Por Roberto Lameirinhas — De São Paulo
18/05/2022 05h02 Atualizado há 5 horas
Um dia depois de anunciar medidas que aliviam as sanções contra Cuba, duas fontes do governo americano afirmaram ontem que os EUA vão flexibilizar também as sanções em vigor contra a Venezuela. Isso sugere uma guinada na política do governo de Joe Biden para esses dois países. Os objetivos ainda não são claros, mas a iniciativa pode estar ligada ao risco de fracasso da Cúpula das Américas, a uma aproximação com o México e a ampliar as fontes de petróleo.
O anúncio sobre a Venezuela não foi confirmado oficialmente, mas as fontes disseram à agência Associated Press que a empresa americana Chevron foi autorizada a negociar com o governo de Nicolás Maduro a retomada de operações petrolíferas no país, suspensas no governo de Donald Trump.
Nos dois casos, as fontes destacaram a necessidade de “reduzir o sofrimento” da população desses países. O comunicado do Departamento de Estado que informou sobre o alívio das sanções a Cuba diz que Washington voltará a permitir o envio de remessas de imigrantes para parentes na ilha, facilitará trâmites de imigração e ampliará o número de voos para Cuba.
Trata-se de uma ação de risco para o governo Biden, que em novembro tentará manter a apertada maioria nas duas casas do Congresso – numa eleição na qual o voto latino é considerado importante. “Biden diz apoiar a democracia e os direitos humanos, mas sua estratégia de política externa é, na verdade, baseada em fazer concessões a ditadores”, disse o senador republicano Marco Rubio. “Biden está capacitando regimes ilegítimos e corruptos”, completou.
Mas, embora políticos e organizações latinas conservadoras da Flórida sejam favoráveis às sanções, a maior parte dos imigrantes da região pede o fim das limitações a visitas e à ajuda enviada a parentes nos países de origem.
Alguns especialistas apontam outras motivações, com implicações eleitorais, para a decisão da Casa Branca. “Primeiro, há a necessidade de diferenciar-se da política de linha dura de Trump para a América Latina e recuperar influência na região”, avalia um diplomata que pediu anonimato.
A informação sobre a Venezuela ocorreu horas depois de o presidente mexicano, Andrés Manuel López Obrador, ter qualificado de “política genocida” o embargo dos EUA contra Cuba desde os anos 60. O México ameaça boicotar a Cúpula das Américas, em Los Angeles, entre 6 e de 10 de junho, caso Washington exclua do encontro Cuba, Venezuela e Nicarágua. Bolívia e Peru também criticaram a possível exclusão dos três países.
“As mudanças na política dos EUA para Cuba e Venezuela aparentemente estão relacionadas à Cúpula das Américas”, afirma o acadêmico do centro de estudos Interamerican Dialogue, Peter Hakim. “Grande parte dos latino-americanos tem criticado o que consideram descaso de Biden com a região e ele deve ter concluído que manter as políticas de Trump não o estavam ajudando a ganhar terreno para os candidatos democratas da Flórida”, diz.
“Já a Venezuela é um caso diferente”, prossegue Hakim. “Havia negociações anteriores discretas que indicavam uma aproximação, com os EUA enviando emissários a Caracas. E um alívio também beneficia a Chevron e pode ajudar a conter o aumento dos preços do petróleo – principal preocupação de Biden hoje.”
A notícia sobre a Venezuela levou o petróleo Brent a cair 1,97%, para US$ 111,99 o barril ontem. Mas fontes de Washington disseram que a licença de operação da Chevron – que não se manifestou sobre o tema – não será ilimitada. O governo Maduro também não se manifestou e o opositor, Juan Guaidó, negou que tivesse pedido o fim das sanções.
“A Venezuela não tem como fornecer quantidades relevantes, mas as refinarias do Golfo do México estão configuradas para o tipo do petróleo venezuelano, que foi substituído pelo russo”, diz o diretor da consultoria Datanálisis, de Caracas, Luis Vicente León. “O custo político para Biden de negociar com Maduro é relevante. Mas mostrar que trabalha para baixar custos internos do combustível pode ser uma estratégia válida”, avalia.
Fonte: Valor Econômico