O Brasil se destaca como um dos países mais bem posicionados entre mercados emergentes para lidar com o choque energético provocado pelo conflito no Oriente Médio. A avaliação é da economista Iana Ferrão, do BTG Pactual, em estudo antecipado ao Estadão/Broadcast.
A posição privilegiada do Brasil, que sustenta o desempenho relativo superior do real entre emergentes, está relacionada ao comportamento da balança comercial brasileira quando se consideram as contas de petróleo e fertilizantes, afirma Ferrão.
O comprometimento do tráfego pelo Estreito de Ormuz com a guerra entre Irã e Estados Unidos levou a uma disparada tanto dos preços do petróleo quanto dos fertilizantes, itens relevantes da pauta comercial do país.
A economista observa que, em 2025, o superávit de petróleo e derivados do Brasil atingiu US$ 32 bilhões, ao passo que o déficit em fertilizantes foi de US$ 15 bilhões. O resultado líquido entre as duas contas foi positivo em US$ 16,4 bilhões, o equivalente a 0,72% do Produto Interno Bruto (PIB).
Além do Brasil, apenas a Colômbia apresentou em 2025 saldo líquido positivo, de US$ 7,1 bilhões (1,6% do PIB), considerando essas duas variáveis. Embora em proporção do PIB o resultado colombiano seja maior, o Brasil apresenta o maior “colchão absoluto” entre emergentes.
“Entre as grandes economias da amostra, com PIB superior a US$ 500 bilhões em 2025 — Brasil, México, Turquia, China, Indonésia, Índia e Coreia do Sul —, o Brasil é o único caso com saldo líquido positivo, o que reforça seu posicionamento relativamente mais favorável no início do choque”, afirma a economista do BTG.
O estudo abrangeu ao todo 13 países:
- África do Sul
- Brasil
- Chile
- China
- Colômbia
- Coreia do Sul
- Filipinas
- Índia
- Indonésia
- Malásia
- México
- Peru
- Turquia
Ferrão ressalta que as taxas de câmbio dos países analisados “evoluíram, em geral, de forma consistente com sua exposição ao choque externo”.
“Economias com saldo líquido de energia e fertilizantes mais favorável apresentaram melhor desempenho relativo de suas moedas, enquanto importadores líquidos de energia concentraram a maior parte das depreciações cambiais”, observa Ferrão.
Considerando o comportamento das moedas dos países analisados no período de 27 de fevereiro, véspera da eclosão do conflito no Oriente Médio, a 13 de abril, é possível observar que “a leitura de mercado caminhou na mesma direção da exposição direta capturada pelo canal da balança comercial”, pontual a economia. No intervalo considerado, o peso colombiano apreciou 4,6% frente ao dólar, seguido pelo real, com alta de 2,5%.
A economista ressalta que a posição favorável do Brasil não é atestada apenas pelos resultados de 2025. Quando se considera a média de 2022 e 2025, o ranking pouco se altera: Colômbia e Brasil seguem com saldo positivo (considerando petróleo, derivados e fertilizantes), enquanto todos os outros países da amostra exibem resultados negativos. Nesse recorte, o Brasil tem saldo líquido de US$ 11,7 bilhões (0,46% do PIB), seguido pela Colômbia, com US$ 9,2 bilhões (2,37% do PIB).
Reservas e colchão de liquidez
Apesar do foco no impacto direto do choque energético na balança comercial, Ferrão ressalta que é preciso levar em conta também outros aspectos, como transações correntes e nível de reservas internacionais disponíveis, para avaliar como cada país está posicionado para lidar com os desdobramentos econômicos da guerra no Oriente Médio.
Ela observa que o Brasil, embora tenha exibido déficit em transações correntes equivalente a 3% do PIB em 2025, possui um estoque de reservas internacionais elevado – de US$ 358 bilhões (aproximadamente 15,7% do PIB). Trata-se de um dos maiores estoques da amostra em termos absolutos.
“O País entra no episódio com um colchão relevante de liquidez e com um choque comercial direto que, diferentemente do observado na maior parte dos emergentes, atua na direção de reduzir – e não ampliar – o déficit em transações correntes e a vulnerabilidade externa”, afirma Ferrão.
Fonte: Estadão
