Uma metodologia consagrada para a construção de portfólios de investimento será colocada à prova na próxima década.
De acordo com a GMO, gestora fundada pelo lendário investidor Jeremy Grantham, a carteira 60/40 — composta por ações e títulos — pode estar a caminho de uma década perdida de retornos próximos a zero.
O desempenho fraco deverá ser impulsionado pela concentração extrema do mercado, que transformou a composição da carteira 60/40 em um conjunto de ações caras e títulos de baixo rendimento, afirmou Ben Inker, co-chefe de asset allocation [alocação de ativos] da GMO, na quarta-feira.
“Em nossa visão, tal portfólio tende a decepcionar os investidores ao entregar retornos reais de um dígito baixo. Uma abordagem sensível a valuations [métricas de avaliação de valor], dinâmica e mais globalmente diversificada provavelmente é uma maneira melhor de gerenciar riscos e melhorar os resultados daqui para a frente”, disse Inker.
As valuations têm sido uma preocupação central para os investidores nos últimos anos, à medida que os mercados avançaram significativamente. O índice Shiller preço/lucro [Shiller P/E, medida de avaliação das ações ajustada pela inflação] do S&P 500 ronda os 42 pontos — o nível mais alto desde os meses que antecederam o estouro da bolha das empresas ponto-com.

A carteira 60/40 já desfrutou de um ciclo de retornos expressivos, impulsionados pelo crescimento notável do S&P 500, alimentado por ações de crescimento de alto desempenho. O setor de tecnologia da informação do S&P 500, epicentro do rali de alta do mercado, acumula valorização de 314% desde 2020.

Inker destacou a estratégia Benchmark-Free Allocation [Alocação Livre de Benchmark] da GMO, um portfólio criado pela gestora no início dos anos 2000. A estratégia se baseia na premissa de que os níveis de valuation convergem para sua média histórica no longo prazo, conforme o site da empresa.
Esse portfólio já superou a carteira clássica 60/40. O portfólio Benchmark-Free registrou retorno médio anual de 8,1% nas últimas duas décadas, em comparação a um ganho médio anual de 2,6% da carteira 60/40 no mesmo período, segundo análise da própria GMO.
O cenário de investimentos se assemelha de forma “inquietante” ao de 1999, quando a gestora apresentou pela primeira vez a estratégia Benchmark-Free Allocation e alertou sobre retornos mais fracos para a carteira 60/40. À época, a carteira 60/40 entregou retorno anual de 11% por cerca de 14 anos, à medida que as valuations de large caps [ações de grande capitalização] aumentavam progressivamente.
“Hoje, acreditamos que reduzir a exposição a ações de crescimento americanas caras e a ativos de crédito com spreads [diferenciais de rendimento] muito comprimidos, e aumentar a alocação em ações não americanas e em valor [value] com preços atrativos, contribuirá para gerar retornos compostos mais elevados do que um portfólio passivo tradicional”, disse Inker.
Ele também apontou uma série de riscos potenciais que atualmente pesam sobre os mercados, como conflitos geopolíticos e as tensões comerciais decorrentes de tarifas.
“As ações americanas, e as ações de crescimento em particular, estão caras e não estão precificadas para mudanças”, acrescentou, observando mais adiante que, em sua visão, o crescimento desaceleraria de forma significativa ou as valuations sofreriam uma correção.
Outros analistas de Wall Street também têm alertado para um período de fraqueza à frente para a carteira 60/40. No ano passado, o Bank of America afirmou acreditar que a divisão 60/40 estava a caminho de uma década de retornos pífios, com o portfólio potencialmente registrando perda de 0,1% nos próximos 10 anos.
A Vanguard sugeriu uma carteira 70/30 — com 70% de alocação em títulos e 30% em ações —, citando preocupações com a elevada concentração do mercado no setor de tecnologia.
Fonte: Business Insider
Traduzido via Claude