O Banco Central (BC) baixou os juros como esperado, de 14,25% ao ano para 14% ao ano, e é grande a tentação de concluir que o próximo movimento de queda na taxa Selic está encomendado para setembro. Mas, a rigor, ele não está garantido.
O que parece indicar que há espaço para um novo corte de juros é a projeção condicional de inflação, que coloca o IPCA em 3,2% no primeiro trimestre de 2028. Ou seja, está “ao redor da meta”, para usar a linguagem do BC. Mas esse cenário tem riscos altos. Portanto, nada está garantido.
Primeiro, é preciso entender a mecânica da projeção do BC. Essa projeção condicional de inflação é alimentada pela trajetória esperada pelo mercado para a Selic. E essa trajetória embutia, além do corte na Selic desta quarta-feira, mais um movimento de baixa em novembro.
O recado mais geral da projeção de inflação é que haveria espaço para um novo corte de juros na próxima reunião (seria pouco razoável parar em setembro e retomar logo em seguida, em novembro, por isso vamos assumir que o mercado diz que é possível cortar em setembro) sem comprometer o cumprimento do objetivo do BC no horizonte relevante de política monetária.
Mas seria um engano tomar muito conforto a partir da projeção central. Como sempre faz em suas reuniões, é provável que o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC tenha analisado cenários alternativos que podem levar a inflação a patamares mais altos. O cenário alternativo, por definição, é menos provável. O Banco Central certamente precisa de tempo para avaliar como esses riscos vão se desenrolar até a próxima reunião.
Normalmente, a ata do colegiado, que sai na semana que vem, traz mais detalhes sobre esse tipo de discussão, mas o comunicado, de forma antecipada, cita alguns desses riscos.
Do lado negativo, disse que “monitora com atenção a desancoragem adicional das expectativas de inflação para prazos mais longos, na medida em que esta contribui para a determinação dos preços e aumenta o custo de desinflação”.
Esse perigo já estava no balanço de riscos, com mais detalhes: o que pode jogar contra a convergência da inflação para ao redor da meta é “uma desancoragem das expectativas de inflação por período mais prolongado, com horizontes mais longos incorporando impactos potenciais de segunda ordem de choques de oferta, relacionados ao petróleo e seus derivados, e a efeitos climáticos sobre a produtividade agrícola e custos de energia”.
Quando o Copom dá um destaque especial a esse risco, ele incentiva os participantes do mercado a tirar um pouco os olhos do que diz a projeção de inflação no cenário básico para olhar os riscos ao redor.
De forma similar, o Copom volta a apontar o dedo para outro risco: o fiscal. Diz que segue acompanhando como ele impacta a política monetária e os ativos financeiros, “reforçando a postura de cautela em cenário de maior incerteza”. O BC é sempre muito cuidadoso ao falar do risco fiscal, mas o assunto do momento no mercado é qual direção o país vai tomar depois das eleições.
Do lado mais benigno, reconhece, sem fazer muita festa, que os indicadores correntes de atividade “mantêm-se consistentes com uma trajetória de desaceleração no acumulado de 2026”. O esperado é que a atividade continue a desacelerar, já que a promessa do Copom, feita no comunicado, é “manter a restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta”.
Ao mesmo tempo em que faz todas essas ponderações, o comunicado volta a dizer que vai conduzir a política monetária com “serenidade e cautela”. O presidente do BC, Gabriel Galípolo, disse há dez dias que o Copom dirige um transatlântico, e não um jet ski.
Como sempre, o comunicado deverá reforçar as convicções das diferentes alas do mercado: quem está mais otimista pode enxergar na projeção de inflação uma autorização para mais um corte; quem está mais pessimista já está destacando seus termos mais conservadores. Mas o conjunto do comunicado sugere que o Copom ainda não tomou essa decisão.
Fonte: Valor Econômico
