Diante de uma correção que levou o Ibovespa da faixa dos 200 mil pontos para os 170 mil pontos nos últimos dois meses e um trimestre ainda satisfatório do ponto de vista dos lucros corporativos, a bolsa brasileira ficou barata e os níveis atuais podem configurar um ponto de entrada interessante para os investidores. A visão é do chefe de pesquisa de ações do Citi para América Latina, André Mazini, que revela otimismo, em especial, com o setor de construção civil para a baixa renda.
Na visão do executivo, o otimismo do investidor estrangeiro pelo Brasil diminuiu com a retomada do interesse global por temas ligados à inteligência artificial (IA). A saída de recursos da bolsa local, em sua visão, também esteve relacionada à perspectiva de menos reduções de juros no país. “Corte de juros é sempre algo positivo para a bolsa. Como teremos menos cortes, esse suporte será menor. Por outro lado, existe um lado construtivo nessa história: o Brasil ficou mais barato”, aponta. “Mas o sentimento muda muito rápido. Por isso, para quem acredita no mercado brasileiro e nas empresas, este pode ser um ponto de entrada interessante.”
Nos cálculos de Mazini, a bolsa brasileira negocia hoje a cerca de 8,3 vezes os lucros esperados para os próximos 12 meses. Esse múltiplo chegou a 11,5 vezes quando o Ibovespa encostou nos 200 mil pontos, em meados de abril. “O mercado ficou significativamente mais barato e o desconto em relação aos mercados desenvolvidos aumentou bastante”, diz. A média histórica, lembra, está próxima de 10,5 vezes.
Segundo ele, nos Estados Unidos, o mercado negocia acima de 20 vezes lucro. “Se olharmos o CAPE [o múltiplo ajustado pelo ciclo econômico], o número se aproxima de 40 vezes. Os múltiplos americanos não estão muito distantes dos níveis observados em 1999, antes da bolha da internet. Claro que a história não necessariamente se repete, mas existe aquele ditado de que ela costuma rimar. O fato objetivo é que os múltiplos da bolsa americana estão próximos dos observados no fim de 1999”, diz.
“Esse é o lado construtivo da tese. O Brasil está barato porque o mercado voltou a priorizar o ‘trade’ de inteligência artificial. As coisas mudaram rapidamente desde meados de abril, já que o foco voltou para IA, e, no campo doméstico, houve a discussão da escala 6×1, que é custosa para as companhias, e a perspectiva de um ciclo menor de cortes de juros no Brasil.”
Apesar dos ventos contrários, Mazini afirma que o argumento estrutural sobre o Brasil continua existindo. “A economia brasileira é grande e as empresas listadas são razoavelmente inovadoras. Não temos muitas companhias de tecnologia pura, mas a maioria delas é fortemente habilitada por tecnologia. Os bancos digitais são um bom exemplo disso. Além disso, o Brasil e, em certa medida, a América Latina como um todo, estão relativamente distantes dos principais focos de tensão geopolítica do momento”, avalia.
Na última semana, o Citi organizou o Equity Conference, evento que reuniu executivos de diversas empresas locais. Mazini revela que saiu do encontro particularmente animado com o setor de construção para baixa renda, diante da visão de que o segmento pode não ser tão afetado pelo ambiente macro e ainda se mostra defensivo em meio ao processo eleitoral.
Em sua visão, o principal risco para a construção civil de baixa renda era a inflação e, com o fim da guerra, a tendência é de preços mais comportados. “O real se mostrou muito resiliente durante toda essa volatilidade geopolítica. Em outros episódios de tensão internacional e conflitos, o real costumava se depreciar, mas não foi o que aconteceu desta vez. Isso ajuda a inflação. O petróleo em torno de US$ 80, ou até abaixo disso, também contribui”, afirma.
“Além disso, estamos entrando em um ano eleitoral e o Minha Casa Minha Vida é um programa central para o governo. O orçamento deste ano é o maior da história: R$ 150 bilhões, exatamente o dobro dos R$ 75 bilhões do ano passado, e o programa ainda não está conseguindo consumir integralmente esses recursos. O orçamento cresceu tão rapidamente que a alocação ainda não acompanhou esse ritmo. Por isso, consideramos bastante provável que haja uma nova rodada de melhorias no programa”, afirma. O nome preferido dentro do segmento é o da construtora Cury.
Por outro lado, bancos mais expostos à baixa renda podem sofrer dificuldades, à medida que o custo do crédito e as provisões tendem a aumentar.
Outro nome em que o Citi vê valor é o da Embraer. “A companhia tem um portfólio de produtos que vem se encaixando muito bem nas necessidades dos seus clientes e um eventual arrefecimento dos conflitos geopolíticos também seria positivo para a companhia. Com o petróleo mais barato e abundante, o combustível de aviação fica mais acessível. Em alguns momentos, houve inclusive restrições na oferta de querosene de aviação em partes do Leste Europeu”, lembra Mazini.
O analista do Citi revela que a recomendação para as ações brasileiras segue como “overweight” [com exposição acima do índice de referência] na região. “Hoje seguimos até overweight em Brasil. É, de longe, o mercado mais líquido da região. Além disso, ficou mais barato depois desse ‘sell-off’ [venda] recente”, diz.
“Ao mesmo tempo, é interessante observar que o sentimento dos investidores em relação ao Brasil continua relativamente cauteloso. E, muitas vezes, os melhores pontos de entrada surgem justamente quando o sentimento está mais negativo. Quando todo mundo está otimista, frequentemente os preços já refletem grande parte das expectativas positivas. Quando o sentimento é mais fraco, os ativos tendem a incorporar um desconto maior, o que pode criar oportunidades caso os fundamentos se mostrem melhores do que o mercado espera.”
Fonte: Valor Econômico

