Por Vivian Salama e Tarini Parti — Dow Jones Newswires, de Washington
18/10/2023 05h03 Atualizado há 4 horas
Com Israel prestes a invadir Gaza por terra, o presidente dos EUA, Joe Biden, decolou ontem para a zona em conflito, mesmo com a escalada de mortes e destruição na guerra contra o Hamas nas horas antes de sua partida.
Uma explosão num hospital em Gaza matou centenas de pessoas (leia o texto acima). O ataque levou a Jordânia a cancelar uma reunião de cúpula entre Biden e os líderes egípcio, jordaniano e palestino para discutir a situação em Gaza, disse ontem o ministro das Relações Exteriores da Jordânia. O presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, deixou a Jordânia e retornou à Cisjordânia, segundo autoridades árabes.
Quando Biden partiu para Israel, um funcionário da Casa Branca disse ontem que o presidente havia adiado a sua viagem à Jordânia e as reuniões planejadas com os três líderes árabes após consultar o rei Abdullah II da Jordânia. Biden também enviou suas condolências pelas vidas perdidas na explosão do hospital.
Centenas de manifestantes reuniram-se ontem perto da embaixada de Israel em Amã, capital da Jordânia, com alguns criticando Israel e o presidente Biden após o ataque a um hospital em Gaza. “Ele [Biden] não deveria vir aqui para a Jordânia. A embaixada dos EUA não é bem-vinda aqui, porque apoia Israel”, afirmou o manifestante Amir Abu Mayaleh. Outro manifestante, Ahmed Khali, disse: “Apoiamos os palestinos e o Hamas”. Ele disse que nasceu na Jordânia, com antepassados de Hebron, na Cisjordânia.
A viagem organizada às pressas será cheia de riscos diplomáticos, políticos e de segurança para Biden. Também aumenta os riscos internos, uma vez que no início de sua Presidência, Biden prometeu acabar com as “guerras eternas” que consumiram os EUA nos últimos 20 anos.
Em meio aos crescentes temores de que o conflito possa se espalhar pela região, os EUA esperam que a viagem de Biden sirva de alerta para terceiros, sejam outros países ou grupos militantes como o Hezbollah do Líbano, apoiado pelo Irã, de que os EUA estão preparados para agir se entrarem no conflito. Ao viajar para a região, o presidente coloca sua credibilidade em risco e parece se envolver mais no conflito, mesmo com autoridades da Casa Branca afirmando que tropas americanas não serão enviadas para outra guerra.
“Não se sabe o que vai acontecer depois, mas de certo modo, isso também é um teste de liderança”, disse Dennis Ross, conselheiro e pesquisador do Washington Institute for Near East Policy, ex-funcionário da segurança nacional em quatro governos. “Ele [Biden] entende o que está em jogo.”
Biden também deverá pressionar pela libertação dos reféns mantidos pelo Hamas. As autoridades dos EUA vêm trabalhando através do Catar, Turquia e outros países que mantêm laços com o Hamas. Mas há o temor que sua visita e qualquer aparência de apoio à possível operação terrestre de Israel para erradicar o Hamas possam complicar esses esforços.
Embora não seja incomum que presidentes viajem para zonas de guerras, a natureza da viagem em si é incomum. A Casa Branca geralmente organiza viagens para zonas de guerra sob um rígido embargo de informação, como foi feito na viagem que Biden fez este ano à Ucrânia. Nesses casos, a imprensa concorda em noticiar a visita após a chegada do presidente.
“A viagem do presidente é uma oportunidade para ele demonstrar da maneira mais pública o seu compromisso com Israel, seu povo e sua segurança, ao mesmo tempo em que adia uma ofensiva terrestre e fornece tempo adicional para que um acordo de ajuda humanitária a Gaza seja firmado”, disse Jonathan Panikoff, diretor da Scowcroft Middle East Initiative do Atlantic Council e ex-funcionário da inteligência dos EUA.
“Mas a viagem é também uma oportunidade para o presidente pressionar Israel, a portas fechadas, sobre quais serão os seus objetivos estratégicos assim que a guerra terrestre terminar”, acrescentou Panikoff.
“Esta viagem não é explicitamente política, mas é moldada pelo que Biden é, como político”, disse Jon Alterman, diretor do Programa Oriente Médio do Center for Strategic and International Studies. “Ele acredita piamente em se conectar com as pessoas, pressionando na carne, obtendo compromissos pessoais e mudando comportamentos.”
Os EUA já mobilizaram uma força militar significativa para a região: o porta-aviões USS Gerald R. Ford e sua flotilha fortemente armada chegaram ao Mediterrâneo, perto de Israel, na semana passada, segundo autoridades, para evitar que o Hezbollah e outros atores entrem no conflito. Um segundo porta-aviões, o USS Dwight D. Eisenhower, deverá chegar em menos de duas semanas.
Sua viagem ocorre após duas visitas separadas do secretário de Estado Antony Blinken – que está envolvido em um frenético esforço diplomático na região – e do secretário de Defesa Lloyd Austin no fim da semana passada.
A visita a Israel foi sugerida inicialmente pelo premiê de Israel, Benjamin Netanyahu, em um telefonema com Biden nesta semana. Uma autoridade do governo disse que os EUA só concordaram em anunciar o pedido depois que Netanyahu concordou com um pacote de ajuda humanitária para a população civil de Gaza. Segundo Blinken, Biden receberá um briefing das autoridades israelenses sobre o plano para minimizar as baixas civis e permitir que a ajuda humanitária chegue em Gaza.
“Esse é um dos conjuntos de problemas mais complicados que se possa imaginar”, disse Daniel Kurtzer, ex-embaixador americano em Israel e no Egito. “Os próximos dias serão realmente muito difíceis. E o problema mais imediato é o humanitário. Mas igualmente importante é até que ponto a região se unirá na compreensão de que o Hamas precisa ser debilitado.”
Fonte: Valor Econômico

