Dez anos depois de perder o investment grade na agência de ratings Moody’s, o Brasil ainda vê a recuperação da nota ameaçada pela falta de avanço no fiscal. A avaliação é de William Foster, responsável pela classificação soberana do País na agência.
O executivo endossa um posicionamento que há tempos é defendido por economistas brasileiros: o Brasil enfrenta um problema grave de endividamento público, agravado por juros elevados, rigidez orçamentária, despesas obrigatórias e polarização política.
William Foster, Senior Vice President da Moody’s Ratings e responsável pela classificação soberana do Brasil, avalia desafio fiscal no País. Melhora do rating depende de reformas estruturais capazes de estabilizar crescimento da dívida, disse em evento em SP. Foto: Sarah Ferreira
Para a Moody’s, o caminho passa por reformas na Previdência, melhora do arcabouço fiscal e desindexação de despesas obrigatórias do salário mínimo – um ajuste de cerca de 2,5% do PIB, que deve ser feito principalmente por meio do corte de gastos, defende.
Mas o País não avançou. Em maio de 2025, a agência rebaixou a perspectiva do rating do Brasil, atualmente em Baa1, de positiva para estável.
“A perspectiva positiva indicava que o Brasil poderia, em algum momento, voltar ao grau de investimento. No entanto, isso deixou de ser compatível com o que estávamos observando na área fiscal”, diz. “Desde então, houve uma deterioração contínua do quadro.”
Agora, a Moody’s está observando o desenrolar das eleições presidenciais com a esperança de que, passado o pleito, o candidato vencedor apresente um plano capaz de reforçar a credibilidade fiscal do País.
“Existe uma oportunidade para que esse cenário mude após as eleições. O Brasil tem potencial para apresentar um desempenho melhor tanto no campo econômico quanto no fiscal. Se isso se concretizar, pode haver espaço para uma futura elevação da classificação de risco. Mas, neste momento, existe uma diferença bastante significativa entre o potencial do País e o que, de fato, está acontecendo na prática.”
Foster veio ao Brasil para o Inside Latam 2026, evento promovido pela Moody’s em São Paulo, e falou com exclusividade ao E-Investidor.
E-Investidor – Há um ano, quando a Moody’s revisou a perspectiva do rating do Brasil de positiva para estável, a agência apontou os juros elevados, a rigidez fiscal e o ritmo mais lento de redução da dívida como os principais motivos. O País conseguiu avançar?
William Foster – Em grande parte, continuamos no mesmo cenário. Naquele momento, a perspectiva positiva indicava que, caso fosse mantida, poderia eventualmente resultar em uma elevação da nota para o grau de investimento. No entanto, isso era incompatível com o que estávamos observando na área fiscal. Os déficits estavam aumentando, a capacidade de pagamento da dívida vinha piorando e a relação dívida/PIB continuava em trajetória de alta.
Todos esses pontos estão piores do que os dos países com classificação semelhante. Precisaríamos ver uma melhora desses indicadores fiscais no Brasil.
O que vimos, porém, foi justamente o oposto. Houve uma deterioração contínua do quadro fiscal na maior parte desses indicadores. Mas existe uma oportunidade para que esse cenário mude após as eleições. O fator mais importante para o perfil de crédito do Brasil será justamente a forma como os desafios fiscais serão enfrentados.
Então, no cenário atual, o Brasil está mais próximo de um rebaixamento de nota do que de uma elevação para o grau de investimento?
Eu não diria isso. O fato de mantermos uma perspectiva estável indica que os riscos estão equilibrados. Mas é verdade que, pelo menos do ponto de vista fiscal, a direção recente tem sido mais negativa.
Esperamos que alguns fatores comecem a melhorar. O desafio relacionado à capacidade de pagamento da dívida deve começar a se aliviar à medida que as taxas de juros recuem gradualmente. Se começarmos a ver algum ajuste fiscal no próximo ano, tudo deverá contribuir para uma melhora gradual.
E há fatores positivos favorecendo o Brasil. O crescimento econômico tem surpreendido positivamente, os preços do petróleo continuam elevados e as exportações do agronegócio também seguem fortes.
Se todo esse potencial começar a se concretizar e entendermos que se trata de uma mudança estrutural e duradoura, poderá haver espaço para uma futura elevação da classificação de risco. Mas, neste momento, ainda existe uma diferença significativa entre o potencial e o que está acontecendo na prática.
O atual arcabouço fiscal do Brasil ainda oferece uma resposta efetiva para a política fiscal ou perdeu sua credibilidade ao longo do tempo?
É uma avaliação que cabe ao governo. Na regra atual, existem claramente desafios em relação à sua credibilidade e isso resultou em juros mais altos. Recuperar e fortalecer essa credibilidade seria algo muito benéfico para o governo em termos de seus custos de financiamento, e uma maneira potencial de fazer isso poderia ser ajustando o arcabouço fiscal.
Muitas das reformas estruturais necessárias no Brasil são politicamente difíceis de serem implementadas, não apenas por causa da polarização, mas por envolverem cortes em benefícios sociais. Como o novo governo pode construir um consenso político para aprovar esse tipo de medida?
Essa é a pergunta chave, um desafio que acontece ao redor do mundo inteiro, especialmente na América Latina. Uma das coisas mais difíceis que os governos precisam lidar é o aumento das necessidades de gastos sociais, juntamente com outras demandas por despesas, enquanto as taxas de juros estão mais altas. Como resultado, vemos déficits fiscais maiores e, consequentemente, a necessidade de algum tipo de reforma nos gastos.
É obviamente muito difícil fazer isso quando a dinâmica política está completamente dividida, mas não é impossível. Cabe ao governo e às suas lideranças decidir como vão navegar pelo Congresso e como vão construir acordos sobre temas difíceis. O Brasil já fez isso no passado, aprovando a reforma da Previdência em 2019.
Além da questão fiscal, quanto da perspectiva de crédito soberano do Brasil atualmente é influenciada por fatores externos?
A geopolítica é relevante, mas a política doméstica é o principal fator de risco. O Brasil é uma economia muito grande e integrada à economia global, então pode ser afetado pelo que acontece no mundo exterior via comércio, relações comerciais, preços das commodities e movimentos dos mercados financeiros. O Federal Reserve, por exemplo, pode impactar o custo de financiamento internacional e causar algum efeito.
Mas, ao mesmo tempo, o Brasil é um caso único, porque é muito mais protegido em comparação a outros países, justamente por ser uma economia tão grande e por ter um componente muito relevante de demanda doméstica. A exposição cambial em moeda estrangeira no Brasil, especialmente para o governo, é muito baixa e isso merece bastante atenção. As reservas internacionais também são relativamente elevadas. Há mais flexibilidade aqui para se ajustar a choques externos do que em muitos outros países.
Ainda assim, o rating do Brasil é menor do que de muitos pares na América Latina, como o Peru. Há décadas um presidente não consegue cumprir um mandato, mas o país tem uma avaliação melhor. Por quê?
O Peru é outro caso muito único. Apesar de toda a turbulência política, a posição fiscal permanece relativamente estável. Os indicadores de dívidas reforçam essa percepção, a relação dívida/PIB por lá é muito menor. O Peru tem uma das posições mais fortes da região, porque tem uma longa história de governos que apoiam políticas fiscais relativamente prudentes, que se sustentam ao longo dos ciclos políticos, de uma maneira que não acontece no Brasil.
Fonte: E-Investidor


