O modelo integrado de assistência hospitalar, pesquisa e ensino ganha cada vez mais adeptos do setor privado no Brasil
Por Arlete Lorini — Para o Valor, de São Paulo
31/05/2022 05h05 Atualizado há 7 horas
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Ainda em processo de mudança para a nova sede do centro de ensino e pesquisa do Hospital Albert Einstein, o seu diretor de pesquisa Luiz Vicente Rizzo tem na ponta na língua a justificativa para o espaço de 44 mil metros quadrados, na capital paulista, que recebeu investimentos de cerca de R$ 700 milhões. “Não dá para oferecer saúde de qualidade sem fazer pesquisa e ensino”, diz Rizzo. “Pega a lista dos 50 maiores hospitais do mundo, todos têm atividade de pesquisa.”
Com uma receita superior a R$ 4,5 bilhões em 2021, o Einstein destinará R$ 100 milhões para a pesquisa neste ano – há dez anos o montante anual era de R$ 8 milhões. As pesquisas experimentais e clínicas contemplam mais de mil estudos, principalmente em doenças cardiovasculares e diabetes, câncer, neurológicas e imunológicas. Entre os destaques, o Einstein conduz o maior estudo sobre diabetes do mundo, com quase dez mil pacientes inscritos. No ensino, além das graduações em medicina, enfermagem e fisioterapia, disponibilizará também odontologia, engenharia biomédica e administração em saúde. Incluindo os cursos técnicos e de pós-graduação, o Einstein contava 45 mil alunos matriculados no último ano.
O modelo integrado de assistência hospitalar, pesquisa e ensino, mais comum nas instituições norte-americanas, europeias e em algumas públicas brasileiras ganha cada vez mais adeptos do setor privado no Brasil. Além do Einstein, hospitais como o gaúcho Moinhos de Vento e a Rede D’Or estão reforçando as suas estruturas de pesquisa e aumentando a oferta de cursos de graduação e pós na área da saúde. “Dez anos atrás, esse movimento era muito tímido, hoje as publicações científicas já aparecem nos relatórios anuais de alguns hospitais”, observa Ana Maria Malik, coordenadora do FGV Saúde, da Fundação Getúlio Vargas. “Já tem gente dizendo que logo mais a assistência hospitalar vai ser caudatária da pesquisa.”
A Rede D’Or, que já reúne 68 hospitais, quase dez mil leitos e faturamento superior a R$ 20 bilhões em 2021, também anunciou uma meta ousada para a pesquisa. Através do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), pretende investir R$ 1 bilhão nos próximos dez anos. “Nossa ideia é ampliar o portfólio de cursos de graduação e de pós e aumentar a infraestrutura de laboratórios”, diz Fernanda Tovar-Moll, presidente do IDOR. “Temos múltiplas evidências que o investimento em pesquisa, ensino e assistência tem engrenagens próprias que se retroalimentam.” Com sede no Rio, o IDOR possui unidades em São Paulo, Salvador e Brasília, além de desenvolver pesquisas com outros hospitais em nove Estados. Tendo a neurociência como um dos carros-chefes da pesquisa, foi em um de seus laboratórios que o IDOR mostrou pela primeira vez que o neurônio humano era infectado pelo vírus da zika.
A estratégia de reforçar a atuação em ensino e pesquisa também é uma resposta ao processo de profissionalização do setor de saúde, que tem se acelerado com os movimentos de verticalização, segmentação e consolidação. “Não vamos conseguir disputar em volumes com os grandes grupos, a competição passa pela ampliação da excelência acadêmica e científica”, observa Mohamed Parrini, CEO do Hospital Moinhos de Vento, de Porto Alegre. “O retorno econômico não é gigantesco, mas é estratégico para a atração de talentos e para a diferenciação da qualidade na assistência e no posicionamento de mercado”, diz ele.
Em agosto, a faculdade do Moinhos, ganhará uma nova sede, em um shopping vizinho ao hospital, com investimentos de R$ 15 milhões e que vai dobrar a sua capacidade de atendimento. Além de cursos técnicos e de pós-graduação, oferece a graduação em enfermagem e, em breve, em gestão hospitalar, a primeira à distância.
Entre os projetos futuros do Moinhos estão a incorporação da graduação em medicina e a construção de dois prédios, exclusivos para o ensino e para a pesquisa, junto ao complexo hospitalar. Com pesquisas focadas em cardiologia, neurologia, oncologia, terapia intensiva, desfechos clínicos e infectologia, os protocolos saltaram de 34, em janeiro de 2020, para 134 agora. A previsão é que as áreas de ensino e pesquisa somem receita de R$ 50 milhões neste ano, cerca de 3,5% do faturamento de R$ 1,4 bilhão. “Em seis anos, a meta é que o ensino e a pesquisa já respondam por cerca de 15% de nossas receitas”, diz Parrini.
Veterano no investimento em ensino e pesquisa, o A.C. Camargo Center, o hospital paulista especializado no combate ao câncer, inaugurou ainda em 2010 o seu Centro Internacional de Pesquisa e mantém inúmeros cursos de pós-graduação, com cerca de 80 docentes. Além da pesquisa acadêmica institucional, que gera cerca de 350 publicações por ano em revistas internacionais, o hospital se destaca nos ensaios clínicos, patrocinados pela indústria farmacêutica. No momento, há 80 estudos sendo realizados, principalmente de testagem de novos medicamentos. “Além de fortalecer a assistência, os ensaios clínicos são estratégicos, porque têm financiamento da indústria farmacêutica, que quase nunca está em crise”, diz José Humberto Fregnani, superintendente de ensino e pesquisa do A.C. Camargo. “Conseguimos oferecer aos nossos pacientes oportunidades de tratamento que ainda não estão disponíveis no mercado.”
Imprescindíveis para testar a eficácia de novos medicamentos ou condutas médicas, os ensaios clínicos ainda têm uma presença bastante tímida no país. Do total de 416 mil em execução mundial, apenas 2% se encontram no Brasil, concentrados no Sul e Sudeste. Por um lado, essa baixa participação pode ser vista como uma oportunidade. Parrini, do Moinhos, conta que é grande o apetite da indústria farmacêutica por ambientes profissionais, com processos e pessoal qualificado, para o desenvolvimento de protocolos de pesquisa.
Fonte: Valor Econômico