O laboratório Cristália inaugurou nesta terça-feira (9) uma unidade de genética aplicada em Campinas (SP). A unidade recebeu investimento de R$ 70 milhões e quer acelerar o desenvolvimento de terapias gênicas e celulares com a pesquisa de tratamentos personalizados e individualizados. A unidade é inaugurada tendo como principal projeto pesquisa em desenvolvimento com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que investiga possibilidades de tratamento para o alcoolismo.
“Nas terapias gênicas ou se personaliza o tratamento para uma população que tem uma condição genética similar, ou se faz um tratamento individualizado para o paciente, onde usamos o sangue do próprio indivíduo para preparar a terapia”, disse em entrevista ao Valor o vice-presidente de pesquisa e desenvolvimento do Cristália, Rogério Almeida. “Temos essas duas possibilidades para trabalhar quando falamos de terapia gênica e terapia celular.”
Nesta unidade, o laboratório contará com tecnologias de terapia gênica, como RNA mensageiro, e celulares, como CAR-T e CAR-NK, que modificam células de defesa do próprio paciente para combater cânceres e doenças do sangue, disse ele.
Atualmente, o setor público, com instituições como Fiocruz e Universidade de São Paulo (USP), já conta com alguns núcleos de pesquisa ligados à genética aplicada no país, mas unidades dedicadas ao campo no setor privado nacional são escassas ou inexistentes.
A discussão sobre a necessidade da unidade começou no ano passado e investimentos na compra de equipamentos e na construção da instalação aconteceram a partir da segunda metade daquele ano. Até então, projetos ligados à terapia gênica não contavam com unidade própria e eram conduzidos em outras plantas do laboratório em Itapira (SP).
“Quando não tínhamos a técnica, os equipamentos ou a mão de obra capacitada para realizar os estudos que precisávamos, recorríamos a universidades ou a prestadores de serviço que fariam esse tipo de serviço, até fora do Brasil. Mas estávamos começando a ficar muito dependentes de terceiros e isso estava tirando um pouco da nossa velocidade”, disse. O laboratório, afirmou, quer reduzir a dependência de prestadores de serviços externos, internalizando esses processos e tecnologias.
O Cristália manterá parcerias com universidades na unidade e, considerando o projeto com a UFMG, a instalação já conta com duas pesquisas em andamento. Na pesquisa com a instituição mineira, cientistas estudam um gene identificado pela universidade que regula a dependência e desenvolvem tecnologias de RNA que poderiam atuar no combate ao alcoolismo.
“Temos uma parcela da população que tem um defeito genético que faz com que se tenha uma propensão ao vício em álcool. Esse trabalho identificou uma molécula que controla esse gene para que ele possa voltar a trabalhar corretamente”, afirmou Almeida.
A outra pesquisa da unidade, que também já estava sendo desenvolvida em Itapira (SP), parte de acordo formal com a startup brasileira MirScience Therapeutics, que identificou molécula que promove o aumento de massa muscular e poderia atuar no tratamento de sarcopenia, processo de perda progressiva de massa que acompanha a velhice.
“No caso da sarcopenia, temos uma população maior [sendo afetada], mas não deixa de ser uma condição específica daquela população que tem esse problema, muito mais atrelada à idade do que uma condição genética”, acrescentou o vice-presidente.
Dos R$ 70 milhões aplicados na unidade, cerca de R$ 20 milhões foram aportes já feitos nas duas pesquisas. Neste momento, testes adicionais são conduzidos para que pedidos de estudos em humanos possam eventualmente ser submetidos à Anvisa, a agência reguladora brasileira. Até que se tornem disponíveis e aprovadas para o público, essas terapias ainda precisariam passar por todas as três fases de estudos clínicos da Anvisa e, por isso, é pouco provável que se tornem disponíveis já antes de 2030.
“Esse estudo clínico [com a Anvisa] pode girar de R$ 30 milhões até R$ 200 milhões. Mas tudo depende do arranjo que for combinado com a Anvisa quando o protocolo dessas pesquisas forem apresentados”, disse o vice-presidente, que afirmou ainda não ser possível estimar a dimensão dos investimentos na fase de estudo clínico na agência reguladora.
O Cristália tem ampliado aportes em pesquisa e desenvolvimento de medicamentos inovadores. Hoje, uma das principais apostas do laboratório é a polilaminina, molécula em estudo que busca a regeneração de lesões na medula espinhal e que já foi alvo de questionamentos de parte da comunidade científica brasileira. Desde que passou a integrar o projeto liderado por Tatiana Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o laboratório já investiu cerca de R$ 150 milhões na iniciativa. No caso desta, trata-se de terapia regenerativa, e não genética ou celular.
Almeida disse que a unidade de genética aplicada recém-inaugurada do laboratório brasileiro mira projetos onde há necessidades médicas não atendidas e que conversas para novos projetos já são mantidas com uma universidade do Japão e uma empresa da Coreia do Sul. Ele não informou do que e de que instituições se tratariam.
Fonte: Valor Econômico