O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, deve anunciar uma nova rodada de tarifas sobre dezenas de países já nesta semana, apesar de seus assessores alertarem para o risco de repetir, às vésperas das eleições legislativas de novembro, os choques econômicos provocados pela primeira guerra comercial.
Autoridades do governo americano preparam opções para permitir que Trump imponham novas tarifas a dezenas de países, à medida que expiram, no final desta semana, as taxas globais de 10% atualmente em vigor, segundo pessoas informadas sobre os planos da Casa Branca.
Trump anunciou na noite de segunda-feira tarifas de 50% sobre produtos canadenses após ter aplicado uma alíquota de 25% sobre as importações do Brasil, reforçando sua fixação em utilizar tarifas contra parceiros comerciais.
A nova rodada de tarifas ocorrerá após a Suprema Corte dos EUA ter derrubado, no início deste ano, as tarifas recíprocas impostas no chamado “Dia da Libertação” em abril do ano passado.
Após a decisão judicial, a Casa Branca adotou, em fevereiro deste ano, um novo regime tarifário de 10%, mas essas taxas expiram na sexta-feira. O novo conjunto de tarifas seria implementado com base em uma investigação sobre práticas de trabalho forçado, permitindo que Trump evite recorrer aos poderes emergenciais, cuja utilização foi invalidada pela Suprema Corte.
Embora as novas tarifas mais imediatas devam ficar em um nível semelhante aos atuais 10%, o governo também conduz outras investigações que poderão lhe conferir respaldo legal para propor alíquotas mais elevadas.
Nos bastidores, autoridades do alto escalão do governo vêm aconselhando o presidente a preservar a estabilidade nas relações comerciais e honrar os acordos firmados por Washington em 2025 para reduzir tarifas com seus parceiros, segundo duas pessoas familiarizadas com o assunto.
A tentativa de Trump de retomar a guerra comercial ocorre em um momento de crescente tensão entre os EUA e o Irã, que abalou os mercados globais de energia e aumenta o risco de uma escalada para um conflito regional.
A guerra tem provocado impactos econômicos para os americanos, elevando nesta semana o preço da gasolina novamente para mais de US$ 4 por galão e ameaçando intensificar a insatisfação dos eleitores com o alto custo de vida.
Uma pesquisa realizada pela Focaldata para o Financial Times no início deste mês mostrou que mais de dois terços dos eleitores desaprovam a forma como Trump vem lidando com o custo de vida.
“Acho que a principal influência sobre o nível das tarifas é o ambiente político e as preocupações com o custo de vida, que limitam a capacidade de Trump de ampliar a escalada”, afirmou Michael Smart, diretor-gerente da consultoria Rock Creek Global Advisors, sediada em Washington.
Autoridades americanas suavizaram boa parte das tarifas mais agressivas originalmente propostas por Trump ao conceder amplas isenções para bens essenciais ao consumidor, como carne bovina e café, além de reduzir algumas tarifas sobre produtos fabricados com aço e alumínio.
Após duas recentes investigações comerciais envolvendo minerais críticos e peças de aeronaves, autoridades recomendaram que Washington negociasse com os parceiros comerciais, em vez de avançar imediatamente com novas tarifas.
“Isso não significa que aumentos tarifários tenham ficado para trás”, afirmou Wendy Cutler, ex-funcionária do governo americano e atualmente vice-presidente sênior do Asia Society Policy Institute. “Mas sugere que uma abordagem mais cautelosa é necessária, especialmente no período que antecede as eleições legislativas de meio de mandato.”
A Casa Branca e o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) não responderam aos pedidos de comentário.
As tarifas que poderão ser anunciadas nesta semana vão variar entre 10% e 12,5% para 60 países, com base em acusações de práticas de trabalho forçado, e foram inicialmente propostas por autoridades comerciais americanas em junho.
Os Estados Unidos abriram essa investigação — conduzida com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 — em março, juntamente com outra investigação sobre excesso de capacidade industrial, e realizaram audiências públicas sobre as propostas.
Essa segunda investigação envolve a União Europeia, China, Singapura, Suíça, Noruega, Indonésia, Malásia, Camboja, Tailândia, Coreia do Sul, Vietnã, Taiwan, Bangladesh, México, Japão e Índia.
A nova estratégia para impor tarifas evidencia que o governo agora precisa recorrer a um conjunto de instrumentos legais mais específicos e processuais para aplicar tarifas elevadas, em vez de poder impor rapidamente pesadas tarifas com base nos poderes emergenciais da Presidência.
Fonte: Valor Econômico
