Por Fabio Murakawa — De Brasília
21/03/2023 05h00 Atualizado há 2 horas
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse ontem que o Brasil não deveria tratar educação e saúde como gastos, mas como investimentos. A fala não é inédita, mas foi proferida três dias depois de o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, ter feito ao presidente uma explanação detalhada do novo arcabouço fiscal. A proposta, que substituirá o teto de gastos, será apresentada ao Congresso nos próximos dias.
Ao discursar no relançamento do programa Mais Médicos, Lula defendeu “uma nova mentalidade sobre a razão de governar” e disse que “os livros de economia estão superados”.
“Se o Estado é capaz de aceitar conviver com divida de R$ 1,7 trilhão, que as pessoas devem à Previdência, devem à Receita, por que não pode conviver com um pouco de subsídio para a pessoa pobre se transformar em menos pobre, virar cidadão de classe média, poder virar um cidadão de padrão médio, e este país voltar a crescer?”, perguntou. “Quem tem que mudar, na verdade, é a nossa cabeça. Os livros de economia estão superados. É preciso criar uma nova mentalidade sobre a razão de a gente governar.”
Diante da plateia formada majoritariamente por servidores da pasta, Lula defendeu que a saúde “não pode ficar refém do teto de gastos”. O presidente, que vem travando uma cruzada pela queda da taxa Selic, estipulada pelo Banco Central, também citou os juros altos e o equilíbrio fiscal.
“O Mais Médicos voltou porque a saúde não pode ser refém do teto de gastos, juros altos e um equilíbrio fiscal que não leva em conta aquilo que tem de mais precioso, que é a vida humana”, disse. “Nós vamos ter que mudar alguns conceitos que estão na nossa cabeça. Você não pode tratar a educação como gasto. Não pode tratar a saúde como gasto, porque não tem investimento maior do que salvar uma vida, do que um cidadão estar pronto para o trabalho.”
Ele se queixou dos técnicos da Fazenda, que, segundo ele, tratam o dinheiro aplicado nessas áreas como gastos governamentais.
“Como você pode colocar a saúde dentro do teto de gastos? Toda vez que a gente vai tratar de um tema social, aparece alguém da área econômica para falar de gasto”, disse. “Quanto custou ao país não ter cuidado da saúde das pessoas? Quanto custou a este país não ter alfabetizado as pessoas nos anos 1950? Temos que arejar a nossa cabeça e mudar alguns conceitos, do que é gasto e do que é investimento. Tudo o que é feito para educar o povo, formar o povo e tratar da saúde do povo, a gente tem que ver sempre como investimento.”
Lula se esquivou das críticas por não ter, neste início de governo, implementado nenhum programa novo. O presidente vem recorrendo a velhas bandeiras da gestão petista, como o Minha Casa, Minha Vida e o Mais Médicos. Na semana passada, ao referir-se a um programa de obras que pretende lançar, pediu aos ministros que criassem um novo nome, diferente do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), lançado em seu segundo mandato (entre 2007 e 2010).
“Quando estivermos completado cem dias já teremos recolocado na prateleira todas as políticas públicas que nós criamos e que deram certo neste país. A partir dos cem dias, nós vamos ter que começar a fazer coisas novas”, disse. “Nós temos que nos dirigir um pouco à classe média brasileira. Porque, no fundo, no fundo, ela tem sofrido muito neste país.”
Fonte: Valor Econômico
