Existem mais fatores de risco para o lado da desinflação do que de pressionar mais os preços, avaliou a economista-chefe do Santander e ex-secretária do Tesouro, Ana Paula Vescovi, durante evento da Cámara Oficial Española de Comercio en Brasil, em São Paulo. “No cenário de inflação, a gente vê mais ‘drivers’ para a desinflação”, afirmou.
Na visão da especialista, “os preços mais baixos em reais das commodities agrícolas e industriais persistirão ao longo do ano e serão o principal fator da desaceleração [de preços] dos bens comercializáveis”.
Vescovi citou ainda a expectativa de um menor efeito do fenômeno climático “El Niño”, que causa excesso de chuvas no Sul do país e seca no Centro-Oeste e Norte. “Apesar do El Niño, a oferta de grãos provavelmente será abundante e a inflação de bens industriais mais fraca é explicada pela fragilidade do crescimento econômico chinês. O Brasil deverá colher nste ano a segunda melhor safra da história, não será a supersafra do ano passado [a maior da história], mas ainda ssim será significativa.”
Conforme a economista, “se estivermos certos com Fed [Federal Reserve, o banco central americano] começando a reduzir juros em junho, revisamos para baixo a projeção do IPCA em 2024 para 3,4% frente aos 3,9% da anterior”. Para 2025, o Santander manteve a estimativa de uma inflação de 4%.
Em termos de ciclo de cortes de juros, o Santander enxerga uma taxa no fim do processo de 8,5%. “Neste patamar, chegamos a um diferencial real de juros [relação entre a taxa real brasileira com a dois EUA] que não rebate em taxa de câmbio, segundo os nossos modelos, ou seja, não gera pressões de depreciação de taxa de câmbio e não rebate em pressões inflacionárias.”
Vescovi enxerga a política fiscal como um dos grandes desafios neste e nos próximos anos. “O caminho para a consolidação [fiscal] segue desafiador”, afirmou. “O mercado está colocando no preço dos ativos um déficit de 0,5% neste ano [ante projeção de déficit zero do governo]. E como o governo vai reposicionar essas metas faz diferença para aos mercados.”
A economista-chefe do Santander afirma que, no longo prazo, o cenário da casa é de convergência do endividamento e uma retomada de superávit fiscal bem mais à frente “mais para o final da decada, ou seja, é uma execução lenta”.
Vescovi citou, porém, rendas futuras para o país que podem ajudar a melhorar a situação fiscal. “Por trás dessa projeção tem rendas de petróleo, por exemplo. O Brasil até o fim da década vai quase dobrar a produção de petróleo. Lá na frente a contribuição das rendas governamentais associadas a petróleo será de 3% do PIB. O grande risco nessa execução é se a gente tiver algum choque baixista de petróleo.”
O Santander estima o PIB potencial brasileiro em 1,5%. “Estimamos o crescimento potencial da economia em 1,5%, com possível aumento à frente devido à reforma tributária”, disse. “Tivemos essa surpresa de crescimetno do PIB acima das projeções [em 2023]. Nós também erramos o PIB, que veio para cima. A discussão é se temos um PIB potencial maior vindo de reformas passadas, mas vemos outras forças [estruturais] contrárias, como a questão demográfica. O censo de 2022 mostrou que temos uma população e força de trabalho menores que o projetado. A produtividade da força de trabalho é algo relacionado com processo educacional e nos testes internacionais [de avaliação de conhecimento escolar] o Brasil está muito mal posicionado. Existe ainda a questão da baixa taxa de investimento.”
Fonte: Valor Econômico
