Por Matheus Prado e Augusto Decker — De São Paulo
21/08/2023 05h02 Atualizado há 5 horas
Entre a euforia com o bom momento da economia local, que permitiu que a bolsa subisse por nove semanas seguidas entre abril e junho, e o susto com a piora do cenário externo, que provocou sequência inédita de 13 pregões consecutivos de quedas, investidores ainda enxergam, em sua maioria, um cenário positivo para a renda variável local nos próximos meses, diante da queda dos juros já contratada e de preços descontados.
Não obstante, como apontam estrategistas do J.P. Morgan e do Bank of America, falta à modalidade fluxo comprador no momento. Enquanto temores envolvendo a fraqueza da China e a resiliência da economia dos Estados Unidos assustam e levam os investidores a uma redução dos riscos, a atratividade da renda fixa ainda é obstáculo para a volta da pessoa física às ações. O Ibovespa sobe 5,17% em 2023, mas recua 5,36% em agosto.
Em termos de participação na bolsa, dados da B3 compilados pelo Valor Data mostram que investidores estrangeiros respondem por mais da metade dos negócios realizados por aqui. A tendência recente, no entanto, é de leve queda. Depois de alcançar os 56,6% em março passado, o número tem recuado mensalmente e está em 53% em agosto, até o dia 16.
A fatia dos institucionais locais cresceu – de 24,9% em janeiro para 28,2% neste mês -, mas ainda não se aproxima do pico de 34,6%, registrado em 2012. E os investidores individuais, por sua vez, são os mais distantes do ápice, de 21,4% registrado em 2020. Mas a participação do grupo tem crescido desde abril, quando esteve em 12,7%, até agora, com 14,6%.
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Com a pressão de resgates se dissipando, mas ainda sem movimento contundente de captação, os fundos brasileiros aumentaram a exposição à bolsa nos últimos meses essencialmente cobrindo posições vendidas e reduzindo caixa. Nos fundos multiestratégia, a modalidade ganhou algum destaque depois do mercado de juros ter dominado as atenções. Agora, o momento parece ser de ajustes.
Antes disposto a aumentar sua posição comprada em bolsa, Marcos Mollica, gestor do Opportunity Total, diz que o cenário externo atropelou por ora a narrativa local. “Tivemos piora nos dados da China e alta forte das taxas americanas”, diz. “O Treasury de dez anos pode continuar pressionando os ativos antes de se estabilizar e o mercado de ações chama atenção porque as bolsas americanas embutiam um cenário muito positivo no preço.”
Mollica segue comprado em bolsa local e dá preferência a papéis de qualidade sensíveis à economia. Ele, porém, optou por reduzir a exposição até o cenário externo se acalmar. “Os preços ficaram mais atrativos após a correção dos últimos dias, mas o momento requer cautela, apesar de termos visão positiva para o cenário doméstico. O corte de juros vai ser entregue, o que ajuda as empresas, e o governo tem preocupação com a pauta econômica.”
Menos otimista, Daniel Delabio, sócio-fundador e gestor da Exploritas, conta que estava vendido (aposta na queda) em bolsa até o início do mês e reduziu a posição depois das baixas recentes. A casa acredita que, para além da questão externa, houve deterioração no cenário doméstico, na medida em que as dúvidas sobre a viabilidade do arcabouço fiscal proposto pelo governo voltam à pauta. “Os ativos estão baratos, mas temos muitos problemas no radar. Acredito que seja o momento para ficar mais lateral.”
A XP Asset, por sua vez, acredita que o cenário positivo para a renda variável segue em pé, especialmente no médio prazo, mas não vê espaço para que o mercado suba rápido, como ocorreu antes. Marcos Peixoto, gestor de renda variável da casa, observa que os resgates cessaram, mas não há grande fluxo, ainda mais em um cenário de juros nominais e reais ainda altos.
“NTN-Bs [títulos públicos] e bolsa estão entre as nossas principais exposições a risco nos fundos macro, com a primeira classe em destaque. Como não carregamos posição estrutural em renda variável nesses produtos, temos o maior posicionamento em dois anos. Muitas ações alavancadas andaram bastante e a temporada de balanços mostrou que o operacional precisa melhorar, então o portfólio não é agressivo e focado em ‘utilities’.”
Em agosto, até o dia 16, investidores institucionais locais haviam aportado R$ 3,34 bilhões no segmento secundário (ações listadas) à vista da B3. Caso a tendência se confirme, será a segunda vez que o grupo alcança superávit mensal neste ano. O saldo anual é negativo em R$ 30,28 bilhões. O investidor estrangeiro, por outro lado, tem déficit de R$ 8,62 bilhões em agosto, mas o saldo em 2023 ainda é positivo, em R$ 15,49 bilhões.
E, em que pese a retirada recente de recursos, os não residentes mantêm discurso positivo em relação aos ativos locais. Karina Saade, CEO da BlackRock no Brasil, avalia que o país trabalhou na redução de riscos de cauda e que a tendência dos juros é para baixo, ainda que o ritmo de queda possa ser discutido. Ademais, ela nota que investidores globais gostam de mercados emergentes no momento e que as opções são bastante restritas.
“Acredito que os ativos locais estão agora mais sensíveis à política monetária americana. O Federal Reserve não deve cortar [os juros] tão cedo, mas a economia americana também não parece caminhar para uma recessão profunda. Com as tendências estáveis, o fluxo deve voltar para a bolsa, especialmente nas ‘small caps’ [ações de menor capitalização]”, afirma Saade, ao notar que a maior rival da modalidade segue sendo a renda fixa.
Will Pruett, gestor da americana Fidelity Investments, opina que, apesar da dificuldade de emergentes para se descolarem dos ativos americanos em momentos de queda, o Brasil parece mais preparado do que nos últimos ciclos de aperto de juros. Ele aponta que o país subiu juros antes dos EUA e já começou a flexibilizar a Selic. Além disso, Pruett nota que a dívida brasileira é majoritariamente em reais, o que reduz os riscos inflacionários em caso de movimento mais intensos de aversão a risco.
“Acho que as perspectivas são bastante atraentes. É um mercado extremamente barato e, apesar da temporada de resultados um tanto sem brilho, a maioria das empresas com as quais interajo está fazendo um bom trabalho para melhorar os ganhos por meio de cortes de custos, aumentos de preços e redução de dívidas. E os cortes na Selic devem reduzir os encargos de consumidores e empresas, além de potencialmente catalisar reprecificação no mercado”, afirma Pruett, ao citar nominalmente o setor de saúde como um de seus favoritos.
O segmento também está entre os favoritos da equipe do Edmond de Rothschild, assim como educação e varejo. Patrícia Urbano, gestora de ações para emergentes da casa francesa, diz que o plano é aproveitar os preços atrativos para aumentar a exposição às ações brasileiras. “Existe uma combinação entre preços baixos, juros em queda e melhora dos fundamentos.”
Frederico Sampaio, diretor de investimentos da Franklin Templeton no Brasil, vai na mesma linha e enxerga fundamentos para que o mercado suba, mas aponta que os agentes agora buscam uma nova narrativa. “Com uma visão relativa estável, a dinâmica micro volta a ganhar relevância. Após temporada de balanços com algumas pressões, o mercado vai checar se os discursos mais otimistas das empresas vão se confirmar”, diz.
Fonte: Valor Econômico