Por Gordon Lubold, Nancy A. Youssef e Michael R. Gordon, Dow Jones — Tel Aviv
17/10/2023 20h44 Atualizado há 12 horas
A guerra entre o Hamas e Israel está forçando o governo Biden a enviar mais forças e recursos militares para a região, redirecionando mais uma vez a política americana para o Oriente Médio, quando ela esperava se concentrar nas potenciais ameaças representadas pela China e Rússia.
Temendo que o conflito desencadeado pelo Hamas em 7 de outubro possa sofrer uma escalada, atraindo o Hezbollah, estabelecido no Líbano, o governo Biden restabeleceu na última semana parte de sua presença militar na região.
Embora os posicionamentos recentes de recursos navais, esquadrões de caças — e potencialmente tropas de apoio — dos EUA devam ser temporários, a crise que os desencadearam não deverão ser de curta duração. O conflito poderá forçar os EUA a repensarem a forma como eles empregam suas forças armadas no Oriente Médio e representa um teste à forma como o Pentágono poderá continuar apoiando a Ucrânia e manter seu foco na China, o que o Departamento de Defesa classificou como sua maior prioridade de longo prazo.
Essa reviravolta repentina ocorre no momento em que os EUA, que passaram duas décadas combatendo insurgências no Oriente Médio e na Ásia Central, começam a enfrentar uma nova era de competição entre grandes potências com a China e a Rússia.
O recrudescimento da violência no Oriente Médio, que começou quando o Hamas lançou um ataque surpresa contra Israel a partir de Gaza, e os esforços intensivos dos EUA para evitar que o conflito se espalhe, poderão malograr os esforços de longo prazo dos americanos para se concentrar na região do Indo-Pacífico e reforçar a capacidade da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) de dissuadir a Rússia.
O presidente Biden insistiu que os EUA têm alcance global e recursos militares para lidar com a crise em Gaza e apoiar a Ucrânia. “Podemos cuidar de ambos e ainda manter nossa defesa internacional geral”, disse Biden ao programa “60 Minutes” da CBS no domingo.
Alguns ex-comandantes militares afirmam que a importância estratégica do Oriente Médio significa que os EUA precisam manter uma presença diária mais substancial na região, especialmente tendo em vista o Irã.
“Nossa postura na região faz a diferença”, diz Frank McKenzie, general aposentado da Marinha que liderou o Comando Central dos EUA de 2019 a 2022. “O Irã observa cuidadosamente o que fazemos. Quando reduzimos nossas forças e associamos isso a mensagens políticas ineptas de que o nosso foco agora está na Ásia-Pacífico, deixamos nossos amigos na região inseguros e encorajamos nossos potenciais inimigos na região.”
Até agora, os EUA enviaram dois grupos de ataque com porta-aviões — um já está na região e o outro encontra-se a caminho —, que consistem de cerca de uma dúzia de embarcações e 12.000 militares, deslocando tropas da Europa para o leste do Mediterrâneo. Um dos porta-aviões, o USS Dwight D. Eisenhower, deveria participar de um exercício da Otan durante sua mobilização programada de seis meses, mas agora ele está se dirigindo para o Oriente Médio, devendo chegar em cerca de duas semanas.
O USS Bataan, um navio de assalto anfíbio que atualmente opera perto do Mar Vermelho, começou a se deslocar na segunda-feira em direção à costa de Israel e poderá ajudar a evacuar americanos do país, segundo disse uma autoridade do Departamento de Defesa dos EUA.
O Pentágono reduziu os recursos navais na região nos últimos anos, transferindo mais deles para a Ásia-Pacífico para combater as ameaças da China. A última vez que os EUA tiveram dois porta-aviões no Oriente Médio foi em 2020.
Do mesmo modo, o Pentágono transferiu aviões de ataque A-10 e caças F-15 e F-16 de volta para o Golfo Pérsico, reforçando os recursos aéreos que vem alternando na região nos últimos anos. O Departamento de Defesa também está preparando o possível envio de cerca de 2.000 soldados para a região, incluindo alguns que poderão ir para Israel como medida de dissuasão.
Outros recursos estão sendo direcionados para o conflito, como armamentos. Até agora, Israel recebeu vários milhares de munições de artilharia de 155mm desde que o Hamas lançou seu ataque, segundo disseram autoridades do setor de defesa.
Isso acontece não muito depois de os EUA terem efetivamente esvaziado os seus arsenais pré-posicionados de munições de 155 mm mantidas em Israel como parte de seu esforço maior para atender a demanda da Ucrânia por peças de artilharia de que ela tento necessita.
Os posicionamentos mais recentes de porta-aviões seguem-se a outros dois neste ano. Em abril, os EUA enviaram um submarino com mísseis teleguiados para o Mar Vermelho, e em julho, navios de guerra anfíbios e milhares de Marines foram despachados para o Golfo Pérsico para impedir que forças iranianas se apoderassem de navios petroleiros na região.
Embora a Casa Branca afirme não ter informações de que Teerã orquestrou o ataque a Israel, os EUA deixaram claro que estão enviando porta-aviões e aviões de guerra para a região para dissuadir Teerã e o Hezbollah, a milícia libanesa que o Irã apoia, de uma escalada da guerra. O “The Wall Street Journal” informou que houve uma reunião entre o Hamas e autoridades de segurança iranianas para ajudar a planejar o ataque.
Durante anos, uma sucessão de governos, republicanos e democratas, procuraram se concentrar nos esforços para conter a crescente influência da China e seu poderio militar, apenas para ter seus planos complicados; primeiro pelos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, que foram seguidos pelas guerras dos EUA no Iraque e no Afeganistão, e depois pela ascensão do Estado Islâmico.
No governo Trump, a estratégia de defesa nacional do Pentágono colocou a dissuasão da China e da Rússia como as maiores prioridades de defesa dos EUA. Mas o foco da política externa da Casa Branca estava em reverter o programa nuclear do Irã e o apoio de Teerã a grupos militantes na região.
A equipe de Biden renovou o esforço para reduzir a presença militar dos EUA no Oriente Médio, determinando que isso poderia por um fim no conflito no Afeganistão e direcionar recursos significativos e atenção política para a região do Indo-Pacífico. A preocupação com Pequim tem sido motivada pelas avaliações dos EUA de que o presidente chinês Xi Jinping instruiu seus militares a estarem prontos até 2027 para agir militarmente contra Taiwan, embora autoridades americanas afirmem que uma ação militar da China não é inevitável.
Os EUA retiraram mais de oito baterias de mísseis Patriot da região no ano passado, inclusive do Iraque, Kuwait, Jordânia e Arábia Saudita, e as tropas que as acompanhavam. Retiraram também um Terminal de Defesa Aérea de Alta Altitude, ou sistema Thaad, da Arábia Saudita.
O destacamento naval e aéreo que era mantido na região, no geral sempre foi muito modesto, enquanto o Pentágono afirmava que poderia enviar forças de volta para o Oriente Médio em uma crise.
Agora, o Pentágono enfrenta a realidade da região que, pelo menos por enquanto, exige uma forte presença militar dos EUA. A questão é se isso vai se estender para além da atual crise.
“O Oriente Médio é importante para nós por causa do petróleo, do terrorismo islâmico e de Israel, nem sempre nesta ordem”, diz Eliot Cohen do Center for Strategic and International Studies, um centro de estudos de Washington. “A ideia de que podemos abandonar a região sempre foi falsa.”
Fonte: Valor Econômico