Por Roberto Lameirinhas, Valor — De São Paulo
18/04/2023 21h19 Atualizado há 12 horas
A percepção de descontrole da inflação na Argentina e a lentidão no ritmo de liquidação das exportações do setor agrícola estão pressionando dólar no mercado paralelo (“blue”), causando sucessivas altas históricas da moeda americana. A incerteza eleitoral também contribui para escalada da moeda americana que, segundo analistas, pode chegar a 700 pesos no fim do ano, quase o dobro da cotação recorde de ontem, de 418 pesos.
O gatilho da escalada na corrida ao dólar foi a inflação de março, de 7,7% — anunciada na sexta-feira — elevou o índice anual para 104,3%, o mais alto em 32 anos.
Os contratos de dólar futuro precificavam ontem um salto na cotação da moeda de 115% em uma base anualizada entre agora e o fim de junho, de acordo com dados da bolsa de futuros Rofex. Isso representa uma alta de 15 pontos percentuais desde a segunda-feira. “Podemos estar testemunhando o despertar do dragão da inflação, que pode se manifestar em uma busca desenfreada por dólares paralelos”, afirmou o analista Pedro Siaba Serrate em nota aos clientes da Portfolio Personal Inversiones.
De acordo com um relatório elaborado pela consultoria 1816, há ainda um componente eleitoral forte na atual disparada do dólar no câmbio paralelo — em um cenário que passa pela possível aproximação da oposição argentina ligada ao ex-presidente Mauricio Macri do candidato da direita radical, o atual deputado Javier Milei, que tem como proposta a dolarização da economia argentina.
Embora seja uma chance remota, ela abre a possibilidade de Milei se aproximar do poder. “Se o mercado perceber que há alguma possibilidade de Milei implementar seus planos, veremos uma corrida contra o peso”, dizem os analistas da 1816.
A disparada da cotação da moeda americana ocorre também no momento em que as reservas internacionais líquidas do país atingem seu nível mais baixo em vários anos. Essas reservas, segundo o Banco Central argentino, eram de menos de US$ 1,8 bilhão em fevereiro, segundo o último dado disponível — volume insuficiente para cumprir com o pagamento de dez dias de importação, dizem analistas. Há duas semanas, o ministério da Economia criou um novo tipo de câmbio, um “dólar-soja” de 300 pesos, para incentivar os exportadores de grãos a liquidar seus dólares até o dia 30 de maio.
Em seu melhor dia, na quarta-feira passada, o BC argentino registrou a liquidação de US$ 573 milhões — bem acima da meta do governo de US$ 150 milhões/dia. Mas esse volume se reduziu nos dias seguintes e ontem esse total caiu para apenas US$ 36 milhões.
“Fica cada vez mais clara a pouca capacidade do governo de controlar a cotação do dólar no paralelo”, disse o analista e diretor da EPyCA Consultores Martin Kaylos. “O que se espera é que, com uma inflação que em nenhuma hipótese será menor do que 80% neste ano, o blue chegue a 600 ou 700 pesos após as eleições”, afirmou.
Outro fator de pressão no câmbio é a incertezas nas negociações com o Fundo Monetário Internacional (FMI) — com o qual a Argentina fechou um acordo de US$ 44,5 bilhões há um ano. Refletindo o nervosismo do mercado, os títulos da dívida argentina com vencimento em 2030 caíram US$ 0,07 para cerca de US$ 0,27 ontem.
A alta demanda por moeda forte também tem elevado a cotação do dólar usado em operações financeiras (o CCL, “contado con liqui”), geralmente mais próximo do blue e que fechou ontem em 424 pesos — numa indicação de que o mercado busca compensar as perdas inflacionárias.
“A taxa de inflação divulgada na sexta-feira veio mais alta do que a esperda pelo governo, mas — diante dela — não há surpresa com o fato de os saltos da cotação, em termos nominais, serem altas”, disse um analista que pediu para manter-se anônimo. “O governo considera que se o dólar no paralelo estiver em torno dos 430 ou 440 pesos em maio, diante de uma alta de preços mensal em torno de 7%, estará dentro do esperado”, disse. “O maior problema para o Ministério da Economia é o ritmo lento das liquidações e da recomposição das reservas, que deve causar efeitos mais negativos para o governo nas eleições”, disse a fonte.
Fonte: Valor Econômico


