Bloomberg Línea — Com o fim das convenções partidárias e a oficialização das candidaturas até 15 de agosto, o mercado financeiro aumenta o foco na eleição presidencial de 2026 em outubro. A expectativa é que a disputa fique cada vez mais nos holofotes, em um cenário que parte dos agentes considera mais equilibrado do que indicam as pesquisas de intenção de voto.
Os levantamentos divulgados nas últimas semanas apontam o presidente Luiz Inácio Lula da Silva à frente do senador Flávio Bolsonaro, principal nome da oposição. Lula lidera contra Flávio por 6 pontos percentuais, com 49% contra 43%, em um cenário de segundo turno, de acordo com a última pesquisa da AtlasIntel para a Bloomberg News, divulgada na quarta-feira (29).
No domingo (2), o Partido dos Trabalhadores (PT) oficializou a candidatura do presidente Lula à reeleição em sua convenção partidária, enquanto o Partido Liberal (PL), de Flávio Bolsonaro, havia feito o mesmo no fim de semana anterior.
Ainda que Lula apareça na liderança nas sondagens, gestores avaliam que o cenário eleitoral pode ser mais competitivo do que indicam as pesquisas. “Não estou convencido de que o Lula é favorito, mas reconheço as fragilidades do Flávio. O cenário-base é de eleição bastante acirrada”, afirmou Rafael Ihara, economista-chefe da Meraki Capital.
Segundo Ihara, fatores estruturais, como o alto endividamento das famílias, pesam negativamente sobre a popularidade de Lula, que está abaixo dos níveis historicamente observados em outras campanhas de reeleição bem-sucedidas. “O ‘pacote de bondades’ do governo ainda não se traduziu em melhora da aprovação, e isso é um desafio”, disse.
A avaliação encontra respaldo em parte do mercado. Durante painel na XP Expert, João Landau, gestor da Vista Capital, também avaliou a disputa presidencial como mais apertada do que sugerem os levantamentos.
Segundo o gestor, Lula conquistou, em 2022, o voto de parte do eleitorado que costuma se abster nas eleições e pode não contar com esse apoio novamente.
“O eleitor do Lula tem maior abstenção, o que leva cerca de cinco pontos para a direita nas intenções de voto. Então, quando olho uma diferença de cinco ou seis pontos nas pesquisas, considero que ela mostra um empate”, afirmou.
Landau também projeta que eleitores indecisos tenham maior propensão a votar na direita. “Tenho mais convicção de que o Lula perde [do que a média]. O mercado está muito comprado no Lula. Acho que a eleição está muito mais empatada – e o jogo nem começou”, disse.
Ainda assim, a oposição tem enfrentado dificuldades para explorar as fragilidades do governo. O governador Tarcísio de Freitas ficou fora da disputa ainda no ano passado, quando a família Bolsonaro anunciou apoio a Flávio.
O filho do ex-presidente se mostrou mais viável do que o mercado esperava nas primeiras pesquisas de 2026, mas sua candidatura sofreu revés a partir de maio, quando surgiram as primeiras denúncias de negociações entre o senador e o controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro.
Além de Lula e Flávio Bolsonaro, outros nomes que tiveram sua candidatura à presidência oficializadas pelos partidos incluem Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo), Renan Santos (Missão), Edmilson Costa (PCB), Rui Costa Pimenta (PCO), Hertz Dias (PSTU), Leonardo Avalanche (PRTB), Samara Martins (UP) e Wilson Grassi Jr. (Democrata).
Ruy Alves, gestor da Kinea, afirmou durante a XP Expert que uma eventual mudança de governo, por si só, não garantiria o avanço da agenda de reformas fiscais, principal demanda do mercado para 2026. “Não existe salvador da pátria. Mesmo que a oposição vença, [a situação fiscal] não tem saída fácil”, afirmou.
Mesmo entre investidores que enxergam uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro como positiva para os ativos brasileiros, permanece a dúvida sobre como será a condução da política fiscal, já que o senador não apresentou um programa econômico detalhado até o momento.
“No caso do Flávio, as propostas são opacas, ninguém sabe ao certo o que seria feito. Mas a percepção é que seria minimamente melhor do que o atual governo. Ainda que não seja uma solução completa, pelo menos é uma direção diferente”, afirmou Matheus Spiess, estrategista da Empiricus Research, à Bloomberg Línea.
Spiess também avalia que o mercado já precifica algum nível de ajuste fiscal como inevitável, independentemente de qual seja o novo governo.
“A diferença é entender quão estrutural serão as mudanças, ou se serão apenas um ‘curativo’ para empurrar o problema adiante”, disse.
Fonte: Bloomberg Línea

