Por Álvaro Campos, Valor — São Paulo
24/08/2023 08h08 Atualizado há 21 minutos
Às vésperas da eleição presidencial na Argentina, o Itaú informou que vendeu sua operação no país para o Banco Macro por R$ 250 milhões. Agora, o banco terá apenas um escritório de representação no país. O Itaú é o banco brasileiro com maior presença em outros países da América Latina, com forte atuação no Chile, Colômbia e Paraguai. Na Argentina, quem também tem presença importante é o Banco do Brasil (BB), por meio do Banco Patagônia.
O Itaú ressalta que manterá presença no país, segundo André Gailey, CEO regional do banco na Argentina, Paraguai e Uruguai. “Depois de mais de 40 anos, temos não apenas orgulho da nossa história argentina, mas a clareza que nossa jornada no país não termina aqui. Por isso, continuaremos com presença na Argentina por meio de um escritório de representação local, e seguiremos atendendo os nossos clientes corporativos e de wealth e private bank a partir das nossas unidades do banco no Brasil e nas demais unidades externas”, esclarece.
Com a aquisição, o Banco Macro se consolida como o maior banco privado de capital argentino no país, além de continuar a ser a entidade privada com a maior rede de postos de atendimento distribuídos por toda a Argentina. Com 565 agências e 9,4 mil funcionários, o Banco Macro atenderá diariamente a 6 milhões de clientes.
“A decisão de incorporar a operação do Banco Itaú Argentina reafirma o nosso propósito que é Pensar Grande”, acrescenta Jorge Brito, presidente do Banco Macro. “Somos uma empresa argentina que cresce a cada dia e, com a compra do Itaú Argentina, ratificamos nosso compromisso de continuar investindo no país. Com ativos superiores a US$ 2 bilhões, somos o banco argentino com maior capilaridade no interior da Argentina. Agora, dobraremos nossa presença na área metropolitana de Buenos Aires”, conclui Brito.
O Itaú receberá do Macro o valor de aproximadamente R$ 250 milhões, ajustados pelo resultado líquido do Banco Itaú Argentina auferido entre 1º de abril de 2023 e a data de fechamento, que ocorrerá após o cumprimento das condições previstas no contrato e a obtenção das autorizações regulatórias necessárias na Argentina. O negócio já vinha sendo estudado há alguns meses e o banco já até havia divulgado fato relevante sobre o assunto.
Segundo uma fonte com conhecimento do assunto, a decisão do Itaú não tem nada a ver com a eleição presidencial na Argentina. Quando o Itaú comprou o Banco del Buen Ayre, em 1998, por US$ 225 milhões, o então presidente do banco, Roberto Setúbal, chegou a dizer que a meta era estar entre os cinco maiores do país em alguns anos, mas o plano nunca se concretizou. Agora, com uma operação pequena – bem mais forte no atacado do que no varejo o banco precisava decidir se investia mais para ganhar escala ou acabava se desfazendo do ativo.
“O banco era muito pequeno no varejo, o que tornava difícil rentabilizar a operação. Ou o Itaú investia muito e ampliava a operação para ganhar escala, ou optava por uma estrutura mais leve para continuar atendendo os grandes clientes do atacado com mais eficiência”, aponta essa fonte. Como a Argentina vive uma turbulência macroeconômica muito grande, é difícil fazer projeções e calcular o valuation dos ativos, então nesses casos o preço de venda é definido muito no caso a caso. De qualquer forma, mesmo com as promessas de dolarização da economia pelo candidato Javier Milei, executivos próximo reforçam que a venda não teve nada a ver com a eleição. “É uma decisão estrutural, de longo prazo, que está muito mais relacionada com a capacidade do Itaú de rentabilizar a operação”.
De acordo com o banco central da Argentina, em 31 de dezembro de 2022, o Banco Itaú Argentina era o 16º maior banco do país em total de empréstimos em pesos argentinos, e o 11º considerando apenas bancos privados, com uma participação no mercado de 2,1%. São 67 agências/PABs e 145 caixas eletrônicos.
A operação do Itaú na Argentina é pequena, mas rentável. No segundo trimestre, o banco local gerou um lucro líquido recorrente de R$ 186 milhões, 40% maior que o do mesmo período do ano passado. O retorno sobre o patrimônio líquido médio (ROE, na sigla em inglês) foi de 52,5%. Os dados desconsideram os efeitos da variação cambial.
A carteira de crédito é pequena e somava apenas R$ 9,1 bilhões no fim do trimestre, uma queda de 10,4% em um ano. A instituição tinha 1.468 funcionários na Argentina no fim de junho, segundo dados disponíveis no balanço.
Na América Latina como um todo, que também abrange operações no Chile, na Colômbia, no Paraguai e no Uruguai, o Itaú encerrou o semestre com R$ 216,6 bilhões na carteira de crédito e lucro recorrente de R$ 769 milhões.
O Itaú estima que a venda da operação na Argentina terá um impacto negativo não-recorrente de aproximadamente R$ 1,2 bilhão, que será reconhecido quando a transação for concluída. Já o impacto líquido no capital Nível 1 será imaterial.
Fonte: Valor Econômico