Se havia uma ideia de que o “boom” da economia americana estaria mais restrito aos nomes ligados à tecnologia, essa tese passou a ser amplamente questionada após a última temporada de resultados corporativos dos EUA. Lideranças de companhias de diversos setores apontam para uma reaceleração na demanda americana e, inclusive, uma tendência a novas contratações no mercado de trabalho.
A conclusão é de um levantamento feito pela equipe de estratégia do Deutsche Bank com as teleconferências de 300 empresas americanas no segundo trimestre.
“Não é de surpreender que o crescimento de diversos setores esteja sendo impulsionado pela IA, mas os comentários das administrações das empresas deixam claro que a força da demanda é muito mais ampla. De fato, uma expressão bastante usada neste trimestre foi ‘amplo’, ou ‘disseminado’. Isso está gerando um efeito multiplicador cíclico, à medida que diferentes setores se reforçam mutuamente e impulsionam áreas que ficaram para trás até agora”, aponta a equipe de ações do banco alemão, liderada por Binky Chadha.
Ainda que o ambiente se mostre favorável do ponto de vista corporativo, há sinais de dificuldades adicionais para o banco central americano. “A combinação de uma demanda robusta com choques contínuos significa que a corrida por suprimentos voltou, à medida que as empresas passam a se concentrar cada vez mais em garantir o abastecimento, remetendo aos tempos da pandemia. Depois de alguns trimestres com foco intenso na redução dos custos de mão de obra, as discussões, na margem, passaram das demissões para as contratações”, notam.
Os estrategistas afirmam que uma expressão bastante usada neste trimestre foi “amplo ou disseminado” e os bancos, que atendem a um amplo espectro de setores da economia, foram enfáticos nesse ponto.
“Por exemplo, o Fifth Third Bancorp afirmou que, entre seus clientes empresariais, ‘a confiança está aumentando de forma bastante ampla. Realmente não está concentrada em nenhum setor específico’, enquanto o US Bancorp observou que ‘praticamente todas as categorias no segmento empresarial estão no verde do ponto de vista do crescimento’. O Citizens Financial afirmou estar ‘vendo muitos sinais de retomada dentro do subsetor industrial em áreas que não estão necessariamente ligadas à infraestrutura digital’, ponto reiterado pelo PNC, que disse que seu crescimento é ‘amplo demais para atribuí-lo todo à IA’, “dada a dispersão entre os setores e também a dispersão geográfica”.
Já em outros setores, os estrategistas citam o exemplo da Graco Industries, que disse estar observando uma “retomada disseminada”, enquanto a Packaging Corp. of America confirmou que “a demanda foi muito forte ao longo de todo o trimestre em toda a nossa base de clientes”. Já a Trane Technologies afirmou: “Acompanhamos 14 setores diferentes. Todos eles tiveram um desempenho muito forte”, ilustra a equipe de ações do Deutsche no relatório.
Do ponto de vista do mercado de trabalho, os profissionais do Deutsche apontam que os anúncios das empresas sobre seus planos de emprego tendem a ser assimétricos, já que as demissões e cortes de pessoal são destacados de forma proeminente, enquanto os planos de contratação geralmente não são explicitamente mencionados.
“No entanto, após alguns trimestres de foco intenso em redução de custos, especialmente na redução das despesas com funcionários, houve uma queda significativa no número de empresas discutindo planos de reduzir seus quadros de funcionários e um aumento incipiente no número de companhias que planejam intensificar as contratações”, apontam.
A percepção do Deutsche Bank sobre a temporada de resultados já é, de certa forma, refletida no principal índice de ações americano. O S&P 500 Equal Weight, que dá pesos iguais a todos os componentes do índice e, portanto, diminui a relevância no desempenho das maiores companhias do país, supera o índice amplo em 2026, ao subir 14,10%, contra 13,26% do S&P 500.
A FactSet aponta que, até o momento, a taxa de crescimento da receita do S&P 500 no segundo trimestre está em 15,0%, o que, caso seja confirmada, será o maior crescimento de receita reportado pelo índice desde o quarto trimestre de 2021 quando o avanço foi de 16,1%.
“Os 11 setores estão registrando crescimento de receita na comparação anual. Cinco desses 11 setores apresentam crescimento de receita de dois dígitos, liderados pelos setores de Energia, Tecnologia da Informação e Serviços de Comunicação”, afirma John Butters, analista sênior de lucros da FactSet.
Fonte: Valor Econômico


