O interesse estrangeiro por empresas brasileiras listadas tem provocado um movimento de ofertas públicas de aquisição (OPA) de ações. O movimento também tem ajudado a diminuir o número de empresas listadas na bolsa brasileira em um período de desafios para a retomada das ofertas iniciais de ações (IPO, pela sigla em inglês).
Nas últimas semanas, foram anunciados dois processos com esse perfil. A petroleira colombiana Ecopetrol registrou uma OPA voluntária para comprar ações da Brava Energia , visando assumir o controle de 51% do capital social da empresa brasileira. A intenção, ao menos até aqui, seria manter a companhia com o capital aberto. Outra OPA que será engatilhada se dará após a compra do controle da Mills pela francesa Loxam.
O frigorífico Minerva, que tem sofrido desvalorização de seus papéis no ano, também poderia fazer uma OPA de fechamento de capital, conforme circula no mercado. Em questionamento à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a companhia disse que não há qualquer definição sobre esse assunto.
Dentre outros casos previstos, está o da Neogrid, que foi adquirida pelo grupo Hidiana e ainda o da Desktop, comprada pela Claro. Nos dois casos, a OPA é obrigatória e levará à deslistagem das ações.
A visão no mercado é que há ativos listados de interesse de investidores, inclusive estrangeiros, o que tem alimentado o crescimento das OPAs. Essa é uma tendência que se tem visto nos últimos dois anos. Empresas com menor liquidez na bolsa receberam menos fluxo de investidores internacionais no início do ano e, na visão de analistas, seguem com valores descontados.
Alguns controladores optaram por aumentar suas participações ou até fechar o capital”
As OPAs podem ser desencadeadas por alguns eventos, como a oferta obrigatória em caso de mudança de controle – o chamado “tag along”, que é a ferramenta em que a mesma proposta feita aos controladores tem de ser direcionada também aos acionistas minoritários, o que pode levar a um fechamento de capital. Outra possibilidade é o lançamento de uma OPA para a aquisição de uma determinada fatia da empresa, sendo essa uma oferta voluntária.
O responsável global pelo banco de investimento do Itaú BBA, Roderick Greenlees, afirma que a realização de OPAs tem sido um assunto recorrente no mercado. “Há muito interesse do capital estrangeiro, e OPA segue como uma tendência enquanto o mercado de capitais não voltar de forma plena”, diz o executivo. Segundo ele, empresas listadas são alvos de aquisições.
O chefe do banco de investimento do UBS BB, Anderson Brito, confirma a tendência e frisa que, no momento, há diversas motivações. Uma delas são as empresas brasileiras atrativas para nomes estrangeiros. Outra motivação, segundo ele, se dá nos casos em que há uma diferença de “valuation” de subsidiárias empresas estrangeiras já listadas no exterior. Foi isso que levou, por exemplo, o varejista francês Carrefour a decidir fechar o capital de sua subsidiária brasileira no ano passado. Outro exemplo foi a Iberdrola, que comprou o controle da EDP no país e resolveu deslistar as ações.
Renata Monteiro, presidente da consultoria Apsis, que elabora laudos de avaliação para OPAs, afirma ter observado um aumento da demanda pelos documentos para esse tipo de oferta em 2025, movimento que continua neste ano. No início de 2026, diz, havia a expectativa de que essa procura pudesse diminuir diante das projeções de melhora do mercado de capitais, o que acabou não se confirmando.
“Diante desse cenário, alguns controladores optaram por aumentar suas participações ou até mesmo fechar o capital das companhias, aproveitando preços mais atrativos e ganhando maior liberdade para conduzir estratégias de longo prazo, sem a necessidade de responder constantemente às expectativas do mercado”, afirma. Ela diz que, desde 2021, na contramão da seca de IPOs na bolsa brasileira no período, houve mais de 30 ofertas públicas de aquisição.
Carlos Parizotto, responsável pelo banco de investimentos da Galapagos Capital, afirma que tem trabalhado em alguns casos e que a recente mudança de regra para as OPAs veio para facilitar o uso do instrumento. A medida abriu a possibilidade de, em uma única oferta, se fazer a compra do controle e também o fechamento de capital, o que tornou o processo mais simples e com menos riscos.
No momento, Parizotto afirma que a tendência é de OPAs sendo utilizadas para viabilizar fusões e aquisições (M&As, na sigla em inglês), mas também como uma correção de mercado, para o fechamento de capital de empresas que acabaram realizando suas aberturas de capital no último “boom”, na pandemia.
Fonte: Valor Econômico


