Existe um lugar que Rosa Maria Mesquita Rodrigues, 59, conhece quase tão bem quanto a própria casa: as salas de avaliação da ALS (Australian Laboratory Services), multinacional australiana que realiza testes de produtos de beleza para grandes empresas, como Grupo Boticário, L’Occitane e Pierre Fabre.
Há cerca de 20 anos ela participa da avaliação de itens variados, de xampu a rímel e cremes para pernas cansadas. Rodrigues é uma das participantes mais assíduas da ALS, que todo ano recruta cerca de 30 mil pessoas, por redes sociais ou indicação (95% delas mulheres), para realizar 7.000 testes.
A legislação brasileira impede que se pague pelo teste de produtos no Brasil —mas as empresas de pesquisa concedem um ressarcimento pelo tempo dos “voluntários”, como são chamados os participantes, além de bancarem gastos de deslocamento e alimentação.
Na ALS, o valor varia de R$ 100 a R$ 400, em média. Mas há casos excepcionais, mais complexos, em que se paga R$ 4.000 ou até R$ 10 mil pelo tempo dedicado a avaliar um produto.

“Vir até a sede da ALS por 60 dias seguidos, testar os efeitos de um dermocosmético, por exemplo, e ficar aqui por horas, é muito mais trabalhoso do que vir uma vez para testar um hidratante”, diz Erlandi Lara Salvador Júnior, diretor geral da ALS Beauty & Personal Care, filial brasileira da ALS, com sede em Campinas (SP).
Segundo ele, os voluntários passam por avaliação médica antes de se submeter às pesquisas. Os nomes e marcas dos produtos são mantidos sob sigilo para garantir opiniões isentas.
Movimentando quase R$ 200 bilhões por ano no Brasil, de acordo com a Euromonitor, o mercado de cosméticos e higiene pessoal deve seguir o Guia para Avaliação de Segurança em Produtos Cosméticos, elaborado pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).
A agência classifica os produtos de duas maneiras: grau 1 e grau 2. Para os cosméticos de grau 1, a agência exige da empresa dados básicos como composição, modo de uso, rotulagem e finalidade. Após uma análise preliminar do produto, se todas as informações estiverem corretas, a Anvisa libera a comercialização.
Para os produtos de grau 2, é preciso que o fabricante apresente um dossiê completo com estudos de segurança e eficácia, incluindo avaliação toxicológica, que identifica os riscos de uma substância, e testes clínicos —é neste momento que entram em cena as voluntárias da beleza. Se os produtos atenderem todas as exigências, são liberados para venda.
Antes de irem para os testes clínicos, os produtos já foram avaliados internamente pelos fabricantes, com o uso de pele humana reconstituída (in vitro) ou pele impressa em 3D, a fim de evitar os riscos com voluntárias. Há um ano, foi sancionada no Brasil a Lei nº 15.183, que proíbe testes de cosméticos em animais —mas as grandes empresas já não adotavam a prática há anos, por pressão social.
Segundo Salvador, o índice de não conformidade de produtos nos testes de segurança é muito baixo: menos de 1% causa alguma reação alérgica. Já nos testes de eficácia, cerca de 5% não correspondem à proposta, que pode ser avaliada de três maneiras: resultados autopercebidos (quando a voluntária responde a um questionário); testes com médicos ou técnicos da ALS; e testes com equipamentos.
“Uma voluntária pode perceber bons resultados com um antirrugas, por exemplo, mas o produto não passa no teste do equipamento, que faz a medição em micrômetros e identifica o relevo da ruga”, afirma.
No Brasil, o terceiro maior mercado do mundo em beleza e um dos mais disputados (são mais de mil marcas só de xampus), os fabricantes usam os testes nas campanhas de marketing, como diferencial competitivo.
“Os claims [declarações de eficácia] nas embalagens servem para atrair a atenção do consumidor e mostrar como o produto se diferencia da concorrência”, diz o executivo. Segundo ele, é comum um fabricante testar tanto a eficácia da sua marca quanto a do seu concorrente.
Os testes de eficácia são desenhados a quatro mãos, pelo fabricante e pela empresa de pesquisas, que precisa conhecer a formulação do produto e saber qual o resultado esperado. Também é preciso escolher de maneira adequada o participante, afirma o executivo.
“Uma jovem de 20 anos não vai ser selecionada para testar o antirrugas, mas pode ser voluntária para avaliar um produto antiacne.”
Rosa Maria Rodrigues percebeu que, ao longo dos últimos 20 anos como voluntária na ALS, as oportunidades para realizar testes só aumentaram.
“Melhorou bastante [a oferta de testes] conforme fui ficando mais velha”, afirma. “A tendência é aumentar ainda mais”, diz a dona de casa, que fez das avaliações de produtos uma renda fixa.
“Se eu pegar firme, com teste para rosto, cabelo e desodorante ao mesmo tempo, eu consigo tirar uns R$ 3.000, quase todo mês. Termino um teste e já engato outro.”
Ela fica atenta ao grupo de WhatsApp com voluntários, onde são enviados avisos sobre novos testes.
“Também ligo ou vou até a recepção, para saber se tem alguma avaliação com meu perfil”, diz ela, que já levou o marido, a filha, a nora e até a neta de 13 anos para serem voluntários na empresa. “Eles dão preferência para quem não falta e é pontual”, diz. A tolerância para atrasos é de cinco minutos. Depois disso, colocam uma pessoa reserva para fazer o teste.
Rosa disse que já viu gente passar produto na pele e ter “vermelhidão”, mas com ela nunca houve problema. “Sou honesta nas respostas, conto exatamente o que aconteceu”, diz ela, que adora testar cremes de rosto. “O produto que eu mais gostei foi um peeling facial”, afirma a dona de casa, que agora avalia um suplemento em cápsulas para fortalecer unhas e cabelo. “É ótimo, minha unha não quebra mais.”
As voluntárias podem ainda testar cosméticos que acompanham um tratamento médico, como é o caso do Roacutan (para acne) e das canetas emagrecedoras. Nestes casos, as participantes ganham o medicamento. No momento, a ALS testa cosméticos para evitar a flacidez causada pelas canetas.
Na opinião de Salvador, os testes têm uma função social, ao oferecerem aos voluntários a chance de usar produtos com tecnologia de ponta.
A avaliação médica prévia também costuma identificar problemas de saúde desconhecidos dos voluntários, diz Gabrielli Brianezi, gerente técnica de pesquisa clínica da empresa.
“Por meio dos dermatologistas, muitas vezes descobrimos lesões suspeitas de câncer de pele. Neste caso, o voluntário é dispensado e recebe uma carta de encaminhamento para investigar o problema.”
Cecília Maria Inocencio Ponte, 53, diz que adora testar protetor solar. “Até evito de comprar hidratante e protetor, que são caríssimos. Uso os produtos deles, que são muito bons”, diz a cuidadora de idosos, que procura conciliar o trabalho com a rotina de voluntária.
“Nas minhas folgas, costumo pegar o teste de hidratante, que paga R$ 180 por 12 a 15 horas. Minha diária como cuidadora não chega a isso”, diz ela, que recebe cerca de R$ 800 por mês como voluntária, o que complementa a renda mensal de R$ 2.100.
Mas este não é o único lado bom do voluntariado da beleza, diz Cecília. “Às vezes a gente precisa de um lugar para conversar, para trocar ideia, né? Ainda mais nós, mulheres, aqui a gente faz amizade. Sempre que eu posso, quero estar aqui.Todo mundo é muito atencioso.”
Multinacional de capital aberto, a ALS faturou cerca de US$ 3,3 bilhões (R$ 16,9 bilhões) no último ano fiscal. No mundo, a companhia fornece testes para empresas de mais de 45 setores. No Brasil, seu foco está na indústria da beleza.
Funcionando como uma “auditoria” dos produtos, a ALS diz que a seriedade dos testes é fundamental para que as empresas não tenham problemas junto ao Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária), à Anvisa e demais órgãos governamentais —denúncias de irregularidades podem partir dos próprios concorrentes, como foi revelado pela Folha no caso entre Unilever e Química Amparo, fabricante do detergente Ypê.
“Defendemos que não existe ‘produto milagroso’, que elimina rugas, reduz manchas, hidrata, tudo ao mesmo tempo”, diz Salvador. “Isso exigiria uma quantidade muito grande de ingredientes ativos, o que tornaria o produto muito caro. Além disso, vários princípios ativos demandam muitos compostos para estabilizar a fórmula, o que deixaria o produto com uma textura espessa, muito ruim.”
Fonte: Folha de S.Paulo