Por Augusto Decker e Matheus Prado — De São Paulo
21/08/2023 05h02 Atualizado há 5 horas
Uma expectativa generalizada entre analistas era a de que, com o início da queda da taxa Selic, a bolsa se tornaria mais atrativa para o investidor pessoa física. O movimento de fato começou, mas a intensidade ainda é baixa. A tendência, dizem especialistas, é que o grupo tenha mais apetite por ações na medida em que a renda fixa dê retorno ainda menor, já que, mesmo após a primeira queda, a taxa Selic ainda permanece em nível elevado.
De acordo com os dados mais recentes da B3, desde 3 de agosto, dia seguinte ao início do ciclo de afrouxamento monetário, investidores individuais aportaram R$ 2,04 bilhões no segmento secundário da bolsa, o que representa quase dois terços dos R$ 3,22 bilhões que haviam sido aportados em todo o ano de 2023 até então. Nos últimos meses, a maior parte do volume negociado em renda variável por usuários do Gorila – fintech que processa mais de um milhão de portfólios por dia -, foi de compras, revertendo tendência do primeiro trimestre. Além disso, em julho, o percentual de investidores ativos que fez pelo menos uma compra em renda variável foi o mais alto do ano, de 87,19%.
Os dados indicam que o apetite por bolsa entre a categoria aumentou, mas há espaço para ganhos. Para Jerson Zanlorenzi, responsável pela mesa de ações do BTG Pactual, tudo depende do perfil do investidor. “Aquele que tem uma assessoria de investimentos é mais ágil. Já os vemos voltando para as ações, junho e julho já foram meses fortes. O banco alterou a recomendação e os clientes seguiram”, afirma.
Por outro lado, o cliente que se “auto atende” ainda não demonstrou o mesmo interesse. “Isso é natural, esse cliente costuma chegar um pouco depois”, diz Zanlorenzi. “Como não tem referência de antecipar o movimento, esse cliente vem quando a renda fixa começa a perder rentabilidade.” Ele estima que no quarto trimestre, com a possibilidade de mais 1,5 ponto percentual de cortes na Selic, a bolsa volte a atrair esse perfil.
“A receptividade de clientes está maior, muitos aceitaram a recomendação de vir para a bolsa. Mas o fluxo automático ainda está tímido. É a mesma coisa que vimos em outros ciclos de corte. Ainda é preciso haver uma redução maior dos prêmios.”
Na EQI Investimentos, os ativos sob custódia em renda variável aumentaram cerca de 11% desde o fim de janeiro – considerando que o Ibovespa subiu aproximadamente 3% no período, o crescimento real está na casa de 8%. Mesmo assim, a alocação em renda variável continua atrás da renda fixa no período.
Roberto Varaschin, socio-diretor e cofundador da empresa, afirma que o investidor de varejo costuma ir primeiro para outros produtos, como fundos imobiliários, antes de voltar para a bolsa. “Enquanto a Selic estiver rendendo 13,75%, ou mesmo 13,25% ao ano, ele não vai se mexer. Só se mexe quando o rendimento à vista cair”, afirma.
Entre os brasileiros, o “número mágico” costuma ser de 1% ao mês. “Se o investimento em banco rende menos do que isso, o cliente fica insatisfeito”, diz o executivo. Ele destaca, porém, que desta vez o comportamento pode mudar, dado que o brasileiro “se acostumou” com um rendimento ainda maior, com o patamar da taxa Selic acima dos 13% há mais de um ano.
Mesmo após o fim do ciclo de quedas da taxa Selic, Varaschin tem dúvidas se a pessoa física voltará à bolsa com a mesma intensidade de épocas anteriores. Até porque a expectativa para a Selic ainda é de 9% no fim do ano que vem, conforme o boletim Focus, um patamar mais alto do que em ciclos recentes, quando a taxa básica chegou a cair para a casa dos 2%. “Se o juro ficar em 9% ou 10% ao ano, a renda fixa continua atrativa”, diz o executivo. “No último ciclo [de afrouxamento monetário], esse investidor foi quase forçado a ir para a renda variável. Ou ele tomava risco ou ganhava 2% a 4% por ano.”
Fonte: Valor Econômico