Com a Selic se mantendo em patamares elevados, mesmo com cortes de juros pelo Banco Central neste começo de ano, fica difícil para gestores se posicionarem contra o desempenho do real, a não ser que a volatilidade aumente bastante. Essa leitura guia o BBVA em sua visão sobre o real neste ano. “No primeiro semestre do ano, ainda estaremos relativamente otimistas em relação ao real, enquanto nos manteremos mais cautelosos no segundo semestre”, diz o chefe global de moedas e estrategista para América Latina do banco BBVA, Alejandro Cuadrado.
O executivo reconhece que é difícil estabelecer no calendário os eventos e seus impactos, mas, dado que há um limite para a definição dos candidatos à Presidência (no fim do primeiro/começo do segundo trimestre), é de se esperar que a partir desse período os mercados fiquem suscetíveis a maior volatilidade. “Vai ser a partir daí que os investidores vão operar mais as pesquisas eleitorais”, afirma.
Cuadrado diz, ainda, que o câmbio brasileiro tenderá a responder mais as questões políticas, uma vez que o cenário global deve se manter favorável. “Mas o dólar não deve ficar tão fraco como neste ano. Em vez de as moedas apreciarem 10% contra o dólar, irão apreciar algo em torno de 2% a 3%”, diz.
O estrategista lembra que o mercado vem sendo mais complacente com questões de risco no Brasil hoje porque há alguma expectativa de alternância de poder, mas avalia que isso pode não se concretizar. “E se você, eventualmente, extrapolar os riscos que há no cenário atual e os riscos fiscais atrelados ao cenário, isso implicará um dólar mais alto”, diz, acrescentando que a moeda americana pode ir para R$ 5,30 neste começo de ano, mas, depois, facilmente pode ir para as casas de R$ 5,70 e R$ 5,80 durante as eleições.
Ao desenhar seus cenários a partir dos resultados das eleições, Cuadrado aponta que, se o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vencer, a taxa de câmbio podem voltar a desvalorizar e vai bater a dúvida no Banco Central sobre se precisará pausar seu ciclo de corte de juros e manter a Selic em patamar elevado para defender o valor da moeda, ou se seria até preciso reverter o ciclo.
“Isso [vai ficar assim] até que o governo demonstre uma intenção mais crível de melhorar as finanças públicas, o que, no fim das contas, já foi discutido inúmeras vezes e de diversas maneiras, mas na verdade não houve nenhuma melhora significativa”, diz. “Portanto, extrapolando isso, o custo para o real deveria ser alto, e para mim, isso pode significar o dólar chegar a R$ 6,00 ou até mais.”
No cenário com algum nome desconhecido, de alguém que ainda não deu indicações sobre política fiscal, o BC poderá continuar cortando as taxas de juros, mas com cautela, em uma trajetória de câmbio semelhante ao que foi visto na eleição de Jair Bolsonaro, diz o estrategista. “Provavelmente haverá maior volatilidade por conta das expectativas em torno de compromissos fiscais que precisam ser confirmados”, afirma Cuadrado, para quem o dólar pode ficar mais perto de R$ 5,60 e R$ 5,50 nesse segundo cenário.
Já em um ambiente de vitória do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), ou do Paraná, Ratinho Junior (PSD), há a expectativa de que algo em relação à seara fiscal seja feito e com alguma facilidade de se executar. “Considerando a melhora nas perspectivas de crescimento, se for esse o caso, podemos baixar um pouco o dólar para a faixa de R$ 5,30 ou até R$ 5,20, e o Banco Central vai poder continuar reduzindo as taxas de juros, inclusive para um dígito.”
Neste ambiente, o estrategista do BBVA diz que o mercado tende a esperar entradas de capital potencialmente maiores. “Isso acompanhará a segunda fase do processo de flexibilização da política monetária.”
Fonte: Valor Econômico


