Por Nicholas Megaw — Financial Times 21/08/2023 05h02 · Atualizado há 5 horas
O entusiasmo que cerca o crescimento da inteligência artificial (IA) tem sido uma das únicas perspectivas persistentemente positivas nas bolsas dos Estados Unidos este ano. As altas acentuadas das ações das sete maiores empresas de tecnologia por valor de mercado arrastaram o índice S&P 500 para um mercado altista (“bull market”), apesar das preocupações com a inflação e com a saúde do setor financeiro.
A escalada obrigou investidores assumidamente pessimistas a tirar o dinheiro posto de lado e colocá-lo para trabalhar. Embora os preços tenham voltado a cair nas últimas semanas, a manutenção em carteira de ações das “big techs” entre gestoras de fundos ativos continua muito mais elevada do que no começo do ano.
Muitos bancos de Wall Street tentam orientar os recém-convertidos à inteligência artificial. A “cesta” de IA do Citi, por exemplo, oferece uma seleção de beneficiários aparentes da inteligência artificial, como a Adobe, empresa de software de design. Entretanto, investidores que procuram oportunidades para vendas a descoberto podem consultar o “Índice de risco IA” do Bank of America – que tem como destaque justamente a Adobe.
Talvez fosse melhor encontrar uma oportunidade para investidores assumirem posições compradas com a qual os dois bancos possam concordar, como o grupo de análise de dados Palantir. Mas se você buscar no Royal Bank of Canada uma lista de empresas cujos modelos de negócios estão ameaçados, ele sugere grupos como – você adivinhou – o Palantir.
O contraste entre essas cestas enfatiza os desafios que se apresentam para todos os investidores. As opiniões mudam rapidamente. A Alphabet, controladora do Google, hoje é um item básico das cestas e dos fundos de investimento em IA, mas em maio muitos observadores temiam que ela estivesse a perder terreno para seus rivais em termos de inovação em inteligência artificial, depois da reação inicial decepcionante ao seu chatbot Bard.
A conferência anual de desenvolvedores da empresa no início deste ano – quando ela lançou a versão renovada de seu mecanismo de busca e deu mais detalhes sobre como poderia ganhar dinheiro com a incorporação de anúncios a seus produtos baseados em IA – ajudou a mudar as expectativas, de acordo com Céline Zhao, chefe de pesquisa de ações para os EUA na corretora Optiver.
“Vimos a narrativa mudar rapidamente da possibilidade de que a Alphabet fosse prejudicada para a de que fosse uma beneficiária”, diz ela. De maneira semelhante, a Adobe também tranquilizou os investidores sobre os seus projetos de IA quando eles começaram a temer que os novos serviços, do tipo do Midjourney, ameaçassem produtos como o Photoshop. É muito pouco provável que essa corrida para continuar na moda se desacelere. Se a inteligência artificial melhora a produtividade, como esperam seus propagandistas, pode se tornar mais fácil para as novas empresas desestabilizarem modelos consolidados.
Manutenção em carteira de ações das ‘big techs’ continua muito mais elevada do que no começo do ano
“O grau em que os investidores podem extrapolar fluxos de caixa e ganhos de longo prazo provavelmente exige uma duração mais curta do que antes da chegada da IA”, diz Michael Grant, chefe de estratégias de “long and short” da Calamos. “Isso levanta questões legítimas sobre os ‘muros de proteção’ de muitos modelos de negócios.”
A IA não é apenas um modismo passageiro – a dimensão do seu impacto é discutível, mas poucos duvidam de que ela tenha pelo menos alguns casos de uso no mundo real que já causam impacto financeiro em empresas importantes. A esse respeito, a bolha da internet do fim dos anos 1990 e início dos anos 2000 pode ser uma boa comparação. Naquela época, os mercados faziam um trabalho razoável de identificar o rumo das tendências, mas não eram tão bons em avaliar seu ritmo ou a quem exatamente elas beneficiavam.
Das dez empresas que eram as maiores dos Estados Unidos, em termos de capitalização de mercado, no início de 2000, quando os mercados atingiram seu pico, apenas uma – a Microsoft – ainda está entre as principais empresas do S&P 500 hoje. “Quando se tem um novo mercado enorme, supõe-se que as empresas dominantes hoje ainda serão dominantes em dez anos, e isso nem sempre é verdade”, adverte Rob Arnott, presidente da gestora de ativos Research Affiliates.
No início do século, a Cisco se tornou a empresa mais valiosa do mundo por um breve período, por causa da suposição de que fornecer a infraestrutura básica para empresas de internet levaria a um crescimento rápido. Uma lógica semelhante esteve por trás do aumento de mais de 200% da Nvidia neste ano – pode ser difícil prever quem fará o melhor uso da inteligência artificial, mas seja quem for, provavelmente usará os chips da Nvidia para isso.
A teoria por trás de operar com ações da Cisco não era necessariamente errada – seu lucro líquido cresceu em uma porcentagem de dois dígitos na maioria dos anos desde o começo da bolha da tecnologia e teve uma alta de mais de 500% no cômputo geral. Mas a euforia de 2000 foi tão extrema que o preço de suas ações ainda está quase um terço abaixo do pico daquele ano. A Amazon ganhou cerca de 3.600% ao longo do mesmo período. E a Apple subiu mais de 14.000%.
Essas comparações podem ser tranquilizadoras para os estressados selecionadores de ações. Um gestor de fundo mútuo considera a IA uma parte fundamental de uma “mudança de paradigma” mais ampla a favor das estratégias ativas, depois de uma década ou mais de situações favoráveis aos fundos passivos. Como aproveitar essa oportunidade, porém, é mais fácil falar do que fazer.
Fonte: Valor Econômico