Por Felipe Laurence e Victoria Netto — De São Paulo
24/08/2023 05h02 Atualizado há 6 horas
Os custos das empresas de capital aberto mostraram primeiros sinais de arrefecimento no segundo trimestre, conforme os resultados de 415 companhias não financeiras compilados pelo Valor Data. Analistas ouvidos pela reportagem afirmam que o movimento é resultado de menor inflação no período e das iniciativas de reestruturação realizadas pelas empresas.
O levantamento aponta que os custos de produtos e serviços dessas companhias alcançaram R$ 639,2 bilhões, ligeiro recuo de 0,4% na comparação anual. Houve desaceleração em termos percentuais tanto na comparação com o primeiro trimestre, quando os custos haviam subido 9,5% em um ano no período de três meses encerrado em março, quanto na comparação anual, quando haviam crescido 22,6% sobre o segundo trimestre de 2021.
Os números, que excluem Petrobras e Vale do cálculo, que por sua maior escala ante outras empresas acabam afetando a base de comparação, mostraram aumento anual de 6,5% nas despesas operacionais, a R$ 107,2 bilhões. O crescimento foi maior do que no primeiro trimestre, quando aumentou 4,8% em um ano, mas menor do que no mesmo período de 2022, quando subiu 17,6% sobre 2021.
“Operacionalmente, os resultados do segundo trimestre vieram muito parecidos com os do primeiro trimestre, reflexo de uma economia com tendências positivas, mas ainda sem espelhar muito nas receitas e no lucro”, explica Gabriela Joubert, estrategista-chefe do Inter. No entanto, ela destaca que a queda nos custos foi destaque positivo por conta do processo desinflacionário mais longo.
“Vimos esses efeitos acontecendo especialmente nas empresas domésticas; construção sentiu bastante a redução nos preços dos produtos siderúrgicos e cimento, enquanto varejo viu normalização nas cadeias de produção”, afirma. “A tendência é continuarmos a ver esses efeitos nos próximos períodos”, continua. Já em indústria, a queda nos custos demora mais a ser sentida pelo seu perfil de longo prazo.
Durante teleconferência de resultados, empresas do varejo destacaram as questões de custos e melhora das margens. A Lojas Renner, por exemplo, afirmou a analistas que acredita que a combinação de redução de custos e adequado nível dos estoques trarão maior competitividade para a rede, o que pode voltar a trazer níveis saudáveis de margem bruta. Outras empresas do setor, como Magazine Luiza e Natura &Co, têm visão semelhante.
“As empresas que são mais dependentes de commodities, que entram como custos, tiveram melhora”, afirma Victor Natal, estrategista de pessoas físicas do Itaú BBA. “A deflação de alimentação foi negativa para supermercados, que sofreram com mais pressão nas margens”, continua. Ele aponta que uma variedade de fatores contribuiu para a redução nos custos.
Aline Cardoso, chefe da área de pesquisa e estratégia de ações do Santander Brasil, explica que redução nos custos com combustíveis e transporte foi algo bastante sentido pelas empresas domésticas, o que também explica esse desempenho dessas companhias. “O ciclo começa a ficar positivo para essas empresas, com comparações mais fáceis.”
No desempenho geral, o lucro líquido das 415 empresas não financeiras analisadas aumentou 3,2% no segundo trimestre, a R$ 39,4 bilhões, com queda de quase 40% nas despesas financeiras, com câmbio melhor, impulsionando o resultado líquido. Já as receitas dessas companhias caíram 1,5% na mesma base de comparação, a R$ 840,6 bilhões.
“No começo deste ano, ainda estávamos em um cenário econômico restritivo, com juros mais elevados do que no ano anterior, então vimos queda de receita e de margens em algumas companhias, mas o resultado financeiro começa a ser favorecido por algumas rolagens de dívidas que as empresas têm feito”, diz o chefe da equipe de análise do BB Investimentos, Victor Penna. Ele chama atenção que a queda na curva longa ajudou a emissão de dívida mais barata.
Ao considerar os números de Petrobras e Vale, a receita total das companhias no segundo trimestre alcançou R$ 1 trilhão, queda anual de 7,1%. As despesas financeiras tiveram queda de 46,1% em relação ao mesmo intervalo do ano passado, para R$ 43,4 bilhões, e o lucro líquido recuou 40,6%, a R$ 73,1 bilhões de abril a junho de 2023.
Setorialmente, o desempenho das companhias foi bem díspar. Carlos Sequeira, chefe de pesquisa do BTG Pactual, destaca que serviços públicos (utilities) surpreenderam positivamente, com números acima do esperado, assim como telecomunicações, muito por conta de melhor dinâmica de repasse de custos, elevando margens.
“O setor de frigoríficos já sabíamos que seria fraco, principalmente porque o ciclo dos Estados Unidos é ruim e o varejo também, que teve inflação pressionando custo”, comenta. Empresas diretamente ligadas a commodities, como mineração, celulose e petróleo, tiveram resultados ruins, em decorrência da queda dos preços dos produtos no segundo trimestre.
Olhando para frente, Cardoso, do Santander, acredita que o segundo trimestre foi o pior em termos de desempenho das companhias e que a tendência agora é de melhoria nos números. “Temos uma base de comparação mais fácil, o movimento de queda nos preços começou no segundo semestre do ano passado, commodities parecem ter estabilizado e os juros vão começar a cair de fato.”
Victor Natal, do Itaú BBA, acredita que há uma demora até os efeitos dos juros serem sentidos nos resultados das companhias, o que limita efeitos positivos já no segundo semestre. “Não acho que vamos vencer essa ‘ressaca’ já em 2023, o patamar de juros mesmo em 2024 ainda será muito alto e não é algo que estimule a economia”, pondera o estrategista.
“Ainda existe um pouco de cautela entre as companhias, já vemos algumas diretorias mais confiantes das perspectivas, mas varia bastante setorialmente”, comenta Gabriela Joubert. “O terceiro trimestre deve ser de recuperação continuada, com aumento de receitas e sem dúvida custos menores por conta do processo desinflacionário que passamos.”
Fonte: Valor Econômico