Depois de décadas de alguma volatilidade econômica, desindustrialização e de perda de participação nas cadeias de negócios globais, o Brasil está agora frente a uma conjunção histórica de fatores que pode ajudar a trazer um crescimento maior e a colocar o País numa posição melhor e mais importante dentro dos negócios globais. A conclusão vem de estudo do Boston Consulting Group (BCG) com base em entrevistas com empresários e executivos de grandes empresas do Brasil.
O relatório identificou megatendências globais que podem servir como grandes oportunidades para o Brasil, de uma forma que poucas vezes se alinharam em décadas. “Não significa que vamos aproveitar a conjuntura, mas as oportunidades estão aí e agora são maiores do que já foram”, afirma o sócio sênior do BCG no Brasil, Daniel Azevedo, um dos autores do estudo.
Trata-se de uma promessa de crescimento, mas não uma garantia, e que também depende de o País, por meio de ações dos governos e da iniciativa privada, saibam avançar para que elas sejam aproveitadas.
Nomes que participaram do estudo
Para a elaboração do estudo, ajudaram, por meio de entrevistas sobre as condições institucionais e econômicas brasileiras, nomes conhecidos do mundo de negócios globais, que percebem uma “chance única para esta geração para o País para iniciar um novo ciclo de crescimento sustentável”.
São eles os CEOs da Suzano, Beto Abreu; da Natura, João Paulo Ferreira; da Embraer, Francisco Gomes Neto; da Weg, Alberto Kuba; da Anima Investimentos, Pedro Passos; e da Motiva, Miguel Setas; além do presidente do conselho de administração da Iochpe-Maxion, Dan Ioschpe; do ex-CEO da Raízen e líder da iniciativa privada para a mais recente COP, Ricardo Mussa; e da sócia da gestora EB Capital Luciana Ribeiro.
A oportunidade permite ao Brasil se tornar “uma potência ainda maior no agronegócio, ampliar a sua presença nas cadeias produtivas globais, se tornar uma base para data centers e unidades produtivas intensivas em energia, e emergir como um fornecedor mais estratégico de minerais críticos”.
Também pode aumentar a sua participação como um hub regional de startups digitais e de serviços, além de avançar com uma nova onda de desenvolvimento de infraestrutura que traga mais produtividade, conectividade e resiliência nacional.
Para aproveitar esse potencial de uma forma melhor, no entanto, o País precisa tratar de vários gargalos históricos, “como barreiras tarifárias ao comércio, sistema tributário e regulatório complexos, e malha logística ultrapassada”. Também deveria buscar avançar além da sua dependência atual em relação às commodities.
Período de estabilidade econômica e política
As condições para isso foram postas pelas últimas décadas. “O Brasil vem de um período de estabilidade econômica e política que rivaliza com países mais maduros, mesmo com transições de poder que testaram nossas instituições e a democracia sobreviveu. Também tivemos governos sucessivos com reformas, como a previdenciária e a tributária”, afirma Azevedo, do BCG. “Tivemos avanços paulatinos que trazem estabilidade macroeconômica e institucional.”
O País é dono de um mercado interno de 213 milhões de pessoas e da oitava maior economia de consumo do planeta, com tamanho de US$ 1,3 trilhão, o que atrai empresas para explorar esse potencial de vendas domésticas. Também conta com recursos naturais e energéticos renováveis, de forma que a matriz de geração é uma das mais limpas do mundo, com cerca de 88% de fontes renováveis.
“A agenda da transição tem crescido nas empresas. Apesar do titubeio do governo americano quanto a isso, a pauta não foi embora”, diz Azevedo. “Ter uma matriz energética ajuda a trazer data centers e empresas para produzir aqui. Não é um dos custos energéticos mais baixos do mundo, mas é competitivo.” Segundo o estudo do BCG, a produção de aço emite 37% menos gás carbônico por tonelada no Brasil do que a média global, e a de alumínio 60% menos.
Além disso, o território nacional possui 13% da água doce do globo, com bastante área cultivável e a presença de minerais que farão a diferença para a transição energética das fontes fósseis para mais limpas — entre eles estão grafite, cobre, níquel, lítio e a terceira maior concentração de terras raras, úteis para a produção, por exemplo, de baterias para carros elétricos, telas de aparelhos eletrônicos e equipamentos militares.
Somado a tudo isso, o País desenvolveu uma economia digital bastante avançada, com 95% dos brasileiros utilizando a internet diariamente e 70%, o sistema de pagamentos instantâneos Pix, que virou referência global e inovação financeira.
“A nossa competência digital vem crescendo. O Pix é uma ferramenta única, democratizando acessos financeiros. E temos startups superdinâmicas, com referências muito fortes e um número de unicórnios relevante”, afirma Azevedo. “Mesmo que a nossa economia tenha visto o setor industrial sofrendo nos últimos anos, ela tem se diversificado e isso dá condições para o Brasil almejar participação maior em cadeias globais.”
O País já está entre os 15 principais ecossistemas de startups do mundo e entre os 10 com mais unicórnios, especialmente nos setores de serviços e fintechs. Em 2025, empresas de tecnologia investiram US$ 2 bilhões em data centers no Brasil, e a capacidade instalada pode quadruplicar até 2030.
Alternativa geopolítica
Dentro da complexa agenda geopolítica, com conflitos armados, disputas tarifárias e agressividade por garantir zonas de influência envolvendo os Estados Unidos sob a presidência de Donald Trump, a China e a Rússia, a tradição diplomática de neutralidade também conta a favor do Brasil. “Tanto que hoje o Brasil mantém relações diplomáticas saudáveis com Estados Unidos, China, Rússia, Europa e até com o Irã”, afirma Azevedo.
Isso dá mais segurança para investidores internacionais apostarem em trazer recursos ao País, evitando riscos de regiões com maior possibilidade de receberem sanções ou de serem envolvidas em conflitos armados. “Existem os seus soluços, como a imposição de tarifas pelos Estados Unidos, mas isso retrocedeu, em especial, com a decisão da Suprema Corte americana (que considerou irregular o uso dos mecanismos invocados por Trump para definir o aumento das taxas de importações)”, diz o consultor.
Houve avanços ainda com a assinatura do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia, e de conversas com a Índia. Com tudo isso, o Brasil tende a ganhar espaço dentro das cadeias globais.
“Essa combinação de condições não existia há 10 anos”, afirma Azevedo. “Não existem tantas opções no mundo com características do Brasil, com mercado interno grande, relações multilaterais de comércio, energia limpa e estabilidade institucional. Por mais que o Brasil não seja o país mais competitivo e, que num mundo em que custo decidia tudo certamente seríamos um perdedor, quando olhamos para as condições atuais, há grandes chances para aumentar a relevância que o País tem na dinâmica econômica global.”
No passado recente, das duas primeiras décadas do novo milênio, quando se pensava em cadeias de produção e em onde escolher fazer a montagem de produtos e distribuir fábricas pelo mapa, as empresas tinham como principal critério o custo. A resposta, então, era a China e paulatinamente outros países asiáticos, à medida que os custos trabalhistas aumentaram na maiores cidades do país mais populoso do mundo.
“Depois, começou a se falar de nível de serviço, de proximidade com o consumidor final. E, principalmente após a covid, se considerou riscos de demanda e surgiu um movimento de fabricação em regiões próximas, o nearshore”, analisa Azevedo. “Agora, se fala em resiliência, em risco a choques. Com o Brasil como um país neutro, sem conflitos iminentes, o que não é verdade para muitos países do mundo, o Brasil tem um papel a jogar.”
O mercado interno de tamanho invejável também conta a favor, por que, caso ocorra qualquer outro evento inesperado, como uma nova pandemia, e o comércio marítimo ficar dificultado, a produção pode ser direcionada para o consumidor local.
‘Não temos condições de virar uma nova China’
“A tese do nosso estudo não é que o Brasil seja o grande vencedor da nova conjuntura global. Mas que ele passa a ser mais atrativo do que era, desde que aproveite a oportunidade”, diz. “Não temos condições de virar uma nova China, mas temos condições de ocupar espaços mais relevantes do que ocupamos hoje.”
Seis oportunidades
De forma resumida, o relatório do BCG elencou seis grandes frentes de crescimento em que o Brasil está bem posicionado atualmente:
Em todas elas, há iniciativas avançando e espaços a ocupar. Por exemplo, além do já citado acima, uma empresa como a Natura já é conhecida por usar ativos biológicos em seus produtos, mas é possível evoluir muito mais no aproveitamento desses recursos. Já também nos últimos meses foram feitos anúncios do estabelecimento de data centers no País, e isso pode crescer bastante com o uso de energia renovável e a necessidade de empresas de inteligência artificial a terem cada vez mais capacidade de processamento de dados pelo mundo.
Os grandes desafios para atingir esse futuro mais otimista são bem conhecidos. Segundo o estudo do BCG e os pontos levantados pelos líderes brasileiros de negócios ouvidos, capturar as oportunidades exigirá ações coordenadas entre os setores público e privado, com avanços em infraestrutura, inovação e acordos comerciais.
Mais reformas, como a tributária, também são consideradas cruciais para destravar o chamado custo Brasil, que ainda representa entre R$ 400 bilhões e R$ 480 bilhões por ano em custos adicionais de operação.
Gomes Neto, CEO da Embraer, chega a citar a necessidade de diminuir as barreiras comerciais, para aumentar a competitividade, e de as empresas aumentarem o foco em produtos de mais valor agregado. O estudo, porém, conclui que em cada uma dessas áreas o Brasil tem feito “progresso encorajador”.
Fonte: Estadão
