“Estamos em uma situação meio paradoxal”, afirmou o diretor de política monetária do Banco Central, Gabriel Galípolo, que participou de evento da Cámara Oficial Española de Comercio en Brasil, em São Paulo. “Estamos [os integrantes do BC] mais cautelosos, ou, nas palavras do comunicado do BC, serenos e parcimoniosos, justamente num cenário em que as coisas estão se revelando melhor do que poderíamos prever ou imaginar.”
De acordo com Galípolo,”isso é ampliado por alguns fatores, um comportamento decorrido de um período absolutamente excepcional, de pandemia seguido de um período de guerra”.
Conforme o diretor do BC, “a desinflação veio numa trajetória bem comportada”. O ponto de surpresa, segundo Galípolo, ocorre porque “seguimos tendo atividade muito resiliente mesmo com juros elevados”. O dirigente explicou que o crescimento da atividade no ano passado “foi quase duas vezes acima do PIB potencial, com juros em um território restritivo, e, mesmo assim a trajetória da inflação foi comportada”.
Segundo o dirigente, vários países passam por fenômeno semelhante, mas apresentam explicações diferentes do Brasil. “O Canadá, por exemplo, justificou com demografia, enquanto aqui tivemos essas discussões sobre se reformas já feitas possam ter trazido ganhos para o PIB potencial.” “Talvez possamos ter fatores que se complementam dos dois lados [das explicações] e isso dificulta um pouco mais a análise [macroeconômica]”.
Para Galípolo, “quando os economistas se deparam com cenários que não sabem explicar direito inventam termo e chamam esse cenário e ‘desinflação imaculada'”.
O aumento de endividamento de países desenvolvidos ocorrido a partir do esforço fiscal feito na pandemia também não teve efeitos tão severos sobre alguns emergentes e o Brasil quanto no passado. “A oferta maior de títulos [de economias avançadas] acaba provocando elevação nas taxas e isso acaba fazendo os pasies emergentes sofrerem. Mas apesar disso estamos vendo um bom comportamento da taxa de câmbio [no Brasil], estamos assistindo uma volatilidade menor tanto por parte do real quanto da curva de juros local.”
De acordo com Galípolo, apesar de o diferencial de juros entre o Brasil e os EUA estar em um patamar historicamente baixo, “estamos nos saindo bem”. Segundo o dirigente, “o saldo comercial tem ajudado [com maior ingresso de dólares na economia], mas o diferencial de juros atual se mantém atrativo quando comparado aos pares, o que está nos permitindo ter uma menor volatilidade no câmbio”.
O diretor de política monetária do BC ressaltou ainda que o país tem uma vulnerabilidade externa muito menor do que no passado e não apenas diante das altas reservas internacionais, na casa de US$ 350 bilhões. “As contas externas brasileiras têm se apresentado benéficas [nos últimos anos]”, disse.
Fonte: Valor Econômico
