicamente associado a recuperações próximas de 5% ao longo de oito semanas”, observou a equipe.
Embora os ativos locais, como a bolsa, tenham passado por uma forte correção recente, o Itaú BBA avalia que os mercados parecem segmentados neste momento: as taxas de juros (mais influenciadas por fatores locais) refletem maior pessimismo, enquanto câmbio e ações incorporam cenários menos severos.
“Nossa análise de cenários (bull-bear) sugere que a renda fixa precifica apenas cerca de 20% de probabilidade de um cenário de alta (bull), contra 35% em ações e 55% em câmbio — indicando um pessimismo substancial já embutido nos ativos brasileiros”, aponta a equipe do banco.
Fonte: Valor Econômico

