Os CEOs de empresas no Brasil passaram a ser avaliados em ciclos mais curtos. Essa é a constatação de um novo estudo feito pela consultoria especializada em recrutamento e desenvolvimento de alta liderança Exec antecipado ao Valor.
A análise, concluída em julho de 2026 e que considerou 130 mandatos em posições de CEO, diretor presidente e diretor geral, observa que o tempo médio do mandato de um CEO hoje no país é de 2,5 anos, com 44% dos mandatos terminando em até dois anos e somente 14% ultrapassando cinco anos. Comparando com os anos de 2024 e 2025, não houve mudanças relevantes nos resultados da pesquisa — o ciclo de cerca de três anos de mandato se manteve ao longo desse período.
Mas na comparação com uma década atrás, houve uma redução significativa. André Freire, sócio-diretor da Exec, comenta que, nos anos 2000, um CEO costumava permanecer no posto por oito anos ou mais. “Há, de fato, uma tendência de redução do tempo de permanência dos CEOs”, afirma, frisando que os resultados da análise estão alinhados ao que ele observa na prática dos processos de sucessão e recrutamento de CEOs que a consultoria realiza.
Para ele, hoje, o ambiente competitivo muda mais rapidamente, as empresas revisitam suas estratégias com maior frequência e, consequentemente, também revisam suas lideranças. “O ambiente de negócios ficou mais dinâmico, os conselhos estão mais exigentes e a pressão por resultados acontece muito cedo”, detalha. “Ao mesmo tempo, cresce a complexidade do papel do CEO. Espera-se que ele entregue resultados financeiros, conduza transformação digital, desenvolva lideranças, fortaleça a cultura e dialogue com diferentes stakeholders. A expectativa aumentou, mas o tempo disponível para demonstrar capacidade de entrega diminuiu.”
Freire diz que 2,5 anos é um período relativamente curto para um CEO implementar uma agenda estratégica completa. “Em muitas organizações, os primeiros 12 meses são consumidos pelo diagnóstico, formação da equipe e ajustes de rumo. As transformações mais profundas costumam aparecer depois disso”, explica. Mas ele diz que, mais importante do que definir um tempo ideal para a permanência do CEO, é entender se existe alinhamento entre o horizonte estratégico da empresa e o horizonte dado ao executivo. “Quando esse alinhamento existe, aumenta significativamente a probabilidade de um mandato bem-sucedido”, afirma.
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Com base em sua experiência, Freire comenta que a saída do CEO do comando de uma organização geralmente não se resume a uma única causa, citando algumas razões para o fim do mandato. “A primeira é o desalinhamento de expectativas entre conselho, acionistas e CEO”, enumera. “Muitas vezes o executivo é contratado para acelerar uma transformação, mas não recebe autonomia, recursos ou tempo compatíveis com essa expectativa.”
Outro fator que ele lista é a velocidade com que o contexto muda. “O perfil considerado ideal na contratação pode deixar de ser o mais adequado poucos trimestres depois, diante de mudanças de mercado, tecnologia ou estratégia.”
Freire também percebe uma redução da tolerância dos investidores e dos conselhos com curvas de aprendizado mais longas. “Hoje existe uma cobrança muito maior por resultados desde o início do mandato.”
E, por fim, o sócio da Exec menciona um aspecto que diz ser cada vez mais relevante: a relação entre CEO e conselho. “A capacidade de construir confiança, transparência e alinhamento tornou-se tão importante quanto a capacidade de execução.”
Freire conclui dizendo que uma leitura importante é que esse estudo não deve ser interpretado apenas como um indicador de rotatividade. “Ele mostra como os primeiros dois anos se tornaram decisivos para o sucesso de um CEO”, afirma. “Isso aumenta a importância de um processo de sucessão bem conduzido, de critérios claros na escolha do executivo e de um onboarding estruturado.”
Na visão dele, o sucesso de um mandato depende menos de encontrar um “CEO perfeito” e mais de construir um ambiente em que conselho, acionistas e executivo compartilhem expectativas, prioridades e critérios de avaliação desde o primeiro dia.
Para chegar aos resultados do estudo, a Exec removeu da análise nove “outliers” — mandatos atípicos — pelo critério estatístico IQR (intervalo interquartil), que eram majoritariamente de fundadores e sócios-proprietários, cujas permanências de até 25 anos distorceriam o retrato do CEO contratado.
Em classificação por faturamento estimado a partir de informações públicas, cerca de oito em cada dez mandatos identificados ocorreram em empresas com receita anual acima de R$ 130 milhões, sendo 44% em grandes companhias com faturamento acima de R$ 1 bilhão, incluindo multinacionais. Startups e pequenas empresas representam cerca de 16% da amostra.
Há forte concentração das empresas analisadas no eixo Sudeste-Sul, com São Paulo amplamente dominante, seguido de Rio de Janeiro, Minas Gerais e interior paulista (Campinas). No Sul, destacam-se Curitiba, Florianópolis e Joinville. Há presença menor de executivos do Nordeste (Fortaleza, Recife), Centro-Oeste (Brasília) e Norte (Manaus, Belém).
Fonte: Valor Econômico