Com o forte alívio observado nas taxas locais ontem, o mercado voltou a colocar nos preços a possibilidade de o Copom cortar a Selic no próximo dia 17. Na curva de juros futuros, o mercado passou a embutir cerca de 15 pontos-base de corte na semana que vem — o que, a grosso modo, indica que os investidores se moveram em direção à redução de 0,25 ponto percentual, mas com parte do mercado ainda esperando manutenção da Selic em 14,50%.
No mercado de opções digitais, a expectativa de que um novo corte deve ocorrer ultrapassou com folga a previsão de juros estacionados. Na quarta-feira, a probabilidade de que a Selic se mantenha em 14,50% ao ano terminou o dia em 68%, ante 32% para um corte a 14,25%. Ontem, os percentuais praticamente se inverteram, com a chance de corte fechando em 70% e a de manutenção, em 31,7%.
As mudanças bruscas nos preços de mercado têm relação com questões técnicas, como mostrou o Intraday no início da semana, após uma onda de stops ter sido acionada com a reprecificação forte das taxas. Assim, players vinham se dividindo sobre a natureza dos prêmios de risco embutidos na curva e se haveria espaço para uma discussão mais ssobre altas de juros pelo Banco Central.
“Estamos em uma janela que o BC não tem mais espaço para se comunicar devido ao período de silêncio. A precificação na curva chegou a superar os 15%, com altas de juros já antes das eleições. Para nós, parecia um exagero. O técnico veio melhorando desde ontem (quarta-feira) no mercado e, hoje (ontem), o externo acabou contribuindo muito”, afirma o superintendente de renda fixa da SulAmérica Investimentos, Getúlio Turatti Ost.
Segundo ele, havia um receio de que os economistas acabassem migrando amplamente para a projeção de manutenção da Selic na reunião da próxima semana. “Mas não há nenhum dado que indique que o BC tem que encerrar o ajuste em 14,50%. O movimento do câmbio, do petróleo e do mercado hoje consolida o corte de 0,25 ponto e que ele repita o comunicado para a próxima reunião”, aponta Ost. A SulAmérica projeta a Selic em 14% no fim do ano.
“Ainda há bastante prêmio na curva e, acreditamos que, caso não haja novas surpresas, devemos seguir em um processo de descompressão até o Copom. A probabilidade de um corte de 0,25 ponto ainda está somente em 70%”, afirma o gestor. “Às vezes o investidor local vem imprimindo o pessimismo no mercado, mas o externo coloca a bola no chão”, resume.
Na ponta contrária, Luis Felipe Vital, estrategista-chefe de macro e dívida pública da Warren Investimentos, acredita que o cenário ainda demanda cautela por parte do Copom e que a manutenção da Selic na semana que vem é a decisão mais recomendável.
“A notícia (possível fim da guerra no Oriente Médio) é, sem dúvida, positiva para o cenário de juros. No entanto, em um ambiente marcado por elevada incerteza e por um noticiário frequentemente volátil, misto e até contraditório em relação ao conflito, ainda é cedo para uma mudança de cenário. É importante aguardar a consolidação dos fatos antes de revisar de forma mais significativa as projeções”, diz ele, que projeta uma Selic em 14,25% no fim de 2026.
Vital lembra, ainda, que as pressões sobre a inflação doméstica já estavam presentes antes mesmo do conflito, em um quadro agravado por um “impulso fiscal relevante, que reduz o efeito da política monetária e exige a manutenção de uma postura cautelosa por parte do BC”.
Apesar do alívio do mercado, o Tesouro Nacional repetiu a estratégia de ofertar lotes mínimos no leilão de títulos prefixados de ontem, com apenas 450 mil papéis ofertados. Para Vital, é esperado que a entidade volte a realizar ofertas maiores de forma gradual tanto de prefixados quanto de papéis atrelados à inflação (NTN-B) à medida que o cenário para a política monetária fique mais claro.
“Caso esse processo se prolongue, o Tesouro poderá ter que revisar a banda de participação das LFTs (títulos indexados à Selic) no Plano Anual de Financiamento (PAF), de forma a preservar o ritmo de financiamento e manter o colchão de liquidez em níveis confortáveis”, completa o executivo.
Fonte: Valor Econômico